segunda-feira, 18 de agosto de 2008

PÓRTICO PARTIDO PARA O INFINITO

“please, please, please, let me get what i want this time”
The Smiths

- Que foi? – Ela perguntou.
- Acho que vou sair pra fumar um cigarro. – Ele respondeu.
- Tudo bem.
Ele foi pisando suavemente o tapete vermelho (não porque pisava suave, mas porque o sapato estava apertado) e olhando a barra da calça social dançando de um lado para o outro. Balançou a cabeça. Quanta artificialidade! Não gostava de tapetes vermelhos e nem de roupas sociais. Não era nenhum brucutu, mas era um homem simples, que gostava de lidar com a terra e cultivar suas flores. Era um homem que gostava de ficar em casa, lendo seus livros, escrevendo, ouvindo os discos, estudando idiomas. Ela não, ela achava que o glamour era parte do jogo. E olha... ela sabia jogar o jogo.
Acendeu o cigarro e tragou fundo. Ficou observando a fumaça leve e azul se dispersar no céu escuro da noite. Em sua cabeça martelavam ininterruptamente uns versos pontuais do Álvaro de Campos, Pórtico partido para o infinito . Que diabo! Como alguém podia ter escrito um poema daqueles? O que é que qualquer um podia fazer depois de um poema como aquele? Ouviu o som das palmas vindo de dentro do teatro e apagou rápido o cigarro com a sola do sapato. Entrou apressado. Todo o público já estava de pé aplaudindo. A esposa percorria o último trecho do corredor lateral antes de chegar ao palco. Sorridente. Deslumbrante em seu vestido vermelho. Subiu os degraus que levavam ao centro do espetáculo. Agradeceu a todos. Acreditava que o prêmio sem dúvida era o resultado, o reconhecimento do seu esforço. Era guerreira, tinha batalhado muito para ter chegado onde estava. Foram noites e mais noites de escrita e reescrita, num esforço interminável, mas agora lá estava o prêmio. Em dinheiro e em reconhecimento. Beijou o jovem cantor, que fazia as vezes de mestre de cerimônia, no rosto, quase na boca pra dizer a verdade. Ele sentiu o canino do ciúme roçar-lhe a pele, e acabou esfregando as mãos e cruzando os braços. Ela pegou o troféu e ergueu-o alto, como se em vez de escritora fosse uma atleta. Então voltou caminhando outra vez pelo corredor, balançando sensual, mas elegantemente, os quadris. Sentou-se ao seu lado.
- Meus parabéns! – Ele disse.
- Obrigado, amor.
Os olhos dela brilhavam cada vez que olhava o troféu em suas mãos. Não havia dúvidas de que dava muito valor àquilo tudo. O terceiro prêmio literário em menos de um ano. Definitivamente, as coisas estavam acontecendo pra ela e ela tinha acabado de completar trinta anos. Ele tinha cinqüenta e dois e mal publicara um livro apagado, com recursos próprios, entretanto ele não se importava com essas coisas, ou se importava? E se não se importava, por que continuava tentando escrever? Ninguém escreve para si mesmo, ou escreve?
Mas dentro do teatro terminou a cerimônia e as pessoas se dirigiram para a sala de Festas, onde agora começava um coquetel. No caminho, ela sorri e cumprimenta muita gente. Uma boa parte dos homens aproveita para beijá-la, é óbvio que querem tirar uma casquinha, mas ela não se importa, talvez até goste. Ele pede um uísque duplo sem gelo e sem água, a moça vai de pró-seco. “Pelo menos a banda toca bem”. Ele pensa enquanto espera a bebida chegar.
- Licença só um instantinho amor, preciso cumprimentar o presidente da Editora que vai publicar meu livro na França. Já volto, tá.
- Tudo bem, vai lá.
Ela vai até o editor, um jovem muito bonito por sinal, de cabelos negros, e o cumprimenta também com um beijo no rosto, pertinho da boca. Ele entorna um bom gole de uísque e olha para os seus próprios pés apertados e doendo dentro dos sapatos. Sente-se deslocado e sozinho no centro do salão, por isto se dirige até um canto, perto das plantas, eternas companheiras, e acende um cigarro. Em cada metro quadrado parece haver um grande escritor, ou escritora. Só gente importante do ramo. O novo Camões, o novo Fernando Pessoa, Pórtico partido para o infinito. O tremendo romancista que escreveu uma história de mais de duas mil páginas e trezentos focos narrativos diferentes. Definitivamente não dava pra ele, com os seus sapatos apertados. Entregou o copo ao garçom, guardou as mãos nos bolsos e atravessou quase correndo o salão para chegar depressa ao banheiro. Fez o que tinha que fazer e lavou as mãos, aproveitou que estava ali e lavou também o rosto, a barba estava feita, o rosto estava limpo, mas por mais que usasse água e sabão as rugas ainda continuariam lá. Tentou ajeitar, na medida do possível, os cabelos ralos e grisalhos. Acabou desistindo, eles não tinham mesmo jeito.
Voltou para a festa, acendeu um cigarro e pediu outro uísque duplo.
- Onde você estava, amor? – Ela perguntou.
- No banheiro.
- Você não sabe quem está aqui.
- Quem?
- O Caetano Veloso, quer conhecê-lo?
- Obrigado, mas eu passo.
- Conversei com ele.
- É? e aí?
- Legal, mas acho que ele estava mal-humorado.
- É?
- Pelo visto você também está mal-humorado, né?
- Não, até que não, é que os meus sapatos estão apertados.
- Suporta só mais um pouquinho! Por mim!
- Eu estou legal.
- Obrigado, amor.
- De nada
- Ai, olha quem está ali, espera só mais um pouquinho, que eu vou lá falar com a Fernanda Montenegro.
- Beleza, vai lá.
- Vê se não exagera na bebida, estou de olho em você.
- Não vou exagerar, de qualquer forma, já tomei dois duplos. Você vai ter que voltar dirigindo.
- Ta.
Ele volta outra vez para o lado das plantas. Pórtico partido para o infinito. Ela continua deslumbrando a todos com seu vestido vermelho, parece uma bailarina, uma modelo uma... Sabia que a estava perdendo. Que mais cedo ou mais tarde ela partiria. Isso doeu. Mas o que poderia fazer? Ela era jovem, era bonita e era talentosa também. Quem não quereria uma mulher assim? Resolveu embriagar-se. Perdido por um, perdido por mil. Chamou outro uísque duplo e bebeu-o rápido, todavia, antes de pedir o segundo, ela voltou.
- Se você quiser a gente já pode ir, amor. – Ela disse.
- Por mim ta tudo bem. Se quiser, podemos ficar mais um pouco.
- Não, acho que já fiz o que tinha de fazer. Além do mais você está com uma cara.
- Acredite, são os meus pés.
- Não faz mal, se você quiser podemos ir.
- Então vamos.
Mal entraram no carro e ele logo tirou os sapatos. Respirou fundo e aliviado.
- Graças a Deus! – Exclamou.
Ela voltou dirigindo. Ele colocou uma música pra tocar e ficou o tempo todo a observando em silêncio. Estava perdendo, com certeza não duraria muito e ela, ela era mesmo linda. Às vezes fechava os olhos e todavia continuava olhando. Em seus ouvidos ela destilava trechos de conversa, acontecimentos da festa, mas ele parecia não ouvir nada. Pórtico partido para o infinito. Seria então ele o pórtico? O último portal antes de ela atingir o infinito?
Entraram em casa. Ela correu para o banheiro. Disse que estava apertada. Ele colocou água no fogo e perguntou alto se ela também queria café. Respondeu que não, que ia tomar banho e dormir. Passou o café e se sentou na sala com uma xícara, esperando ela sair do banheiro.
Surgiu já de banho tomado e camisola, então pegou três ou quatro potes de creme e foi passando pelo corpo, ali mesmo no sofá.
- Por que tantos? Ele perguntou.
- Tantos o que?
- Cremes.
- Ah! Isso. Bem... cada um tem uma função e é específico para uma parte do corpo.
- É?
- É.
Ela terminou de passar os cremes e perguntou se ainda tinha café. Ele respondeu que só um pouquinho, na xícara dele mesmo e que já estava morno. Ela pegou a caneca e tomou, depois devolveu a caneca vazia. Então foi até o banheiro, escovou os dentes e de lá direto para a cama.
- Você não vai vir dormir? – Gritou da cama. Ao que ele respondeu:
- Ainda não. Tenho que escrever, não posso parar com o romance e ainda não escrevi nem uma linha hoje.
- Boa noite, então.
- Boa noite.
Ele guardou a caneca na cozinha. Em seguida pegou o caderno, a lapiseira 0.7, a borracha e foi para a mesa. Não gostava de computadores, como já foi dito era um homem de hábitos simples.
Pegou também o pequeno radinho de pilhas e colocou baixo numa estação que só tocava música clássica. Então abriu o caderno, pegou a lapiseira e escreveu: Pórtico partido para o infinito.

12 comentários:

Marcia Barbieri disse...

É pra dizer que te amo e você é um escritor maravilhoso, o melhor, e não precisa duvidar disso nem um segundo nem se perturbar,eu sou uma ótima crítica literária.

corre comigo,que eu corro contigo
Te amo
Marcita

Marcia Barbieri disse...

Esse é pra dizer que te amo,se caso a mensagem anterior não surtir efeito.


Te amo........................................................................................................
Marcita

biazinha disse...

Fiquei boquiaberta com tua narrativa...excelente...tudo: os dálogos, a mudança de ambiente e a conjugação do tempo interno e externo.
Voltarei mais e mais vezes, pois adoro freqüentar blogues de quem escreve bem.
Beijo.
:)

Alice disse...

Fui longe nessa prosa, Daniel. Tão bem elaborada. Parabéns.

f@ disse...

Obrigado pela visita às nuvens...
Mto bonito pórtico... mesmo partido... para o infinito vale tudo...
Gostei imenso...
bj das nuvens

pianistaboxeador21 disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
pianistaboxeador21 disse...

Márcia, maravilhoso é ser homem e ter uma mulher como vc a meu lado. Obrigado por ser paciente e me acolher quando estou caído.

Biazinha, obrigada pela visita e pelos elogios. Sempre que quiser voltar, a casa estará de portas abertas.

Alice, é sempre maravilhoso ter vc como leitora. Obrigado por vir aqui.

f@, a idéia era essa mesmo, mostrar a beleza que existe numa dor calada.

Além disso, tudo o que um escritor pode fazer é escrever. Mesmo quando todas as coisas lhe digam NÃO. É a condição dele. Se escrever bem, melhor pra ele, se escrever mal, pior pra ele. Entretanto, não há como fugir, ele continuará escrevendo sempre.

Abraços fortes em todas vcs,

Daniel.

Crisfonseca disse...

Olá,
tua escrita é simplesmente sublime, sublime. Parabéns
Que palavras bem elaboradas, que prezar é poder ler-te, estou encantada.
Teu blog é otimo, adorei-o.
Obrigada pela visita e pelas palavras gentis, volte sempre que vc quiser , pois é muito bem vindo.
Abraços,
Cris

Crisfonseca disse...

Olá Daniel e Marcia,
Adorei ter os dois em meu blog, adorei conhecer os blogs de vocês, são encantadores.
Obrigada pelo link, voltem sempre mesmo. Tb voltarei sempre.
Beijos,
Cris

biazinha disse...

Essa pintura é belíssima. A quem pertence? Se souberes colque uma legenda pra ela. Sempre coloco em minhas postagens para quem gostar levar com os créditos.
Obrigada por teu comentário!

Poeta Mauro Rocha disse...

Ótimo texto, e obrigado pela visita.

Um abraço!!

Daniel disse...

(Olá. Desculpa o comentário fora do assunto do post, mas eu acho que pode interessar. Aqui é Daniel, do www.amalgama.blog.br. É o seguinte: estamos criando uma página no site para blogs parceiros, e estou te convidando a fazer parte. Além de ter o link do teu blog permanentemente na página de parceiros, todo fim de semana lincaremos no Amálgama os melhores posts da semana publicados nos blogs parceiros. É mais uma oportunidade pra você ganhar leitores. Para ser parceiro nosso, você deve pôr aqui em sua barra lateral a widget que contém as atualizações do Amálgama; nada que vá tomar muito espaço.

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