terça-feira, 22 de julho de 2008

ELE TENTOU SORRIR NO ÚLTIMO INSTANTE...

a última história deprê, eu juro.

Ele tentou sorrir no último instante, porque era um menino muito gentil, mas não conseguiu. De seu corpo repleto de chagas purulentas, saltavam dezenas e dezenas de polvos, lulas e outros moluscos menos elegantes.
- Estas são as conseqüências dos pecados. - Disse o pastor protestante que dava a extrema unção, justo no instante em que um polvo negro saiu de uma chaga na barriga do menino e veio cair bem nos pés da mãe. Tinha cheiro de feira, fruta e pastel, o polvo, não tinha cheiro de peixe nem nada.
- Está doendo muito meu filho? - A mãe perguntou, tentando esboçar um sorriso encoberto pelo choro.
- Não mãe, só dói quando eles saem, depois eu não sinto nada.
Era um menino loiro, de olhos azuis e umas sardinhas vermelhas em volta do nariz.
A mãe chamou o médico num canto e perguntou se não havia uma possibilidade, uma chance qualquer.
- Infelizmente não senhora.
- A culpa é do pai, eu sei. – Ela disse, a mãe – Quando ele pegava um bicho desses na rede, judiava até o fim do mundo. Deus vê essas coisas. Agora o menino fica aí sofrendo desse jeito, pagando os pecados do pai.
Outro polvo escapou de uma chaga na perna e veio cair, coberto de pus, em cima da bíblia do pastor, que estava distraído, distraído não, assustado com o último grito do menino.
- Eu não agüento mais, mãe. Queria que acabasse logo. – O menino diz com uma vozinha baixa, procurando os olhos da mãe.
- Já vai passar, filho, já vai passar.
- Não vai mãe, vai começar de novo. Já estou sentindo a coisa vindo. – Neste momento apareceram alguns tentáculos do lado de fora do pequeno pênis vermelho.O menino começou a vomitar de dor. Infelizmente, o último molusco parecia um dos grandes, não queria sair logo do corpo pequeno.
- Quedê o papai, mãe? Eu queria ver ele antes de tudo terminar. – Disse o menino, quando o bicho por fim largou seu corpo, deixando pra trás um pintinho destroçado.
- Ele vai chegar, filho, ele vai chegar.
- Crê no teu Deus, meu filho, acredita que a vitória virá, para a honra e glória de nosso senhor Jesus Cristo. – Gritou o pastor, mais para afastar suas próprias dúvidas, do que para consolar o menino. Nem ele, com toda a sua fé, podia conceber um sofrimento tão grande.
Então a porta da cabana se abriu, e o pai entrou ainda com cheiro de peixe e de mar, e agarrou o filho e o beijou na boca.
- Ô papai – ele disse e tentou sorrir outra vez, só que agora já era tarde demais. Tudo estava consumado. Um cheiro de mar explodiu as portas e as janelas da casa. O pai chorou. A mãe também. O médico também. O pastor não chorou, mas repetiu umas duas ou três vezes a seguinte frase:
- Pecados, quem não os tem? Seja piedoso Pai, somos todos crianças.

Nenhum comentário: