sábado, 2 de agosto de 2008

FORMIGAS

“ worn like a mask of self-hate,
Confronts and then die”
(Joy Division)

Ela acende aquele que é talvez o último cigarro do maço. Traga devagar. Se ao menos pudesse esquecê-lo agora, nesses poucos minutos do amor sujo e depois do amor sujo... mas ele sempre ficava nos pensamentos dela... quando tomava banho, ele estava lá... quando escovava os dentes, ele estava lá... quando acordava, ele estava lá... quando dormia, quando sorria, quando urinava, quando cozinhava, quando pintava as unhas (sempre de vermelho), ou penteava os cabelos, ele estava lá, ele sempre estava lá, dentro dela, como se fizesse mais parte dela do que ela mesma. Olhou pras paredes verde-escuras do motelzinho. Olhou pras costas do homem que dormia. Sentiu asco. Olhou pras suas mãos brancas, quase invisíveis, atrás da fumaça do cigarro, sentiu nojo também das próprias mãos. Estava velha. Estava suja. E não conseguia esquecê-lo por um segundo sequer. Nem essa sua vingança fazia sentido, ou diminuía sua dor... cabelos longos, loiros, de mulher, de mulher jovem, perdidos no carro dele... estaria num motel também? E o que é pior, gozando. Gozando com aquele sorriso lindo arreganhando-lhe descaradamente a boca? Ao imaginá-lo gozando, sua garganta fechou, não conseguia respirar, a nicotina toda presa, dentro do corpo dela, tentou soltar a fumaça e puxar o ar, mas não conseguiu. O Homem, inútil, continuava imóvel, do lado dela, bateu com todas as forças nas costas paradas... e nada.... nem se mexeu... estaria morto? Morto como seu irmão gêmeo, dele, que do mesmo modo não tinha conseguido fazer com que ela esquecesse o marido... correu pro banheiro... o rosto vermelho, inchado, deformado, no espelho. Tomara que não conseguisse mais respirar mesmo... tomara que morresse logo de uma vez por todas... abriu a torneira... jogou água no rosto... tossiu... a nicotina saiu marrom, molhada, cheia de saliva, parecia uma lesma no fundo da pia branca... lavou melhor o rosto... tocou com a ponta dos dedos a raiz dos cabelos, completamente brancas... por cima havia a tinta negra... mas lá embaixo... no fundo... por dentro... estava tudo branco... quando ela tinha perdido a graça? Em que ano começaram a chamá-la, constante e efetivamente de senhora... 1984? 1985? 86? Estendeu as mãos... baixou os olhos sobre elas... eram mãos de velha... enrugadas... até mesmo o esmalte começava a descascar na maioria das unhas, pra dizer a verdade ele, o esmalte, mal cobria a camada de cutícula... no chão, um pouco abaixo das mãos, uma fileirinha de formigas minúsculas se movimentava como se fosse um risco, um verme fino, uma coisa só... só o que? Só sentiu foi as formigas roçarem-lhe os pés, entrarem por baixo das unhas, subirem pela perna, por baixo da pele, pelo ventre, pelo sexo, pelos seios e braços... milhões... trilhões de formigas pelo corpo todo... e ele longe... tratando de negócios? Bebendo um café olhando os seios da garçonete? Comentando com algum amigo a respeito de uma secretária bunduda qualquer... ela nem tocava mais violão! Quantas vezes ele teria feito amor com ela pensando em outras mulheres? Outras mulheres bem burras e bundudas e com seios rijos e grandes? Diabo, e ela nem tocava mais piano... se tivesse um pincel, teria pintado de vermelho a casa inteira, o mundo inteiro, a manhã inteira... mas não tinha um pincel... e ele, o marido, estava longe... e ela, ela mesma, jovem e encantadora, estava longe... impossível... bateu com a cabeça no espelho... quebrou-o... em muitos pedaços... que caíram no chão. Uma linha fina de sangue cortou-lhe a face, como se a partisse em duas... desiguais... uma lágrima lenta cortou uma dessas partes... era como se seu rosto estivesse partido em três fragmentos... uma máscara desigual de dor... correu outra lágrima distante dali, do outro lado do rosto e partiu-o em quatro... ela tocou a vagina... massageou-a.... pensou no marido... trepando... com alguém invisível... que não era ela... sentiu-se molhada... cheia de água... um lago... abriu com os dedos a parte de cima... ficou massageando aquela coisinha dura... pequena... insignificante... quando sentiu que aquilo estava bem rígido, pegou um dos cacos do espelho. E era bastante pontiagudo, o caco.

2 comentários:

Anderson Cádor disse...

Daniel, meu camarada, li teu conto e como você mesmo disse, um arrebatamento "fodástico" de tua palavra. Fim que o leitor constrói e imagina coisas. O fim do prazer por amor ou por castigo? O fim, qual a razão? Perguntas que ficam em nossa mente... sem dizer mais pra não ser longo...

Grande, meu caro.
Leio e me inspiro.

Abraço de amizade.
Cádor

Alice disse...

Bem, é um homem que escreve o que a mulher de esmalte descascado sente. Depois do sexo e de se sentir suja e pensar no marido e tudo mais, só um caco mesmo.

Grande texto.

E aqui onde moro, maço de cigarros é aquele pacote inteiro. Sinto saudades de algumas formas de falar coisas.

E Joy Division sempre é um bom começo.