terça-feira, 12 de agosto de 2008

FAKE PLASTIC TREES


Quando, Lídia, vier o nosso outono
Com o inverno que há nele, reservemos
Um pensamento, não para a futura
Primavera que é de outrem,
Nem para o estio de quem somos mortos
Senão para o que fica do que passa
O amarelo atual que as folhas vivem
E as torna diferentes.

REIS, Ricardo, Odes.

Apenas porque era manhã levantou. “Já não consigo mais tocá-la, porque não existe mais em mim aquela abstração necessária ao amor, ou à poesia”. Pensou, não necessariamente com essas palavras. Pela fresta da janela, a luz dominical entrava muito educada, mas sem pedir licença. O que era verdade no meio daquilo tudo? Existir? Mas o que vem a ser existir e esta vida tão monótona e cotidiana diante do universo?
Ela já estava acordada, mas mantinha os olhos fechados. “Parece um bebê”. Ele pensou porque ela dormia toda encolhida. Levantou a mão com desejo de tocá-la, nos cabelos principalmente, mas recuou. Era como se um lutador de boxe, Mike Tyson talvez com seus dezenove anos, o segurasse pelo pulso.
Procurou os chinelos sob a cama. Estavam perdidos... lá... no fundo... Teve que entrar embaixo da mobília para pegá-los. O azulejo era frio no seu peito. Mármore. Todo o processo o irritou. Precisava mesmo era de umas férias na Jamaica, isso sim!
No banheiro, puxou, mirou, disparou. Errou outra vez. Ela se irritaria novamente. Fazê o que, né? Como conseguiam encher um dia inteiro de discussões? Escovou os dentes.Eles não eram mais brancos. Nicotina demais. O tempo todo. Voltou para a cozinha. Encheu a chaleira de água e colocou no fogo. Tirou o revolver da capa e pôs no som pra tocar. I´m only sleeping. Abriu a porta e acendeu um cigarro. Da cama ela fingiu uma tosse. Aqui na cozinha ele não se irritou. Continuou apenas sorvendo a fumaça e observando as falsas rosas de plástico que cresciam no canteiro lá fora.
Se não eram vivas, tampouco morreriam.

3 comentários:

Anderson Cádor disse...

Apesar dos pesares, Daniel, é da vida que se fala...

vida que não é queda.

Marcia Barbieri disse...

Abstrações sempre tão necessárias...que as rosas de plásticos criem vida e brotem feito gente.

Te amo muito e agora estou aqui tirando com as próprias mãos as ervas daninhas do nosso quintal,para que as flores nasçam longe do temor.

Sua Marcita

Ivan Pessoa* disse...

Caríssimo Daniel, espero contar com você mais vezes no sonetista, sua visita é super importante, para o trabalho que estamos realizando, contra a barbárie do esquecimento, afinal qual a tarefa da poesia, senão conservar a essência última das palavras? Conto com vossa participação, caso queira escrever qualquer coisa, basta me enviar por e-mail. Um abração.