domingo, 7 de setembro de 2008

Frankenstein Lírico dos Meus Sonhos de Alcalóide


Acendo um cigarro e ligo o som do carro. FM. “Queria saber voar... para do alto poder ver você”. Bonito. Dengoso demais talvez para o meu gosto. Mudo. “ E de repente vi você sair com a toalha no seu corpo”. Lindo, mas todas as estações de rádio parecem conspirar contra mim nesta tarde azul e amarela. SOU UM CANALHA. É fato, e os canalhas não têm sentimentos. Mas estas músicas cutucam-me. Agulhas invadindo suavemente as pontas dos dedos. Não sangra e nem dói, como ela me disse num tempo mítico, enquanto éramos crianças e inventávamos um ao outro, superando o tempo dos relógios e o espaço de metros, milhas e quilômetros de distância.

- Queria ter um filho teu. – Ela me disse ainda na semana passada. Ela gosta de falar e... juro por Deus que eu nunca tinha ouvido prova maior de amor e admiração. Os homens, não digo a humanidade, digo os homens, são como crianças: só querem ser amados e admirados, contudo, quando conseguem amor e admiração, eles se rebelam e agridem quem os ama e admira. São feito um menino de um ano que esbofeteia a mãe, enquanto ela o amamenta. Há amor íntegro, puro e verdadeiro até nessa bofetada.

Quando terminamos, pelo telefone como qualquer bom canalha faria, ela soltou a seguinte frase nos meus ouvidos:

- Eu componho, você se esqueceu? Engana-se quem pensa que fazendo um artista sofrer, faz mal a ele. A dor é a matéria prima de que me alimento, querido. Você é parte de mim. Mas tenho agora que vomitá-lo, porque você mesmo quer, não se assuste se um dia você se ouvir lambuzado de vômito no banheiro de uma lanchonete qualquer. – E aí ela desligou e eu fiquei com o telefone na mão, imaginando que nunca seria um escritor de verdade, porque eu demorava um texto inteiro para criar uma única metáfora, ao passo que ela as criava numa conversa com um amigo, num passeio pela praça, numa despedida... numa despedida...

Deve estar fazendo uns quarenta graus. Desligo o rádio. Tudo parado. O rio poluído da minha cidade ferventa gomoso ao lado. Abrir a porta e dar um mergulho seria o suficiente. Mas sou um canalha e os canalhas não se matam e ela disse que queria ter um filho meu... um filho... e meu! Vai entender.

Ela tinham (isso não é um erro, porque ela era mesmo mais de uma) uns olhares que me liam e eu me assustei e quis ir embora e ela havia desenhado meu rosto e nenhum espelho antes havia me dito que um canalha podia ter os olhos tão tristes. Então saí correndo com o meu desenho embaixo do braço e escalei uma montanha de cocaína e no outro dia eu não tinha mais nariz, nem olhar, nem nada e o papel que eu carregava nas mãos estava em branco, como se jamais tivesse sido tocado, nem por lápis, nem por caneta e nem por mãos de gente... e ela disse que queria ter um filho meu! Mas eu achei que ela era doida, porque quem poderia ser tão lunática a ponto de querer gerar uma vida a partir de um canalha?

Penso em acender outro cigarro, mas desisto. Viro para o lado e vejo a menina que me observa ao volante de um carro vermelho. Do outro lado, uma outra de olhos verdes me sorri. Mais atrás, essa de cabelos nos ombros buzina pra mim. Só então percebo que todos os carros ao redor são guiados por mulheres. Por dentro da minha cabeça louca, eu arranco os olhos de uma, junto com o sorriso de outra, misturo ao olhar de uma terceira. E te reconstruo toda só pra mim. Frankenstein lírico dos meus sonhos de alcalóide.

Então, enquanto ainda danço em círculos com você dentro da minha cabeça, percebo que uma das moças abriu a porta do carro e vem na minha direção com uma faca nas mãos. Olho então no espelho e a outra se aproxima com uma espada de samurai. A da frente vem com um revólver.

Sem me precipitar, acendo enfim o cigarro. No cerne da fumaça azul, dez mil almas femininas bailam e choram e sorriem e se acumulam no céu, feito imenso telhado, construindo uma noite em plena três horas e vinte sete minutos da tarde.

Estou feliz. Sou um canalha.

12 comentários:

biazinha disse...

Soubeste personificar fielmente o perfil de um canalha, inclusive o seu lado humano.
Um bom texto pra se postar na NA. Esse fim-de-semana praticamente não entrei na NET, mas a partir de amanhã colocarei todas as visitas aos blogues amigos em dia.

Beijos.

Ingrid Guerra disse...

Três horas e vinte e sete minutos da tarde. Tá aí, prova cabal. Números quebrados são a sua assinatura. Marca registrada!
Gostei. Abraços. Ótima semana.

Luciano Fraga disse...

Caro amigo Daniel, belo texto, só o título já é um achado, pagou o ingresso.Biazinha foi feliz quando percebeu o lado humano, ou o lado canalha que aflora com maior força em certos seres humanos, mas tudo tem o seu preço, talvez o do canalha seja sendo mal amado,embora considere-se feliz assim mesmo, para refletir, grande abraço.

Blood Tears disse...

na verdade muitos fogem assim que imaginam que se estão a envolver demasiado.... Quem sou eu para julgar, não é verdade? Afinal, desconhecemos as razões que por vezes levam as pessoas a transformarem-se em cruéis e canalhas....

Um belíssimo texto de reflexão... :)

Blood Kisses

jawaa disse...

Você é um belo dum canalha escritor.
Feliz, ainda por cima!
Li antes na NA.
Um abraço

Ruela disse...

Tens uma bela escrita,
já tinha reparado na NA...tenho andado um pouco afastado mas voltarei.

Obrigado tudo de bom.

Alice disse...

Li esse texto ontem e sim, me vi no texto. Vai saber. Acho que todo texto é releitura do que a gente vive. Gosto da verdade embutida no seu modo de escrever. Me fez lembrar de um amigo que escreve também. Você e a Marcia têm um jeito de escrever que onde um esquece um ponto, o outro continua.

E sim...

"A dor é a matéria prima de que me alimento."

(Daniel Lopes)

Se cuida.
Um abraço.

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Traçou exatamente o caráter de um verdadeiro canalha, num texto muito bem escrito, Boxeador.
Já avisei a Marta às 3 da manhã que não vou fechar o meu Blog e que, de quebra, fiz um novo post, comentando um excelente filme.
Apareça:
wwwrenatacordeiro.blogspot.com
Um abraço,
Renata

biazinha disse...

Vim aqui comunicar que não comentarei mais trabalho algum na NA, pois me desliguei de lá devido ao fato de term tirado meu irmão klatuu de lá.

Beijos.

Crisfonseca disse...

Olá,
Um belíssimo texto, escrito com maestria. E profundo.
Beijos,
Cris

Camilla Tebet disse...

"Por dentro da minha cabeça louca, eu arranco os olhos de uma, junto com o sorriso de outra, misturo ao olhar de uma terceira. E te reconstruo toda só pra mim. Frankenstein lírico dos meus sonhos de alcalóide."
Um Encaixotando Helena de amor. Amor?? Coisa de canalha que escreve.... malandro de palavras, que não erra uma.
Bom demais esse texto. Bom demais.

Xavier disse...

Daniel,

só agora pude ler seu texto. E vi muita verdade aqui. Vi mídia que alienam humanidades e vi humanidades necessitadas. Não sei se sou um canalha, mas também não suporto vazios e logo tombo.

no fundo somos um carrinho de controle remoto sem remoto nem controle. só o amor nos guia.

abraço forte.
continuemos...