quarta-feira, 20 de agosto de 2008

A VELHA... A MULHER... A TORRE... O FOGO...


Existe uma torre enorme... velha.. quase que totalmente em ruínas, no meio da floresta. Uma mulher, não muito jovem, mais ou menos cinqüenta anos, olha do alto da torre. Já não é bonita, mas tem traços de quem um dia possuiu beleza invejável. Não a conheço. É preciso aproximar-se...

Há muito não existia mais o circo. Há muito que o circo não era mais que um conjunto de lembranças, de sons, de cheiros. A lona que cobria todo o espetáculo não passava agora de mil retalhos espalhados pelo chão de casinhas de cachorros, coberturas de telhados em barracos distantes, fragmentos enterrados esperando pela devoração da terra. Os leões estavam mortos. Os tigres estavam mortos. O mágico se suicidou. Os palhaços mudaram de profissão. O homem bala desistiu de voltar à Terra. Do circo mesmo só sobravam ela, suas lembranças e a velha, a ordinária da velha, vivendo nesta torre imunda no meio do nada. Longe ficaram as multidões. Longe ficaram os aplausos. Longe ficou a beleza. Agora tudo, até a floresta, cheirava a mofo e derrota. Por que sempre havia tantas nuvens no céu? Por que não estava em outra história, onde um dia, embaixo desta torre, pudesse surgir um príncipe? Não tinha mais esperanças e nem acreditava que um dia o príncipe viria. Nem sequer o fogo a encantava mais. O fogo que sempre a havia fascinado tanto. Não via mais graça em apagar tochas nos lábios, ou fazer o fogo fugir de sua boca como um monstro incontrolável. Agora o fogo estava quase que totalmente apagado dentro dela. Ainda havia chama, mas era pequena, não era mais aquela energia incontrolável que escapava por todas as partes de seu corpo. Passou a mão pelos braços escamosos, verdes, sujos, peludos. Não pôde acreditar que tinha se transformado naquilo, naquela coisa medonha.

- O chá está servido!

Estremeceu ao ouvir a voz sair do orifício da escada em espiral, feito as larvas de um vulcão em erupção. Sempre estremecia ao ouvir a voz da velha. Mas que merda, agora até ela já era uma senhora, quase uma velha! Por que não perdia de vez o medo dessa desgraçada? Foi até a entrada da escada. Tudo estava escuro dentro da torre, e o cheiro que vinha lá de baixo, era ainda mais podre que o cheiro que voava aqui em cima. Sentiu aquele ar quente, denso, invadir seus poros, suas narinas, seu corpo. Quarenta anos suportando essa mulher! Quarenta anos suportando esse cheiro sujo dela, essa presença flácida dela, essa barba dela espalhada por todo o corpo. Quarenta anos suportando aquela língua áspera dela! Já não era mais criança, não precisava mais ficar suportando tudo aquilo, ou precisava? Por que diabos tinha que ficar agüentando aquelas coisas? Ao longe, atrás das árvores, ela sabia, havia outras coisas. Não era o circo, porque o circo havia ficado no passado e ela não sabia de nenhuma estrada que levava até aquele tempo. Mas era alguma coisa boa, porque ela sentia, nas noites em que a lua era cheia, um cheiro bom, um cheiro de rosas vermelhas, que passava por dentro do fedor e chegava até as suas narinas. Devia haver um jardim inteiro de rosas vermelhas depois daquelas árvores escuras.

- O chá está servido!

Definitivamente não suportava mais aquela merda toda. Em algum espaço depois das árvores tinha que existir um lugar onde houvesse rosas vermelhas, vestidos vermelhos e fogo, muito fogo. Ao redor do qual a gente pudesse dançar e bater palmas. Mas a velha continuava soltando seu cheiro pelo orifício da escada. Teria que descer até lá. Olhar pra ela, para aquela barba dela, agora ainda mais branca e nojenta. Teria que se sentar à mesa e provar daquele chá amargo.Teria que olhar pra velha e ver que nos bigodes dela se acumulavam, há anos, imensas gotas de chá. Não agüentava mais aquilo. Tinha vontade de voar.

- Desça logo, senão o chá vai esfriar.

Distanciou-se da escada. Foi novamente até a beira da torre. Não ficaria ali por mais tempo. Aquele tormento tinha que acabar. Por um instante sentiu-se bonita de novo, jovem de novo, forte de novo. Sentiu que de um momento pro outro a chama que ainda existia dentro dela tornou a ganhar força. De algum lugar, alguém tinha colocado lenha naquela chama quase apagada. Seria eu? Percebeu também um ardor frio nas costas, como se uma fina navalha tivesse passado por ali. Em seguida notou que algo crescia no lugar onde antes havia o ardor. Sorriu. A chama continuava a crescer. Era como há trinta anos. Teria que encontrar as rosas. Não podia mais ficar longe delas. O pior que podia acontecer era morrer estatelada lá embaixo, caso não conseguisse. E se estatelar lá embaixo ainda era melhor que continuar na torre, com aquela velha, aquela escada, aquele cheiro.

- Será que eu vou ter que te buscar aí em cima?

Não, com certeza a velha não teria que buscá-la lá em cima. O fogo era grande de novo dentro dela. Subiu na pequena mureta, o ponto mais alto da torre. Estava perto do delírio. Bateu-as de leve e sentiu que as asas nas suas costas já davam a ela condição de voar. Soltou pela boca o excesso de fogo que seu corpo não poderia conter. Era muito fogo e era um fogo intenso que fez arder àquelas árvores. Bateu novamente as asas, agora com um pouco mais de força, mas ainda não o bastante para voar. O fogo voltou a sair de sua boca, de suas narinas e dessa vez saiu ainda com mais força. Havia poder pra ela no fogo. E ela teve certeza de que era capaz.

Saltou do alto da torre na direção de onde, nas noites de lua cheia, vinha aquele cheiro bom de rosas, de rosas vermelhas. A velha lá embaixo intuiu que alguma coisa estranha havia acontecido, mas não teve coragem de subir as escadas pra constatar.

15 comentários:

biazinha disse...

Wow...otimo!
Impressionante esse detalhismo do ambiente, praticamente me senti agente da ruína decadente e a esperança ressurgir junto com a da protagonista.
Demais!

Beijos.

Ingrid Guerra disse...

Olá Daniel, tudo bem? Vim lhe retribuir a visita, agradecer os elogios e o comentário. Valeu, mesmo! Ficarei muito feliz em lhe receber novamente em meus arquivos. Descobri que você é escritor e professor de literatura – o que, às vezes, como você mesmo citou na entrevista ao seu xará, é uma tarefa um tanto ingrata. Lembro-me bastante de minha professora de literatura, mas não exatamente por ela ter aberto meus horizontes literários e sim por dar aulas levemente embriagada. Contudo, era uma boa pessoa.
Adorei o título do seu livro. Devo estar criando uma estrelinha em algum lugar. Só fiquei confusa com a capa (surrealista) de torradeiras voadores (aliás, existe um grupo musical com esta alcunha) e com o 21 contido no título do seu blog. Bom... hoje fico por aqui. Também voltarei. Abraços.

Marcia Barbieri disse...

O texto é como sempre maravilhoso, aliás, você sabe que se não fosse um escritor excepcional eu não teria olhado pra você. Eu já disse que te amo hoje??? Eu amo, mesmo de TPM.

Sua Marcita

Alice disse...

Li esse texto ontem, Daniel, mas não comentei porque já estava tarde e li como se faz com um livro. Ler para receber histórias. E as suas são densas e têm detalhes que, um única leitura, não consegue observar.
Trocando em miúdos...
Você escreve bem demais e deixo um comentário para dizer que leio e admiro seus textos e seu talento.
Sempre lendo.
Letícia

biazinha disse...

Pena que tu não aceitaste o convite da NA, mas pelo menos a Márcia aceitou ao convite.
Obrigada por ter aceito a sugestão.

Beijos.

biazinha disse...

Então clica num desses links que criei pra ti, e fala diretamente com meu maninho luso que é um dos administradores, esses são seus dois personagens de blogue:
Klatuu Niktos

Lord of Erewhow

Sê bem-vindo...aguardo teu primeiro post.

Beijinho.

f@ disse...

Gostei imenso, estava a ler e... o circo... as acrobacias aquela magia em contras-te com A Velha... alta a torre e a luz arsente do fogo...
... nas asas do sonho com perfume de pétalas de rosas vermelhas ... o trapézio da vida tem rara beleza...
beijinhos das nuvens

Arroba disse...

Magnifico conto , este seu!! Os meus parabéns!
continuarei a lê-lo

Ingrid Guerra disse...

Confesso que suspeitei que o conteúdo do seu livro tivesse algo de surreal, pois, percebo um pouco disso nos contos que você escreve aqui. Todavia, por não ter lido a obra, fiquei com receio de fazer tal associação. Quanto à extensão do título, apesar de longo, não creio que seja um problema (ou apenas para o responsável pelo planejamento gráfico), contanto que desperte atenção do público. E isso ele faz.
Como pode perceber, ainda não li “Assim falava Zarathustra”, mas tanta gente fala nele que vou me obrigar a lê-lo (o mais rápido possível). Valeu pelas respostas e dicas. Abs.

pianistaboxeador21 disse...

Que bom que gostou, Bia. E a idéia é aquela mesma. Por mais que as coisas pareçam não ter mais jeito, basta a gente colocar um pouco de fé que tudo anda. Nem que, para isso, uma engolidora de fogo aposentada no circo tenha que se transformar num dragão.

Ingrid, como já respondi no seu blog, tudo que vc diz é muito acertado. Obrigado por ter corrido atrás e ter encontrado até a entrevista.

Márcia, te amo com ou sem tpm,mas vai dizer que antes do texto vc já não ficou pagando um pau para os meus olhos de ressaca?

Alice, se acha que escrevo bem demais, eu fico contente, pq sei que não tem papas nos dedos e, quando não gosta de um texto, vai logo teclando. Já senti a sua verve irônica no Formigas, lembra? Força e paz.

Fa, mil obrigados pelos comentários. Estou de olho nas tuas nuvens, ele me aclamam e me fazem bem.

Obrigado pela visita ao pianista Arroba. Já te linquei e estou de olhos no que fazes.

Que todos sejamos felizes e vitoriosos.

Abraços,
Daniel.

MARTHA THORMAN VON MADERS disse...

Soberbo!
entrei aqui pelo blog de uma amiga,e nossa, fiquei em transe!
belíssimo!

Cadinho RoCo disse...

Os sonhos buscam de nós a realidade.
Cdinho RoCo

Maldita Futebol Clube disse...

ESSE MISTICISMO DO AMBIENTE E AS FIGUARAS DE METAFORAM AJUDAM NO LINEAR DE SUA ESTÓRIA. IMPRESSIONA O DETALHISMO E AVONTADE DE RESSURGIR A ESPERANÇA PROLIFERA AO FIM. PARABÉNS, AGORA ÉS PIANISTA OU BOXEADOR? ABS...LEANDRO

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Amigo:
venho aqui para agradecer e retribuir a visita que você fezz ao meu espaço e os elogios tecidos. Faço postagem toda semana sobre algum filme e publico obras de amigos da Blogosfera. Vou passar a chamá-lo sempre que as fizer.
Um abraço,
Renata Cordeiro
wwwrenatacordeiro.blogspot.com

Blood Tears disse...

A descrição detalhada levou-me a cheirar as rosas... uau... Adorei!