quinta-feira, 31 de julho de 2008

5:45



(Para Márcia e para meus editores Silvana e Albano)

Então a vida segue
Depois da noite grande e da travessia
Segue a vida
Planta morta que renasce de si mesma
Orvalho solto que se junta na folha
Até virar gota e correr deitar na terra
Destino de tudo.
Segue sempre a vida
Ainda que seja grande o número de mortos e destruídos
Ainda que os homens levem gaiolas na luz das cabeças
Ainda que as orquídeas sejam defuntas
E os corvos de parafuso e eletricidade destrocem o trigal
Quando menos esperamos...
Quando tudo é dor e dor e dor...
Quando casa já não há...
Uma criança solta no ar seu pipa fluorescente
E este pipa grita por outro
Que grita por outro
Que grita por outro
Que espalha o grito
Então é tempo de pipa outra vez
E o céu tem a cor de todo menino.
A vida, segue sempre, a vida
Construtora de si mesma
Operária do próprio corpo
Noiva pobre maquiando o rosto sozinha
Diante do espelho e do rosto quebrado.
Ontem ainda éramos zumbis
Ontem ainda éramos alcoólatras
Prostitutas... parasitas... proxenetas... pederastas... presidiários
Agora somos gente
Sempre fomos gente.

A vida se renova
Da mesma forma que o amor
Da mesma forma que a vontade
Ninguém nos disse que seria fácil
E de fato não foi
Mas agora o passado já não dói
É hora de você me dar a sua mão e caminharmos juntos
Como quando éramos criança
Na missa de domingo.
A chuva fez enchente é certo
Agora
Depois do temporal
Crianças brincam com barquinhos de papel
No lago do fundo do quintal.
Nosso corpo tem estrelas
Contudo não quero ser herói
Só quero estar contigo
Sempre

A esta hora todos os asilos tramam a Revolução.

2 comentários:

Anderson Cádor disse...

A vida segue, meu caro.
A vida cega.
A vida segue cega...

Abraços forte.
Cádor

Alice disse...

5:45.

Também gosto de horas quebradas propensas ao sono ou a minha mania de escrever. Só não escrevo poesia porque me espalho demais.

Um poema que fala da vida que segue e da gente que só observa. A gente já foi de tudo mesmo. A história está aí para não deixar dúvidas.

E céus da cor de meninos e asilos em revolução. É o começo e o fim de tudo e o poema ainda fala sobre amor. É muita linguagem e muita poesia.

Bem, vim até aqui, não tomei cerveja e não votei na enquete, mas se ainda pudesse, votaria no Ringo. Ele é o mais engraçado.