sábado, 12 de julho de 2008

PORQUE DELAS É O REINODOS CÉUS

PORQUE DELAS É O REINO DOS CÉUS.
“He ain’t heavy he’s my brother.”
The Hollies.
Para meu irmão Marcos, porque sempre esteve lá.

É estranho vê-Lo sorrindo agora, quase trinta anos depois. Mas o sorriso é o mesmo, não fossem as rugas e alguns cabelos brancos eu poderia jurar que Ele ainda é o mesmo menino. Aproxima-se sem jeito, ainda rindo meio de lado e o sorriso dEle me desafina, me faz pensar que a minha vida inteira eu poderia ter sido uma pessoa melhor. Que eu poderia ter demonstrado mais o que sentia pelas pessoas e poderia ter feito mais por elas, entretanto eu não fiz. O caso é que nunca fui mesmo muito bom com esse negócio de sentimentos e emoções. É minha natureza, ou será que esse negócio da natureza é só mais uma das minhas desculpas? Como aquelas que sempre inventei pra não ter assumido o filho que perdi, pra ter abandonado a mulher que amava, ou pra ter comido e descartado tantas outras mulheres pelas madrugadas do mundo? Vai saber.
Ele por seu turno continua sorrindo. Eu tento sorrir de volta, contudo há anos que desaprendi a sorrir e minha boca é como uma pintura colada na cara.
- Paga um doce. – Ele me pede, esfregando as mãos uma na outra como sempre fez a vida inteira. Eu estou tomando uma cerveja só para me lembrar, porque, afinal de contas, esse bairro pequeno e perdido no subúrbio é a minha memória, o meu lado mais humano, bonito e verdadeiro. Havia cinco anos que eu não vinha aqui. Nesse meu ramo de negócios não podemos ser muito humanos e nem muito verdadeiros. O fato é que, apesar de tudo, meu trabalho me deu muito dinheiro, mas muito dinheiro mesmo. Contudo Ele, meu amigo, não se importa com todo o meu dinheiro e continua esperando apenas o seu doce ainda esfregando as mãos.
- Ô seu Mariano, o senhor tem caixa de bombom aí? – Pergunto ao dono do bar.
- Tenho.
- Faz um favor então, dá uma aqui pro meu amigo.
O dono do bar continua o mesmo desde que tínhamos oito ou dez anos. Tudo aqui parece continuar o mesmo. As pessoas envelheceram, mas não mudaram o olhar e nem o sorriso. As casas mudaram de cor, contudo conservaram o mesmo cheiro... o mesmo som. As ruas perderam o paralelepípedo e ganharam um asfalto novo e bonito com duas faixas amarelas pintadas no meio, no entanto ainda são as mesmas ruas onde jogávamos bola com gols feitos de chinelo ou de pedra.
- Posso me sentar aqui? Ele pergunta com a caixa de bombom nas mãos sorrindo ainda mais que antes.
- Claro. – Respondo e então Ele se senta ao meu lado no chão da porta de entrada do bar.
- Desse jeito, vocês vão me fechar toda a porta e aí como é que os fregueses vão entrar? – Grita o seu Mariano de trás do balcão. Os pêlos do meu braço se arrepiam. Como é que pode? É a mesma frase que ele gritava pra gente trinta anos atrás, quando nos sentávamos ali na porta, toda a molecada, depois do futebol, pra tomar um refrigerante qualquer em copos descartáveis que ele nos dava pra não ter que lavar tantos copos depois.
- Esquenta não Seu Mariano. Eu dou uma caixinha gorda pro senhor depois. – Falo e ficamos os dois sentados ali, lado a lado, em silêncio olhando a rua. Até que Ele abre um dos bombons e diz:
- Esse é o que eu mais gosto.
- Do que é?
- De chocolate, ora.
- Eu sei, mas ele não tem outro sabor, banana por exemplo?
- Não sei.
- Deixa eu ver a embalagem. – Ele me entrega o papel que envolvia o bombom. Crocante com recheio de creme de leite.
Eu peço mais uma cerveja e reforço para o seu Mariano a idéia de que ele tem que pegar uma cerveja lá do fundo, porque elas é que são sempre mais geladas.
- Tá tudo igual. –Ele grita de trás do balcão. Sempre teimoso e mal-humorado esse Seu Mariano. Há cinqüenta anos que vende a mesma cerveja morna.
- Esse carro bonito é seu? Ele me pergunta com os dentes ainda cheios de chocolate enquanto aponta para o meu carro preto, conversível e importado, com rodas de liga-leve, direção hidráulica, trio elétrico e sistema de freios ABS.
- É sim, gostou.
- É bonitão.
Há trinta anos foi também um carro que mudou a nossa história. Tenho que pedir licença agora, pois o que vou contar não é algo de que me orgulho e também não é uma coisa lá muito bonita. Se quiser abandonar a história ainda é tempo. Se não, creio que o que devemos fazer é nos lembrar dos sapatos de plataforma, dos cabelos black power, das calças boca de sino, do senhor Emiliano Garrastazu Médici e de tudo o mais que compunha o cenário dos anos setenta.
Não é necessário repetir que éramos pobres, entretanto eu era o mais pobre de todos. Sempre descalço, sempre poupando o mesmo velho conga rasgado e vermelho pra escola. Filho de mãe solteira, empregada doméstica. Não era fácil suportar a tiração de sarro dos outros moleques. Ao contrário do que pregam, as crianças nem sempre são boas e inocentes, há muita maldade entre meninos. Mas eu não me deixava abater porque era forte e despeitado, quatrocentas lutas e quatrocentas vitórias, de modo que eu era o líder da nossa turma, mas não era um líder bom e nem piedoso. Este mesmo rapaz que está aqui sentado ao meu lado agora, comendo inocentemente seus bombons, foi um dos que mais sofreu nas minhas mãos.Uma das diversões da nossa turma, talvez a maior delas, era persegui-lo pelo bairro jogando pedras, paus, lixo, ratos mortos e tudo o mais que encontrávamos em cima dele. Eu sempre na frente. Sempre liderando. Sempre tendo que me sobressair e mostrar a minha força, a minha coragem, a minha maldade. Não tinha mesmo piedade, se tivesse um revólver naquela época talvez tivesse dado um tiro na cabeça dEle sem pensar duas vezes. Só pra mostrar o quanto eu era homem, o quanto eu era forte, o quanto eu era gigantesco, potente, maior, melhor, o quanto eu era inquestionavelmente um líder.
Todavia um dia uma coisa aconteceu. É difícil contar isto com ele aqui ao meu lado sorrindo e desembrulhando seus bombons, mas vou contar de qualquer forma. Mais um dia, como sempre, nós o estávamos perseguindo. Eu ia adiante dos outros, como de costume, jogando sobre ele tudo o que encontrava pela frente. Ele era tudo o que eu mais odiava em mim mesmo, ele era a representação física da fraqueza, e eu não podia deixar espaço para a fraqueza, nem uma brechinha sequer. Naquele dia os outros desistiram cedo da perseguição, porque alguém havia acertado uma pedrada, ou uma paulada, ou coisa que o valha bem na cabeça dele e agora ela, a cabeça, sangrava em abundância e ele chorava, mas tinha que continuar correndo porque eu estava atrás com toda a minha fúria. Era tarde já e eu era o único a continuar na perseguição que já devia durar mais de três horas. Lembro que saímos do bairro, atravessamos a linha do trem, a avenida onde os ônibus passavam, entramos no outro bairro, onde moravam outros meninos, nossos maiores inimigos, mas não paramos de correr. Então, de repente, na adrenalina da perseguição, atravessamos uma rua sem olhar pra lado algum. Só ouvi o barulho da buzina e do carro derrapando e então senti o baque nas minhas pernas e voei pelos ares. O carro desapareceu na rua escura. Não fez sequer menção de parar. Minha testa agora também sangrava e minha perna devia estar quebrada, porque eu não conseguia movê-la um centímetro sequer.
Nem nós os havíamos percebido, nem eles nos haviam percebido, entretanto, com o barulho da batida, os meninos do outro bairro que estavam jogando futebol justo ali na esquina da próxima rua, pararam com a bola e foram ver o que tinha acontecido. Era muita sorte pra eles. Eu ali, no meio do bairro deles, caído no chão e com a perna quebrada. Nem em seus maiores delírios eles imaginavam um milagre desses. Nem em suas orações mais fervorosas eles tinham coragem de pedir a Deus que realizasse tamanho milagre, e, no entanto, era eu mesmo lá. Eles foram se aproximando devagar, feito hienas, feito ratos, feito vermes. Eu não sentia medo, há poucos dias tinha assistido ao filme Warriors, Guerreiros da Noite na televisão e estava pronto para morrer representando minha Gang. Não fechei os olhos e nem tremi, contudo num determinado momento eles pararam, ficaram todos quietos no meio da rua. Eu não entendi. Esperava a surra, a depredação, a morte e nada disso vinha. Então olhei pra trás e lá estava ele, com a testa sangrando, mas imenso, com um pedaço de pau enorme na mão. Depois de alguns minutos um dos meninos gritou:
- Ih! Olha lá! Agora o Doidinho pirou de vez. Vai enfrentar nós todos só com aquele pedaço de pau na mão.
Ele apenas levantou o pedaço de pau acima da cabeça e falou com uma voz grossa e calma, como tivesse trinta e não dez ou doze anos.
- Vem pra você ver o que te acontece.
O menino fez uma cara de espanto, não, de espanto não, de medo mesmo e se enfiou entre os outros. Aos poucos, como um exército em retirada, eles foram se dispersando. Primeiro as fileiras de trás, depois as do meio e, por último, as da frente. Um dos derradeiros garotos ainda gritou:
- Vocês estão fodidos quando a gente pegar vocês seus filhos da puta.
Ele fez mais uma ameaça com o pedaço de pau e o menino saiu correndo em disparada. Então Ele se abaixou e me pegou por baixo dos braços de frente e me sorriu esse mesmo sorriso de agora e... por Deus... eu não pude entender mais nada e chorei... chorei... chorei... como nunca tinha chorado nem na frente do espelho e muito menos na frente de quem quer que fosse.
- Pára com isso Marquinhos, você é o líder! – Ele disse e então me jogou nas costas com uma facilidade e com uma força que eu nunca imaginei que ele tivesse e me carregou de volta para a nossa Vila caminhando por mais de duas horas e doze quarteirões.
Agora ele sorri de novo comendo o último bombom e me pergunta enquanto eu limpo com o dedo a baba que escorre pelo canto da boca.
- Posso pedir um guaraná?
- Claro. – Eu respondo.
Ainda sorrindo ele bebe todo o guaraná, reclamando que está doendo a testa porque o refrigerante está muito gelado.
- Então bebe devagar. - Eu falo, só que em vez de beber devagar o que ele faz é virar todo o refrigerante na boca de uma vez. Depois exclama com a mão na testa.
- Aí!
Vendo que Ele não tem jeito mesmo, eu esboço também um sorriso com minha boca pintada na face e balanço a cabeça para os lados.
- Posso pedir uma última coisa. – Ele me diz.
- Vai lá, o que é?
Ele aponta para o carro meio sem jeito, sempre sorrindo.
- Que foi quer dar uma volta? – Eu pergunto.
Ele balança a cabeça indicando que sim. Então eu pago a conta com uma nota de cinqüenta reais e mando o Seu Mariano ficar com o troco. Ele sorri, o Seu Mariano, como sempre sorri quando vê dinheiro e me diz pra voltar mais vezes, não sumir assim. Eu digo que volto sim e abro a porta do carro e mando Ele, não o seu Mariano mas meu amigo, entrar. Em seguida coloco o cinto de segurança n’Ele, em mim também, ligo o aparelho de som para ouvir o bom e velho Elvis Presley... Like a bridge over troubled water... e dou a partida. Ele ensaia uma pequena batucada sorridente no painel, ao mesmo tempo em que nós saímos pelas ruas do bairro em baixíssima velocidade.
Antes de alcançarmos a primeira esquina ele aponta para o alto.
- Que foi quer que eu abaixe a capota? – Pergunto e ele mais uma vez balança a cabeça indicando que sim. Então aperto um botão e a capota aos poucos vai se guardando feito uma sanfona lá atrás. Ele está êxtase e faz um dia lindo lá fora, como há muito tempo eu não via. Atrás do céu azul, espelho de tudo, devia estar o universo e, atrás do universo, um sorriso nos lábios de Deus... um sorriso nos lábios de Deus...
















O autor, Daniel Lopes, é professor de Literatura e Língua Portuguesa e Espanhola do Colégio Objetivo e da Rede Pública Estadual. Em breve lançará seu primeiro romance, É preciso ter um caos dentro de si para criar uma estrela que dança, pela Editora Os Viralata. E-mail danielopes26@yahoo.com.br

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