quarta-feira, 13 de agosto de 2008

A SOLIDÃO COMO UM VAZIO NOS BOLSOS


Não sei bem como começar com isso. Não sei se é uma carta, ou um conto. Não sei se uso o ele, ou o você. Mas isto também não importa, pois o próprio Cortázar já tratou dessas impossibilidades. Vou seguir a vontade então... Bem... Nós devíamos ter uns doze, ou treze anos por essa época. Estávamos descobrindo o Pink Floyd e as mulheres eram um sonho distante. Seres de um outro planeta, quem sabe até de uma outra galáxia. Eu não tinha nada, além de uma BMX pantera branca, com os pneus vermelhos. Mesmo assim, se uma garota me dissesse. “Você me dá a bicicleta, que eu te dou...” Eu teria entregado a minha BMX sem pensar duas vezes. A masturbação era uma realidade triste e o mundo era um inferno desconhecido. A gente ainda não sabia das maldades que as pessoas podiam cometer. Maldade pra gente era não dividir um chocolate, ou um refrigerante.
Ele era meu primo. Ele é meu primo. Você é meu primo. Mas, antes de ser primo, ele era o meu melhor amigo. Andando a pé, eu demorava uns dez minutos pra chegar à casa dele. Mesmo assim, eu passava todas as férias lá. Porque estar perto, era uma maneira de ser confidente e de dividir a mesma dor. Além disso, o pai dele gostava de uma cervejinha, e, quando bebia, trazia um bocado de doces pra gente. Acho que isto herdei dele, do meu padrinho, porque o pai dele era meu padrinho. Hoje, sempre que bebo, levo doces pra casa. Uma malandragem pra evitar brigas, ou um meio de ser amado pelas crianças, não sei ao certo.
Nós dois éramos esta espécie de território abandonado que são os filhos do meio. Nem tão amados, quanto os mais velhos, nem tão mimados, quanto os mais novos. Talvez isto nos desse espaço pra sermos rebeldes, talvez isto nos desse liberdade pra sentir o rock como uma verdade íntima e profunda. Era tanto Iron Maiden, e tanto Metallica que eu tinha certeza que não chegaria com os ouvidos intactos aos trinta anos. Vou fazer trinta e um. Vamos fazer trinta e um. Ainda ouço bem, embora as canções de hoje sejam mais amenas.
Esse era meu primo Eduardo, o cara que viveu coisas ao meu lado, que, por mais que eu tente não consigo esquecer. Agora também não quero mais esquecer. Embora tenhamos mais rugas e sejamos outros, tem coisas que nunca sairão da minha cabeça e nem do meu coração. Uma dessas coisas, é aquela vez em que estávamos limpando o fusca marrom do seu pai e, enquanto eu passava pretinho nos pneus e você colocava um Black Sabbath pra tocar, alguém, você, gritou alto por cima do Paranoid:
- Eu sei dirigir!
- O que? Perguntei, duvidando da história toda.
- Eu sei dirigir.
- Sabe porra nenhuma. Eu vivo aqui na sua casa o tempo todo e nunca vi você nem ligar o carro.
- Duvida que eu sei dirigir?
- Duvido.
- Abre o portão então que você vai ver.
Corri até o portão e o abri excitado. Aventura sempre foi aventura, além do mais, eu era jovem. Lembro do barulho do motor quando você deu a partida e da ré torta que você deu. Toda ré é ruim. É a minha opinião. Contudo você conseguiu sair pelo portão escancarado. E eu fechei o portão, e entrei no carro, e colocamos o som no talo, porque era mesmo muito rock n´roll para cabeças tão jovens. Então você saiu cantando os pneus e eu fiz do painel uma bateria. E tudo o que a gente conseguia sentir era que a gente era mesmo FODA! Só que aí aconteceu uma merda, pra variar, né? Na primeira curva você perdeu o carro e entrou de cara no poste. A farra tinha terminado. Era a hora da ressaca. O carro tinha deixado de funcionar. Você estava desesperado. Nervoso. Não conseguia mais ligar o carro. Tive que correr até a sua casa e chamar seu irmão mais velho. Tudo o que você conseguia dizer era o seguinte:
- Daniel, fodeu Daniel!
E tudo o que eu conseguia dizer era o seguinte:
- Calma, bicho, não vai dar nada.
Se deu alguma coisa, ou não, eu não sei. Não fiquei lá pra saber, tratei de pegar correndo o caminho da minha casa. Podia sobrar pra mim e eu sempre fui covarde.
Agora o tempo passou. Tudo isso ficou longe e não temos mais medo. Nos distanciamos. Fizemos novos amigos e novos falsos amigos. Nos casamos, eu tive filhos e você sossegou. Eu não, às vezes bebo demais. Só de saudades de tudo que fui perdendo pelo caminho. Sei que a vida sorri cheia de sucessos nos bolsos pra você, apesar do desemprego, que é mesmo uma bosta passageira.
Seu pai morreu há dois anos e eu não pude dizer nada, porque nunca fui muito bom pra falar as coisas. Um dia antes de ele morrer, nós dois fomos juntos ao hospital e você estava meio doido, falando um bocado de coisas sem sentido. Lembro que meu padrinho estava lá inconsciente, com todos aqueles aparelhos enfiados na boca e no nariz dele. E nós dois ficamos lá. Um de cada lado da cama. Segurando nas mãos dele e então, no dia seguinte, ele faleceu. Pelo menos eu me despedi, pensei, como se tivesse também me despedido da minha infância e dos meus sonhos.
Espero que seja feliz e eu, do meu lado, me alegro ao ver brotar no meu filho, todas as trapalhadas e a inocência que eu mesmo tive... um dia. Estamos vivos, deveríamos assar uma carne qualquer dia desses.

2 comentários:

Anderson Cádor disse...

Cortázar é espelho.
Espelho também somos e nos enxergamos em nossa gente e nossa gente de perto.

Um filho deve ser mesmo uma parte que completa. Morte ou?

A vida vale um pedaço de carne.
Talvez?

Marcia Barbieri disse...

Sempre genial,o que poderia ser apenas uma lembrança se transformou em Arte maior.

Te amo
Marcita