sexta-feira, 26 de setembro de 2008

JOYCE

Abriu os olhos devagar. As janelas, como sempre, estavam fechadas e as cortinas pesadas e vermelhas cobriam qualquer fresta por onde o sol pudesse entrar. Olhou o despertador: 14:48. Um bom horário pra se levantar. Calçou os chinelos. Teria um bocado de trabalho pra fazer agora pela sua manhã. A idéia do fogo nem sequer passava pela sua cabeça. Por enquanto, ela pensava que precisaria limpar as fezes dos ratos, alimentá-los, acariciar um ou outro que estivesse mais tristonho. Precisaria também alimentar Moema, a macaca. Moema há muito andava triste. Gostava dos sons dos sintetizadores, Moema, mas os sintetizadores haviam virado pedra. A maioria dos móveis havia virado pedra. A casa, agora uma ruína com chão de tábua, havia virado pedra. A carreira musical tinha virado pedra, primeiro pó, depois pedra. A beleza, os cabelos ruivos, a juventude, tudo tinha se perdido entre as pedras. O tempo é impiedoso. As pedras são impiedosas.
Foi até à cozinha. Os ratos rodeavam-lhe os pés. Havia dezenas deles. Estavam agitados. Desviou dos buracos no chão. Pisou metodicamente em alguns lugares onde as tábuas estavam soltas. Chegou à cozinha. Moema veio pulando pelas vigas do teto e ficou fazendo festa em cima da pia. Abriu a geladeira verde de porta grossa e vermelha. Empurrou o marmitex que já havia sido aberto e estava mal fechado para o lado. Pegou a caixa de peixes, estava repleta de peixes, a caixa, mas o aspecto deles, dos peixes, não era nada bom. Por cima dos peixes, estavam amarrados, com uma fita preta, um par de pés de galinha amarelos. Tirou os pés de galinha e colocou-os no congelador, seriam melhor conservados ali. Os ratos no chão davam pequenos pulinhos. Jogou alguns peixes um pouco distante de si. Os ratos correram como loucos pra cima da comida. Sorriu. Entregou a Moema, a comida de Moema. E a macaca ficou feliz. Voltou pra geladeira. Suas mãos enrugadas e cinzentas abriram o marmitex e apanharam uma rodela murcha de tomate, levou o alimento à boca de dentes raros e podres. Sentiu náuseas. Jogou o tomate no chão. Quase nada lhe descia mais.
Chegou perto dos ratos. Comiam rápido. Pegou mais alguns peixes e jogou para os animais que não conseguiam chegar perto da comida. Passou a mão no pêlo de alguns deles. Em algumas unhas ainda havia resquício de esmalte preto. Estava faltando alguém. Conhecia cada um de seus bichinhos. Sentiu um calafrio chacoalhar-lhe todo o corpo. Onde estaria Valkíria? A maior e mais carinhosa de suas ratazanas? Olhou novamente pra ter certeza de que ela não estava entre os outros roedores e teve certeza de que ela, Valkíria, não estava ali. Outro calafrio. Já estava acostumada à febre, mas, às vezes, como agora, os calafrios vinham mais fortes e ela não se sentia nada bem.
Andou até um dos buracos no chão, o maior deles. Abaixou-se. Olhou lá embaixo. A ratazana estava quieta, deitada num canto escuro. Pegou-a. O animal não se mexia. Ainda estava viva, mas a barriga inchada, rachada e o líquido escorrendo pela boca indicavam que o veneno havia sido fatal. Acariciou-a na barriga.O pior é que desconfiava que ela, Valkíria, estava grávida. Continuou acariciando o animal até ter certeza de que a vida tinha saído por inteiro dele. Foi até o banheiro. Abriu o armário. Não admitia mais espelhos pela casa. O reflexo seria insuportável. Pegou um pedaço de jornal. Enrolou a ratazana nele. Depois colocou tudo numa sacolinha de plástico verde escura. Abriu a minúscula janelinha do banheiro de uma maneira que pudesse jogar o embrulho pra fora sem que seus olhos ficassem muito expostos à luz. Todavia pode ver um homem, albino, passar dentro de um carro vermelho lá fora. Ainda abriu mais uma vez o embrulho para ver a ratazana antes de jogá-la pra fora. Depois fechou rapidamente a janela e a cortininha.
Voltou para o quarto. Abriu uma das portas quebradas do guarda-roupa. A porta despencou sobre o pé direito cortando-o. Correu um filete de sangue. Limpou-o com uma saia velha. A ferida rapidamente se cicatrizou. Da casa do vizinho vinha um som baixo de piano. Parecia que tocavam uma música qualquer de natal. Pegou o cachimbo branco, extremamente branco, de marfim talvez, de dentro do guarda-roupa. De um cinzeiro de metal dourado em cima da cama, recolheu as bitucas de cigarro. Retirou deles, dos cigarros, o resto do fumo e das cinzas e colocou tudo no cachimbo. Quebrou a pedrinha branca em pequenos pedaços e colocou-a também no cachimbo. Reacendeu um pedaço de vela vermelha que estava no castiçal dourado perto da janela, sobre uma velha cômoda infestada de cupins. Encostou um palito de madeira, usado talvez para pintar as unhas, na chama. Em seguida acendeu o cachimbo com o palito e fumou-o, mas o cachimbo apagava a todo instante e por isso ela tinha constantemente a necessidade de reacendê-lo. Talvez isto a irritasse.
Moema entrou no quarto brincando com um pedaço do que um dia havia sido uma flauta doce. Joyce sorriu. Acendeu ainda uma outra vela, branca desta vez, e colocou-a perto da cama. Apanhou no guarda-roupa um livro de capa preta. Deitou-se na cama. Abriu o livro e o livro era O morro dos ventos uivantes, e a macaca continuou a brincar com o pedaço de flauta, e os ratos vieram para a cama, para perto de sua dona, e qualquer vento mais forte que entrasse pelas frestas da janela poderia empurrar a cortina vermelha para perto das chamas da vela também vermelha.

10 comentários:

f@ disse...

Olá Daniel, eu... nem olho desperta dor ...por causa da dor do sono...
de cortina cerradas ... empedernidas ...
duas pedras e faisca ...luz lume...
não sei se são tão impiedosas como os seres humanos...
que a juventude nas pedras... não é difícil... Os ratos servem de alimento ás cobras.. os ratos são um jogo para os gatos como para os Homens...Valkíria grávida ....como a gatinha abandonada aqui na rua...não tem flauta para encantar o desencanto...

Mas o teu texto tem encanto e instiga tanto .... que dá vontade de ver as crias crescer ...

Desculpas tb pela ausência e falta de tempo...
depois volto para rever ... entretanto passa por aqui e salpica-te :

http://flautistaon.blogspot.com/
beijinho salpicado de nuvens

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Muito bom. Li de um só fôlego. Aliás, a sua prosa cativa tanto que a gente não quer parar, me chamavam lá dentro, mas não fui só para terminar de ler. Mas que coisa fantástica, toda essa putrescência, toda essa miséria, rebaixada ao nível dos ratos. E sabe o que me chamou muito a atenção? O Morro dos Ventos Uivantes, pois traduzi esse livro e nele imperam os instintos mais primais do ser humano. Você está de parabéns, depois dessa virei fã de carteirinha. Andava com muitos problemas, mas tudo se está resolvendo. E aproveito o ensejo para convidá-lo a ir ao meu Blog, apreciar a minha Galeria. Faz tempo que vc não vai lá. A Marcia diz que só vai depois de ler tudo. Se assim for, não vai nunca, pois faço postagem uma vez por semana, e retiro a passada. Mas quero que vc vá nessa. Há uma infinidade de coisas, escolha algo e dê a sua opinião, não precisa ler tudo. Conto com vc.
Um beijo,
Renata
wwwrenatacordeiro.blogspot.com

Ingrid Guerra disse...

Ah, então eu devo ter começado a ler, sem conseguir terminar, e depois, quando voltei, esqueci que tinha te visitado antes. Minha cabeça anda meio lesada. Desculpe o equívoco.
Quanto ao Joyce, as horas confirmam minha teoria: 14:48, você adora números quebrados, não é?! A morte da Valkíria me fez lembrar de um episódio, da minha infância, quando meu pai “assassinou” um ratinho negro, fofinho, no banheiro. Eu tinha medo de ratos, mas não queria vê-los morrer. Foi triste, como a morte da Valkíria.
Bom, fico por aqui.. abs procê.

Lord of Erewhon disse...

Encontrar o eterno e o meritório no efémero quotidiano são a maior descoberta e tarefa da poesia.

Abraço.

On The Rocks disse...

Olá,

Linkei teu blog no On The Rocks.
Tenha um bom dia!

Abs,

Luciano Fraga disse...

Extremamente triste, melancólico, uma constatação retratada em forma de poesia dos nossos dias.Não sei ao certo se são as pessoas ou o mundo que tem-se tornado pedregosos. Resta-nos a chama nas cortinas fechadas e a convivência com os ratos. Grande texto, abração.

marcio mc disse...

Um texto triste, mas extremamente real.Valeu Daniel.

anjobaldio disse...

Muito bom, cara. Grande abraço.

Blood Tears disse...

Qunatas pessoas não escolhem viver na escuridão e alimentar os ratos das suas vidas? A decisão de continuar ou não, pode sempre depender do vento...

Blood Kisses

jawaa disse...

Aqui bem à esquerda, pergunta quem é você. Eu respondo: um fantástico escrevedor, escrevinhador, um escritor de verdade que debita palavras em frases, textos, escrita que escorre e que se lê num sopro.
Poesia também.
Um abraço