domingo, 17 de agosto de 2008

27


por isto fechou desesperado a porta, não apenas por medo dos urubus que voavam, mas por medo de tudo que havia de estranho e escuro lá fora. Agora precisaria terminar de compor, ou começar a compor ou sei lá o que... e a cabeça girando... e o ouvido doendo... e todo mundo distante... ou traindo, ou traído, ou morto... e agora ele estava só... e agora o pai estava voltando... e agora a cabeça estava doendo... bem do lado do ouvido surdo... surdo por causa da pancada que o pai lhe havia enfiado com o ferro quente de passar roupas duas dezenas de anos atrás... e agora o piano estava lá... e agora os instrumentos estavam todos lá... mas ele não conseguia compor... por isso correu pra vitrola... e John Lennon começou a gritar... mas John Lennon gritando também não ajudava... só que o disco continuava girando e ele ainda tinha um quase nada de pó... e o pó só piorava as coisas... Não tinha mais cerveja... Por que tantos urubus? De onde eles tinham saído? Além dos urubus também tinha os policiais... muitos policiais... do Japão... ou da China... ou de qualquer um desses países onde as pessoas têm os olhos puxados... E tinha um policial que além de ter os olhos puxados também era albino e barbudo... Não, a porta estava mesmo trancada, duas voltas... sim, duas voltas... dor nas costas... na cabeça... John Lennon girando e gritando... e o pó acabando... e o som... onde estava o som... e todo mundo que tinha ido embora, traindo ou sendo traído, tanto faz... e o coração parecendo que iria explodir... e agora o pai estava voltando... e o som não saía... onde estava a beleza... Tinha o revólver, mas o revólver estava sem balas... e agora havia também os guardas e os urubus... e as teclas não soltavam o som que ele queria, escondiam os sons, as teclas... e se de agora em diante nunca mais conseguisse compor uma música? e agora Ilana voltava pra casa com uma irmã que era igualzinha a ela... mas não era Ilana... e Ilana estava longe, porque a casa dela era longe... e Ilana sempre estava longe e ele também estava longe... e o mar não era mais azul, mas ninguém percebia que ele, o mar, agora, era marrom... e o piano escondendo os sons bonitos, ficou com vontade de quebrar o piano... e agora o pó tava acabando... e a cabeça doendo... e ele preso, sem ter pra onde fugir, porque no mundo inteiro ele estaria preso pela coisa ruim por dentro... e ele tinha um revólver, mas o revólver não tinha balas... e Ilana tinha chorado... e ele tinha chorado... e agora ele não tinha mais cerveja... e agora John Lennon ficava mandando ele meter um balaço na cabeça... e o piano ficava mandando ele meter um balaço na cabeça... Mas não havia balas no revólver... e John Lennon girando... girando... girando... e ele sem cerveja, nem uísque, nem vinho, nem nada, amanhã seria outro dia, ele sabia, mas amanhã ainda estava muito longe e ele precisaria de pelo menos uma semana pra se sentir menos culpado... e ele não conseguia se lembrar de quem estava morto... e os mortos não morriam pra ele... e ele precisava tocar o piano... mas o piano não se deixava ser tocado... precisava mudar o piano de lugar, quem sabe assim, no canto... piano pesado do caralho! Perto da janela, mas a janela estava fechada e não deixaria os sons bonitos entrarem... mas se abrisse a janela podia ser que os urubus entrassem... e se os urubus entrassem seria o fim de vez... abriu só uma frestinha da janela e viu que os urubus estavam lá e teve que fechar a janela de novo e...
Aí apareceram uma vaca e um pavão no meio da sala. E o que é que ele poderia fazer com aqueles bichos? E aquela irmã da Ilana que era igualzinha a ela? Como é que podia uma coisa daquelas? E a vaca ruminava... e o pavão abria a calda... e John Lennon gritava, dizia que ele não compunha nada... e ele nem sabia mais quais eram as músicas dele, quais eram as dos outros... E além de tudo ainda tinha Jesus... e o pó tava acabando... só mais uma... e poooooouuu... pra explodir o ouvido surdo ... surdo por causa da pancada que o pai lhe havia enfiado com o ferro quente de passar roupas duas dezenas de anos atrás... e agora o piano estava lá... e agora os instrumentos estavam todos lá... e nem a guitarra tinha mais cordas direito... O jeito era sentar na bateria e TRTRRRRRRRAAAAAAATTTTTAA.....BUBUBBMMDMMDUUMMMPPAPAPAPAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!Todo mundo tem um lado selvagem, mas a bateria também não resolvia... e ele queria mesmo era dançar uma valsa bem calma, junto com a mãe dele.... mas a mãe... a mãe tinha deixado ele pra morrer em cima de um formigueiro quando ele era bebê... e os coturnos dos guardas explodiam nas escadas, aproximando, aproximando, aproximando... O jeito era uma valsa, pra Ilana... Mas e Jesus? Estava esquecendo de Jesus... Ajoelhou-se pra rezar, mas não conseguiu rezar, então levantou... e o cachorro dele tinha morrido há um bocado de tempo... tinha vomitado sangue, o cachorro, o Max, enquanto ele tava empinando pipa, ele não devia ter ido empinar pipa com o cachorro doente, não devia mesmo... Mas agora ele precisava fazer a coisa e não havia mais tempo... nem tinha pra onde correr... e o pai estava vindo... e os guardas, os urubus lá fora, e estava tudo lá fora e ele tinha medo do lado de fora... Ainda bem que tinha água bem limpa no filtro... e o jeito era jogar toda aquela água limpinha, na cabeça, no corpo todo, pra ver se melhorava, mas a coisa não melhorava... e no apartamento ao lado alguém sempre cantava, à noite, sozinha, uma mulher, devia ser bem triste... e nos azulejos brancos da cozinha tinha corações vermelhos desenhados e num dos azulejos a mancha de gordura parecia uma máquina de moer carne moendo o coração vermelho... e no meio da pia suja a faca de cabo branco brilhava... Só que na sala o piano se escondia... e na vitrola não era mais John Lennon quem gritava... e o disco continuava girando, com a agulha espetada nele... e lá fora havia uma estrada de barro deserta e nos apartamentos do prédio ninguém morava...e chhhhhhhhhhchcchchchchchcchchhchchchchchhchchchchhchchchhchchchchchhchchchch
pumpum...pumpum...pumpum...pumpum...pumpum...pump...pum......pu...p..........................
PSIU.

3 comentários:

Alice disse...

Volto a ler seus textos, Daniel. Vi esse texto sem comentários, então deixo a impressão de ter lido um bom texto no domingo à noite. Isso vale muito. Vc tem talento e é o que importa.

Respeitosamente.

Marcia Barbieri disse...

Como sempre um ótimo conto, posso escutar os urubus e não ouso abrir as portas e janelas com medo que eles entrem.

Te amo
Marcita

Xavier disse...

é, meu caro...
continuemos...