sexta-feira, 23 de maio de 2008

É PRECISO TER UM CAOS DENTRO DE SI PARA CRIAR UMA ESTRELA QUE DANÇA

É PRECISO TER UM CAOS DENTRO DE SI, PARA CRIAR UMA ESTRELA QUE DANÇA.















“Não preciso nem dizer
tudo isto que eu te digo,
mas é muito bom saber
que você é meu amigo.”
(Roberto e Erasmo Carlos)

Algum dia você poderia?

Manchei o mapa quotidiano
jogando-lhe a tinta de um frasco
e mostrei oblíquas num prato
as maçãs do rosto do oceano.
Nas escamas de um peixe de estanho
li lábios novos chamando.
E você? Poderia
algum dia
por seu turno tocar um noturno
louco na flauta dos esgotos?
(Vladimir Maiakóvski)


















Para Rogério Carvalho de Freitas.








VIRA 16.












1
Bonito?
Bonito era como o Sol se punha naquela tarde. Dava até tristeza. Essas coisas bonitas sempre me deixaram triste. Nem cocaína, nem crack, nem cachaça, a tristeza é o pior dos vícios. Uma desgraça! Os outros são paliativos, nada mais. Firmeza, mas, por enquanto, deixemos a tristeza de lado e voltemos àquela tarde, àquele ano, àquele pôr do Sol. A beleza subjuga tudo. É engraçado, mas acho que é preciso ser um cara feio assim como eu pra dar o valor necessário às coisas belas. Quem é bonito se olha no espelho. Para quem o espelho é uma tortura o melhor a fazer é olhar pra natureza, pro céu. E por falar em céu, é interessante notar que. .. porra, eu não consigo falar do pôr do Sol. Bem que eu queria, mas ele vai escapando, escorrendo pra fora da cabeça, do papel, fugindo da caneta. Foda-se o crepúsculo também, vou contar o que aconteceu um pouco antes e ele, quando quiser, que venha para essas folhas. Antes éramos oito, quatro no meu time e quatro no outro, três na linha e um no gol. Tava legal de jogar aquele dia , porque a quadra da escola tinha acabado de ser pintada e reformada; melhor, reformada e pintada, e eu tava na seca, na sede no apetite e meter gol. Deus sempre dá alguma coisinha pra gente, uns têm a cara bonita, outros têm nos bolsos dinheiro, há quem tenha inteligência na cabeça, ou verde nos olhos. Eu tinha a perna esquerda. Só. E era com ela que eu agora destruía o outro time. Dava carrinho, roubava, batia, grudava a bola nele, no meu pé esquerdo, (Maradona deve ter passado por isto) batia falta... vamos lá perninha, no mundo eu só tenho você. Sede de bola! De gol! E fiz: 1,2,3,4,5. Vencemos por 8 a 4. Não que o jogo fosse muito sério, valendo alguma coisa; ou que os caras do outro time fossem nossos inimigos. Pelo contrário, eram até nossos amigos, mas é que em alguma coisa nessa porra dessa vida a gente sentia necessidade de ser o melhor, ou os melhores. Decidam vocês.
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Se ainda não disse, digo agora: Era sábado. A gente pulava o muro pra ficar o dia todo jogando bola na escola. Não a minha, uma outra escola. Depois desse jogo aí que ficou 8 a 4, a gente desceu lá pro pátio pra beber água e encharcar a cabeça embaixo da torneira Aí voltamos pra quadra de novo.
- Tava com fome hoje hein Maninho! Deu pancada até umas horas! Isso aí foi o Lelo quem falou enquanto dichavava. Na maioria das vezes ele jogava no meu time, mas naquele dia, não me lembro porque cargas d’água, tinha ido parar no outro time.
- Aí que nada Lelo, o jogo é jogado e lambari...
- Mas nem precisa sair batendo a torto e a direito.
- É a fome.
-Aí quem tem seda aí?
O Waguinho foi quem apresentou a seda e bolou, pilou, porque tinha fósforos acendeu e foi só aí que podemos dar um boa tarde pra vida e nos reconciliamos um pouco com essa filha da puta.
Já ia me esquecendo de falar do Sol e de sua queda. Eu sei... eu sei... águas passadas não matam a sede. Mas aquele ali, pôr do Sol, era um baita dum Narciso. Em matéria de espetáculo foi um e tanto. Primeiro ele, o Sol, ficou entre o vermelho e o amarelo, ao redor um azul claro era cortado por finas lâminas vermelhas. Um pouco mais distante estava o verde claro, que se harmonizava com o azul, mas que se debatia contra o vermelho. Depois o azul claro foi engolido pelo vermelho que crescia e o verde se transformou em azul escuro e lá atrás o azul escuro se transformou em negro. O Sol, aquele monstro ainda vermelho, insistia em não morrer. É preciso dizer que ele, o Sol, era um cara durão, resistiu o quanto pôde, mas, no final, não teve jeito pra ele: caiu, e a escuridão tomou conta de tudo. Com a escuridão nem ele, o Sol, pode.
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Então já era noite quando pulamos o muro de volta para a rua e na rua até que era bom porque a gente se sentia livre. Na periferia muros e grades são sempre um problema. Entretanto a rua onde a gente caminhava agora nem era muito periferia, mesmo o subúrbio tem sua área nobre. A daquele nosso bairro era ali, bem perto do cemitério.
Outra idiossincrasia da periferia é que aqui não é muito recomendável andar uma porrada de malucos juntos como a gente andava. Era até por causa disso que agora a rapaziada, nem muito rápida, nem muito lentamente, se dispersava. Primeiro vazaram o Tico, o Digão e o Waguinho. Depois o Paletó e o Macalé viraram à esquerda. Aí o Japonês entrou na casa da tia dele. Restamos apenas eu e o Théo e sobre esse Théo aí é bom a gente falar alguma coisa. Gente fina, o Théo. Meu amigo. Meu melhor amigo naquela época. A família dele tinha um bocado de grana. O avô dele tinha começado como alfaiate havia uns cinqüenta anos. Depois esse avô aí ensinou o ofício ao filho, o pai do Théo que por sua vez aperfeiçoou-se na profissão e montou uma fabriquinha de ternos. Conseguiu ter como cliente, além dos pastores de uma famosa igreja evangélica, uma porrada de fiéis: Ficou rico, ricaço. É preciso dizer que era um cara inteligente esse aí, o pai do Théo. Na casa deles tinha uma puta duma biblioteca. Eu gostava daquela biblioteca ali, achava legal mesmo, mas nem sei porque estou falando sobre isto aqui.
Só que o Théo, isso aí nem ligava pra biblioteca deles, mas de som ele manjava e curtia um bocado. Tinha mais de mil discos enquanto eu, do meu lado, não tinha nem cem. Agora que já falei um pouco do Théo, vou aproveitar enquanto a gente sobe estas escadas da casa dele para falar um pouco de mim.
Os outros me chamam de Maninho, dizem que o meu nome é esquisito: Osman. Minha mãe viu esse nome escrito na capa de um livro e resolveu colocar em mim. Os outros acham feio, eu acho legal. Feio mesmo seria se ela tivesse decidido me chamar de Avalovara. Sob este prisma até que eu sou um cara de sorte.
Meu pai... isso aí é um que não deve ter mesmo muita sorte, ou valer grande coisa. Sei lá. Deixou minha mãe e eu, quando eu ainda não tinha nem dois anos. Não devia gostar muito da gente. Gostava mesmo era do seu Pernambuco. Dias desses aí atrás escreveu uma carta pra mim explicando as razões dele e biriri e boróró. Não concordei muito, mas numa coisa a gente tem que dar o braço a torcer, pelo menos ele gostava de alguma coisa, do Pernambuco dele, com seus jumentos, sua farinha, sua carne seca, sua seca, sua infância. É pai, é mais que certo: ema, ema, ema, cada um com seus problemas.
Chegamos ao quarto do Théo e enquanto ele coloca um tremendo David Bowie e eu bolo um, me lembrei de falar mais algumas coisas sobre a gente que não poderiam, de forma alguma, deixar de serem ditas.
Eu e esse aí, o Théo, estudamos na mesma escola. É uma daquelas escolas particulares que operam por franquia com um famoso sistema de ensino. O Théo paga para estudar lá, eu não, estudo lá porque minha mãe trabalha há um bom tempo nessa escola e sendo uma excelente funcionária conseguiu bolsa pro filho. Eu. Ela, a mãe, começou como faxineira e, de promoção em promoção, chegou a inspetora. Ela acha uma baita evolução! Não é desfazendo não, tenho o maior orgulho dela aí, mas é o seguinte, se é pra passar a vida inteira assim, pelas beiradas, eu prefiro pedir as contas, entregar a rapadura. O problema é que nesse ano aqui, 1997, eu faço dezoito e já vi que pra ser jogador de futebol está ficando mais difícil a cada segundo. O problema é que nesse ano aqui, 1997, eu faço dezoito e todo mundo já toca algum instrumento e eu... eu... eu mal arranho um violão velho preso por um adesivo do Che onde a cola está solta. O problema é que nesse ano aqui eu faço dezoito e a mãe reza apenas para que eu me forme e me case e fique bem de vida. Porra, eu quero ser grande, deixar de ser invisível, descolar uma garotinha perfumada e bonitinha, me vingar de todos esses filhos da puta que andam espalhados por todo lado. O problema é que são problemas demais. Acende então a luz, enquanto no som Jimi Hendrix arranha seus loucos blues.
E até que não seria mal ficar aqui neste quarto por mais um tempo, porque esse Théo aí é gente fina e o baseado é bom e a brisa é fina. Mas aí eu enjôo de ficar aqui também e quero sair pra rua. Digo um “falou” pro Théo, que responde “falou” e fica parado no portão parecendo uma estátua ou coisa que o valha.
Antes de chegar ao fim da rua encontro a gostosa da irmã do Théo, a Myriad, que como quase todas as mulheres gostosas tem muita bunda, muito peito e pouco cérebro. Tudo bem, a gente releva, com um rabo daqueles, pra que ter alguma coisa na cabeça? Continuo andando. Caminhar é bom e a brisa é boa e até a lua é bonita. Contorno o cemitério. Subo a viela. Não tenho pressa de chegar em casa. Olho pro lado dos morros e digo um “boa noite” para esses monstros sagrados do bairro. Estão escuros, melancólicos, os Morros, com a lua batendo no rosto deles. Não respondem ao meu “boa noite”. Com a ponta dos dedos vou acariciando a moeda de um real que tenho no bolso. Uma idéia surge fixa como um coqueiro: “Vou tomar uma latinha” digo e quase sorrio quando vejo a fachada iluminada da padaria.
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Caminho ainda e agora a cerveja ajuda a refrescar. Se não fosse domingo eu poderia até me sentir feliz por uns instantes, mas chego à rua da minha casa e a cerveja acaba e eu vou pisando nesses paralelepípedos frios, em cima dos quais meu próprio pai deve ter pisado um tempão atrás. São uns caras durões esses paralelepípedos, não demonstram a menor saudade: cada um com os seus problemas.
Levanto o portão com a mão direita e puxo o trinco com a esquerda. É que o portão está fora de nível. Entro devagar. Ouço o barulho da televisão no quarto da minha mãe. Digo “bença” à minha mãe e ela responde: “Deus que te abençoe e te dê juízo”. Vou para a cozinha. Corto um pedaço de bolo de chocolate e como. Bom. Escovo os dentes. Vou pro quarto. Que venha a madrugada então e a Segunda-feira. Horazinha mais triste essa do final do Domingo.
2.
Na Segunda-feira eu fiz como faço todos os dias. Acordei. Tomei banho. Escovei os dentes. Pus uma roupa. Penteei os cabelos. Peguei o walk-man e fui pra escola. Encontrei o Tico e o Digão fumando um na viela. Dei só uma bolinha pequena e fui pro ponto ouvindo Babylon by bus.
A gente tem que dizer as coisas logo como elas são. Essa escola aqui, onde eu estudava até que tinha uns bons professores e umas meninas bem bonitinhas, mas ô lugarzinho pra ter filho da puta. Parecia que eles brotavam do chão esses sarnentos, com suas roupinhas de marca bem engomadas. E até essas minas aí, a gente tem mesmo que ir dizendo, não estavam e não estão com porra nenhuma. É certo que são perfumadinhas e tudo, mas, vamos e venhamos, são metidas como umas cerejas. Uns caras esculhambados, filho de inspetora, assim que nem eu, não têm a menor possibilidade. Parece que o próprio perfume delas fala assim pra gente: “Eu não sou para o seu bico, seu pobretão, nem uma boa bicicleta você tem! Nem um passe de ônibus!” Não é só a bunda delas que é bonita, não são só os peitos delas que são bonitos, não são só as pernas ou os dentes que são bonitos, é tudo! E eu tantas vezes reles, tantas vezes vil, tantas vezes porco. Eu que não tenho tido paciência para tomar banho. Eu verifico que tenho que continuar minha caminhada. Só que então o Théo chega e diz:
- E aí.
E eu respondo:
- E aí.
E vamos para a sala de aula.
- Então vamos bater uma bola hoje de tarde? Ele pergunta.
- Até que vou, mas tem que se rápido, porque eu preciso estudar.
- É parceiro... quando a água bate na bunda...
- A idéia é aquela: a gente se vira como pode.
Quando toca o sinal é hora de entrar pra sala. São tantos cabelos e tantos perfumes! Aqui é assim, quem tem motor faz amor, quem não tem bate punheta. Eu, do meu lado, prefiro colocar o fone no ouvido, a touca por cima, entrar pra sala e fingir que presto atenção em tudo. Meu mundo e nada mais. Um dia ainda viro o jogo. Só preciso descobrir de que maneira. Senos e co-senos. Com o futebol fica cada vez mais difícil, tarde demais. Três metilbutano. Porra, aquela Thaís ali é uma gracinha. A idéia é fazer um teste na Portuguesa semana que vem. Boys don’t cry. Durante a guerra de canudos... Bem que eu podia arrebentar nesse teste. É neste momento que meu pé lá embaixo lateja, se manifesta, diz que deveríamos dar pelo menos uns bons chutes pela tarde... umas faltinhas...
TTTTTTTTTTTTRRRRRRRRRRRRRRIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIMMMMMMMMMMM
É o sinal do intervalo.
De volta à realidade, mas não seja bem vindo!
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Desço pro pátio com o Théo e esse Théo aí, a gente tem que dizer mais uma vez, era um cara que sabia falar com as mulheres. Às vezes eu ficava ali no intervalo do lado dele e quase todas as minas que passavam davam pelo menos um beijo no rosto do cara. A mim ignoravam, faziam como se eu não fosse homem, como se não fosse um ser humano, como se não existisse.. Também, as porras das espinhas no meu rosto pareciam carrapatos. E era até por isto que eu preferia a biblioteca. A maioria dos intervalos eu passava lá. Às vezes matava até aula pra ficar ali dando umas folheadas.
Eu tinha mesmo era que dar um jeito de sair dali daquele colégio. Não aguentava mais ver aquele bando de ricos do subúrbio folgando com a minha velha. Não suportava mais o nariz empinado daquelas minas me empurrando constantemente pra biblioteca, pra quadra, pra longe, pra última cadeira do fundo, aquela quase escondida atrás do armário.
Foi por essa época aí, num desses intervalos, enquanto eu tirava e recolocava os livros na estante, que eu o encontrei: O GRANDE LIVRO. O maior livro de todos os tempos na minha opinião. Enquanto todos os outros estavam de joguinhos literários. Enquanto todos os outros estavam preocupados com bobagens vanguardistas, como iniciar a história pela última página do livro, ou colocar quatro ou cinco narradores diferentes, ou relativizar o tempo e o espaço, ele simplesmente gritava, mas não era um grito comum, era um grito lento e indiferente, um grito de ódio, de sarcasmo, de tédio, de ternura, pois no livro havia Molly e Bebért, um grito de dor e havia método nessa dor e dele, desse livro, evaporava estética em seu estado mais bruto. O livro era Viagem ao fim da noite e eu autor, o grande Doutor Louis Ferdinand Céline. Li o livro três vezes seguidas, depois procurei suas outras obras. Gostei principalmente do Morte à crédito. Parecia comigo aquele Ferdinand Bardamu.
Mas deixemos, por enquanto, os livros de lado, porque naquela tarde ali o que eu mais queria era bater umas faltas. O Théo e eu colocávamos a camisa no ângulo esquerdo e tentávamos acertar com a bola. Depois colocávamos a camisa no outro ângulo e continuávamos a bater as faltinhas. Entretanto naquele dia ali as coisas não estavam dando muito certo, porque eu não conseguia me concentrar e perguntava a mim mesmo por que porra nunca havia ninguém ali naquelas arquibancadas? Treinar e treinar e continuar chutando sempre as bolas... No meio da escuridão. Invisível. Sem nunca existir alguém nas arquibancadas.
Deixei os chutes de lado e me despedi daquele Théo. Ele ainda me chamou pra ir até a casa dele estourar um e ouvir um som. Mas o que eu queria mesmo era ficar sozinho. Então deixei ele em pé lá de novo e resolvi ir pra casa andando pra espairecer. Só que quanto mais eu andava, mais as dúvidas iam grudando no osso da minha cabeça. Porra, eu já tinha sido dispensado de testes no Corinthians, no Palmeiras, no São Paulo e até no teste do supermercado Barateiro eu havia sido dispensado. Porra, eu tava ficando velho e não conseguia fazer uma pestana. Pra que merda afinal eu teria algum talento? Qual era o meu lugar no mundo?
Cheguei em casa e pus logo a comida pra esquentar, mas aí, sem mais nem menos perdi a fome. Fui até o banheiro e espremi umas espinhas, depois lavei o rosto e esfreguei bem a bucha pra matar essas filhas da puta de uma vez. E foi quando eu ia voltando pra cozinha que a coisa aconteceu. Senti minhas pernas bambearem em cima dos pés. Uma coisa ruim por dentro. O coração doendo. O ar se negando a entrar nos meus pulmões. Caí de joelhos e comecei a rezar. As lágrimas queimavam meu rosto que já tava ardendo por causa das espinhas. “Senhor... Senhor me perdoe e me dê uma luz! O que o Senhor quer de mim? Por que Senhor, me puseste aqui no meio desta porcaria toda? Alivia um pouco essa minha dor! Mostre-me um caminho! Eu não agüento... não suporto mais ficar apodrecendo em vida. Diga-me pra onde ir, Senhor. Ampare-me! Eu não suporto mais apodrecer!” Era bem assim que eu falava com Deus. Uma conversa bem formal, eu reconheço, mas pelo menos eu tinha conseguido falar das coisas que me estavam atormentando.
Depois desse piseiro todo aí, consegui me acalmar de novo. Esquentei o feijão, o arroz, fritei bife, pra minha mãe também, fiz suco de maracujá, enchi bem o prato e resolvi me fortalecer, pois a batalha, essa vigarista, era mesmo dura.
3.
Eu estava estudando, porque era semana de prova, quando o telefone tocou.
Atendi:
- Alô.
- Quem fala?
- Quer falar com quem?
- É o Maninho?
- É.
- E aí Maninho é o Macalé.
- Fala aí Macalé.
- Então, a fita é o seguinte. Hoje aí de tarde, lá pelas seis horas, a gente vai dar uns mergulhos lá no clube, tá envolvido?
- Quem vai?
- Vai uma pá de gente. Eu, o Tico, o Sapo, o Caroço. Vão umas minas também. E essas minas aí têm uma moeda, tá ligado. Vão levar uns rangos e uns gorós pra gente.
- Sei não Macalé
- Ei maluco se envolve. Vai fazê o que aí sozinho em casa, morgadão?
-Tenho que estudar.
- Que mané estudar. Vamo aí.
- Firmeza então. Que horas?
- Cinco e meia, lá na padaria.
- Firmeza então. Falou.
- Falou, até mais.
Desliguei o telefone. Liguei o som e meti logo um Gregory Isaacs. Aí fui até o banheiro pra verificar como andavam as espinhas. Eu tava tomando remédio, mas elas não melhoravam de maneira alguma. Quando parecia que estavam melhorando um pouco, quando parecia que eu ia ficar livre delas de vez, uma nova safra aparecia e deformava minha cara. Fazê o que?
Esse clube aí do Macalé, até que era um clube bem arrumadinho, só que não funcionava de segunda até quarta-feira. Era aí que a gente aproveitava, porque o vigilante lá era chegado nosso. A gente jogava o fumo na mão dele e já era. Aí o negócio era curtir a água, o céu, as estrelas.
Como eu tinha ainda um bocado de tempo, decidi fazer uns exercícios, afinal, se o rosto não era uma maravilha, pelo menos com o corpo eu podia contar um pouco. Comecei com umas flexões de braço. Fiz quatro séries de quarenta repetições. Em seguida malhei o abdôme. Quatro séries de cem repetições. Por último fiz umas barras, quatro de dez. Aí tomei um ducha, comi umas bananas e cai na cama. Walk-man nos ouvidos, tentando encontrar com Cure a solução, foi que eu tive a idéia de tentar escrever um poema. O problema era encontrar um tema, um tema não, tema era o que mais tinha: o ódio, a solidão, a invisibilidade, a culpa. O difícil era encontrar a maneira certeira de dizer a coisa. Penetrar surdamente no mundo das palavras e trazê-las ali pro papel em branco. Ninguém disse que era fácil, até porque se fosse todo mundo iria querer bancar o artista.
Peguei o caderno e o lápis. Devo ter olhado pro teto como todo mundo faz quando está pensando. Mas e aí? Nada de idéia. Rabisquei um desenho e o desenho acabou se transformando num machado. Então, acima do machado escrevi: “De que adianta?” De que adianta o que? O que é que eu queria dizer com aquilo? Abri a janela e dei uma olhada lá fora. O dia era bonito de fato. Devia ser umas quatro horas. Um cara de branco atravessou a rua, pensei que ele devia ser enfermeiro. Voltei pra cama e fiquei pensando nas minhas espinhas, na minha mãe, no meu pai lá no Pernambuco dele e foi então que me veio a idéia. Seria rápido e fatal como um drible, não pior, como um pico na veia. Peguei o lápis e escrevi de uma vez:
“ No final
De que adiantam os lírios
Se o machado sempre está a espreita?”
Não era de todo mal, pelo menos na minha opinião, para um primeiro poema. Na minha cabeça, eu imaginava que a coisa seria muito simples. Bastava escrever mais uns cinquenta daqueles. Publicar um livro que seria sucesso de público e de crítica, dar alguns autográfos e depois colher as garotas como quem colhe morangos, ou mangas no pé.
Deitei feliz na cama, só que uns dez minutos depois alguma coisa derreteu, ou virou água naquele poema ali. O fato é que a coisa perdeu o sangue, o fogo e dez minutos depois aquilo ali não era mais que palavras numa folha. Rasguei o papel em pequenos pedaços, joguei na privada e dei a descarga por cima. Pior que cocô.
Minha mãe chegou do trabalho e sem dizer nem um boa tarde, sem mais nem aquela, foi logo perguntando:
– E aí filho? Já decidiu pra que você vai prestar vestibular?
– Não mãe. Ainda não decidi não, mas tô pensando aí em Letras, ou em Artes.
– Bom filho, se essas são suas escolhas, tudo bem, mas não acho que essas profissões aí dão muito futuro.
– Não quero mesmo muito futuro não mãe, só quero me sustentar e construir alguma coisa importante de verdade.
– E o que é esse importante de verdade?
– Não sei bem ainda mãe. Não dá pra explicar.
– Como assim, não dá pra explicar?
– Não dando mãe e fui.
– Fui? Fui? E pra onde é que você vai moleque?
– Vou só dar uma chegada lá no Théo. Não vou voltar muito tarde não. - Falei e coloquei os fones nos ouvidos pra não ouvir o resto do esporro da minha mãe.
Quando cheguei à padaria ainda faltavam dez para as cinco. Dei uma olhada nas manchetes dos jornais na banca em frente e tentei não pensar muito na minha vida. MAS- ESSE-NEGÓCIO-DE-PENSAR-NA-VIDA-SEMPRE-FOI-ALGO-QUE-ME-APORRINHOU. Pior que uma doença. E essa história da poesia agora? Uma coisa a mais pra eu me aventurar e tentar escapar do fracasso. FRACASSO, palavra mais triste, parece um velho coçando os cabelos brancos e ralos.
Como eu ainda tinha cinquenta centavos no bolso, entrei na padaria e pedi uma tubaína. Foi bom porque a tubaína tava gelada e eu me concentrei em ir bebendo devagar pra ver se refrescava um pouco as idéias. Na vida sempre há uma primeira vez e, na maioria das vezes, ela não é das melhores. Haveria outras oportunidades para outros poemas. Poemas de verdade. Eu só tinha que ter calma e ser perseverante: não ir com muita sede ao pote e nem...
Aí todos chegaram. Como gritavam e estavam apressados não tardei a entrar no carro e até porque eu estava lúcido e pensando mais do que devia, aceitei o beque que me foi jogado na mão e aceitei também um bom gole daquela garrafa de vodca.
Estávamos ali, o Théo, o Macalé, eu e mais quatro minas que eu não sabia bem quem eram, mas que só pelo carro e a silhueta delas a gente podia logo constatar que eram cheias da grana... Os cabelos eram macios e sedosos, pareciam os cabelos daquelas minas que fazem comercial de xampú, os corpos eram bem delineados e arrogantes e os sorrisos... os sorrisos eram perfeitos, brancos e falsos. O rosto da grana.
– E os outros. - Perguntei ao Macalé.
– Não puderam vir.
Eu achava melhor mesmo que eles não tivessem vindo, era menos concorrência.
Chegamos fácil ao clube. O Macalé chamou o vigia e deu a idéia. Não fui com ele por timidez e por timidez também agora eu tentava conversar, ou mesmo olhar para aquelas meninas ali, mas não conseguia... metia os pés pelas mãos... como sempre.
– Tá fazendo bastante calor por estes dias. Eu falava.
– É. Uma delas respondia.
– Vai ser bom nadar. Eu dizia.
– Vai. Uma delas respondia.
Aí eu me invoquei e desisti de trocar idéias com elas. Que se fodessem também elas todas. Um dia eu me vingaria. Certeza.
O Macalé voltou:
– Tá liberado! – disse – só que aí, a gente tem que entrar rapidinho.
A portinha que dava acesso à cabine do vigilante estava aberta. Entramos todos de uma vez. Correndo. E correndo ainda arranquei a camisa, deixei cair no chão e mergulhei na piscina. Braçadas, braçadas e mais braçadas. Bati e voltei. Aí parei e foi justo nesse momento que eu as vi. De biquinis. Quatro beldades. A tarde atrás delas feito imenso arco-íris ou coisa que o valha. Eu podia ver seus movimentos deslocando o ar em volta de cada uma delas, eu podia ver seus movimentos deslocando as partículas na última camada do universo, do mistério. Eu tava doidão. Fiquei de pau duro.
Entraram na água devagar.
Pelas escadas.
Delicadas.
Sereias.
Anjos, enfim.
Quanto a mim, tudo o que pude fazer foi meter o peito na água e nadar mais.
O problema é que ficavam todas em volta do Théo, porque além de tudo, a gente tem que dizer as coisas como elas são, o filho da puta era um cara de presença. O Macalé ainda conseguia aparecer um pouco, porque tinha peito e era engraçado. Agora eu, tudo o que eu podia fazer era mexer os braços, as pernas, o sonho de um futuro bom e de uma vingança certa e nadar... nadar... nadar... De uma ponta à outra.
– Ei Maninho, chega aí! - Até que eles gritavam isso aí, mas eu respondia: “Vou nadar mais uma cara e depois eu vou!” E assim eu continuava nadando.
Mas aí eu me cansei e resolvi ir até onde eles estavam, até porque eu queria beber um gole e ele haviam acendido o baseado.
– Virou peixe? Tá nadando mais que golfinho! - Isso aí quem falou foi o Macalé.
– É, eu tava com vontade. - Falei e dei um gole na garrafa.
– Você nada bem. - Disse uma das minas, o nome dela eu me lembrava, era Vanusa, aliás, eu me lembrava do nome de todas as quatro. Puxa até que enfim uma delas tinha dirigido a palavra a mim! Só que aí, na mesma hora, o Macalé fez uma coisa. Ele era cheio dessas putarias.
– Aposto que Théo nada muito mais que você Maninho. - Disse o filho da puta.
– Nado nada. - Falou o Théo.
– Lógico que você nada Théo. Cê fez natação a vida toda.
– E daí.
– Aposto que cê bate o Maninho em dois tempos, Théo. Dois tempos nada, tempo e meio.
O pau-no-cu do Macalé sabia bem encher o saco.
– E aí Théo, você acha que pode me ganhar? - Perguntei.
– Sei não.
– Quer tentar?
Por fora eu me esforçava pra demonstrar calma, mas por dentro tava era mordido de raiva.
– Vamos.
Fomos pra beira da piscina. Pela primeira vez aquelas minas ali deixaram transparecer o que elas tinham por baixo do verniz. Ficaram tudo excitadinhas. Parecia que iam socar o dedo na xereca ali mesmo. Por mais que elas queiram dizer que não, que são modernas, civilizadas e biriri bororó, o que elas adoram mesmo é ver dois machos numa disputa.
O Macalé contou:
– Um... dois...
No três pulamos. Saí na frente, mas por pouca coisa. O cara nadava bem. Respirava direitinho. Espalhava pouca água. Parecia não fazer o menor esforço. Do meu lado a coisa era bem diferente. A água voava por todo lado. Eu respirava a cada braçada. Era um horror. Técnica nenhuma, mas raça ninguém podia dizer que eu não tinha. Isso é que não.
Um pouco antes de a gente virar, o Théo me deixou pra trás. Fiz mais força. Virei. Tomei impulso. Água pesada do caralho! Só pra mim, parecia. O Théo deslizava feito um peixe. Comecei a ver na minha frente os pés dele. Tentei fazer mais força, mas não deu. No finalzinho, ele ainda virou e nadou de costas, o filho da puta.
– IHIHIHIHihihihih. Se fodeu!!! - Foi logo dizendo o Macalé só pra me sacanear.
– Acontece sua bicha. Além do mais, eu já tava cansado.
– Ah! então a vaca peidou então agora?
Deixei o Macalé de lado e olhei pras minas. Estavam sorrindo. Babando o ovo do Théo. Bebi um gole tão grande que até estalou, doeu, na garganta. Acenderam outro baseado. Fumei de novo. Bebi mais. Só gole grande. Bebi mais uma vez e outra. Mais fumo. Em vez de me acalmar, fiquei foi mais nervoso e aí desafiei:
– Agora quero ver quem me ganha na flexão de braço. Seu bando de veados.
Meti o peito no chão e comecei a fazer as flexões. Ninguém tentou competir comigo, muito pelo contrário... estavam chapados... davam risadas altas. Mais uma vez eu fazia o meu belo papel de bobo da côrte. Cada um com o seu fardo, sua sina. No final, cai exusto pro lado... e vomitei. Eles continuaram a rir. Tudo o que eu mais queria naquele momento era ter uma metralhadora pra pintar a piscina, os azulejos, a noite, a lua, tudo... de vermelho. Mas eu não tinha a porra da metralhadora. Gente fina aquele Théo ali!

Sério mesmo, o cara era gente fina. Até porque depois de vomitar eu dormi. Eles não me deixaram lá. Se fossem uns canalhas teriam deixado. Eles, o Théo principalmente, fizeram uma coisa boa: jogaram-me na piscina, pra que eu acordasse. Acham pouco? Meus camaradas não foram gente fina só por isto não. Além de me jogarem na piscina, eles me tiraram de lá. Caso não fizessem isto, eu teria morrido afogado. Taí um pessoal firmeza, apesar de tudo. Pelo menos eu pensava assim no auge da minha brisa.
No carro, de volta pra casa, o Théo vinha grudado com duas minas. O Macalé vinha segurando outra e a quarta ia dirigindo. Eu, do lado dela, não tinha coragem de dizer uma palavra sequer. Olhei meu rosto no espelho retrovisor e era um rosto triste... feio. Vi os cabelos escorridos querendo, sem conseguir, ser os cabelos de um Beatle quarenta anos depois. Vi os olhos verdes e pequenos demais para o tamanho do rosto. Vi as espinhas e até eu mesmo senti nojo delas. Fiquei com vontade de mandar tudo tudo ir tomar no cu...
E foi o que eu fiz.
Desci do carro. Bati a porta com força. Eles ficaram lá, me chamando para que eu voltasse, mas eu não iria voltar porra nenhuma.
Andando naquele ritmo eu ia demorar umas duas horas pra chegar em casa. Tudo certo. Bem que a noite tava bonita, que a lua era cheia e que eu até tava com um pouco de vontade de caminhar, mas não tanto. A verdade verdadeira mesmo é que tava longe pra caralho e como miséria pouca é sempre bobagem, eu também tinha esquecido meu walk-man no carro e agora teria que caminhar sem ouvir sequer um sonzinho consolador. E aí comecei a pensar que tudo aquilo mudaria quando eu escrevesse meu livro de poemas. Podia até ser que Deus quisesse virar a mesa pro meu lado. Ele tem dessas coisas. Então, além de lançar um livro que seria sucesso de crítica e de público, eu seria chamado pra jogar num grande time de futebol. E aí, quando os repórteres viessem me entrevistar, eu só diria coisas inteligentes e todos ficariam pasmos com a minha erudição e o meu talento, e eu teria dinheiro suficiente pra tirar minha mãe daquela escola maldita, e até o meu pai eu mandaria chamar lá no Pernambuco dele pra ficar me dando um apoio, coisa que é o papel dele mesmo. E eu compraria um Vectra preto e um Audi também. E todas as garotas ficariam aos meus pés, mas eu só escolheria as melhores. E eu apareceria naquele bairro ali só de vez em quando, mas toda vez que eu aparecesse seria uma festa com cerveja e churrasco de graça pra todo mundo. E eu montaria também uma grande instituição que ensinaria música, literatura, teatro, capoeira, futebol, natação e o escambal pra molecada e... era bem assim que eu ia pensando, sonhando, no meio da noite clara de lua cheia. Contudo, de tanto ficar prestando atenção a todas essas imagens que surgiam diante dos meus olhos como num cinema, eu acabei não prestando atenção naquele bueiro que estava ali bem na minha frente, cuja tampa estava quebrada. Resultado: Afundei metade do corpo dentro do bueiro. Quase peidei de tanta dor. Ralei tudo as pernas. Melei-me todo com aquela água cheia de bosta, de lixo, de vermes, de ratos mortos, de ratos vivos, de tudo quanto era porcaria. We can be heroes?
Levante porque era mesmo o único jeito. Fui caminhando devagar. Uma vontade profunda de chorar.
“Tu que estás sob a proteção do Altíssimo
e moras à sombra do Onipotente, dize ao Senhor:
Meu refúgio e minha fortaleza,
Meu Deus em que confio”. Mas Senhor... Pai... por que me abandonaste? Por que não faz nada? Não manda uma reviravolta? Dê-me uma luz Pai, porque sozinho assim está ficando impossível de continuar. Ajude-me Pai! Faça alguma coisa por este seu filho que sofre! Diga... é assim mesmo que o Senhor quer que as coisas sejam? Por que é que o Senhor deixa tanta gente boa sofrer tanto e a gente vê tantos sacanas aí pelo mundão se dando bem o tempo todo?
Foi então que o céu começou a virar, assim mesmo, sem mais nem menos. De um instante para o outro tudo escureceu. Parecia o fim do mundo. Uma ventania dos Diabos. Não dava nem pra acreditar. E aí a água começou a cair. Parecia um dilúvio e nem eu me chamava Noé, e nem um barquinho sequer eu tinha. Senhor! Senhor, tá certo que eu pedi para Você fazer alguma coisa, mas, quando falei, não era bem nisto que eu estava pensando.
Coloquei a perna, pra limpá-la, embaixo de uma pequena cachoeira que caía de uma calha. Os machucados sangravam, eram grandes. Decidi colocar o corpo todo embaixo da água. A sensação era boa. Como eu já estava mesmo molhado, resolvi continuar andando. Embaixo da chuva e tudo. Só que parecia que quanto mais eu caminhava, mais longe de casa eu ficava. Comecei a encanar que eu tinha me perdido, mesmo conhecendo aquele bairro feito a palma da minha mão como eu conhecia.
Continuando a caminhada percebi que minha impressão fora errada. É que o cansaço e a tristeza e as pingas e os baseados tinham me deixado confuso.
Cheguei ao cemitério e fiquei pensando no trabalhão que seria dar a volta inteira nele. As pernas doendo, os ombros, o peito e os braços doendo de tanto que eu tinha nadado e feito flexão... A chuva agora tinha parado... o frio era grande... pensei bem e disse a mim mesmo: “Vou pular o muro e atravessar por dentro dessa porra!” E foi mesmo o que eu fiz, sem pensar duas vezes.
É bem verdade que, enquanto eu atravessava, sentia um bocado de medo, mas o cansaço era tão grande que o medo ficava meio de lado. A lua, que ainda era cheia, agora começava a surgir entre as nuvens, não havia mais chuva, mas o cheiro de terra molhada e flores murchas davam à noite um aroma todo particular. Parei embaixo de uma árvore. (Minha terra tem palmeiras, mas eu nem sei como elas são). Dei uma olhada naquele céu ali, onde, entre os galhos das árvores e atrás das nuvens, uma lua cheia, amarela, forçava passagem. Sentei embaixo de uma das árvores, abaixei a cabeça sobre os braços e as lágrimas caíram incontroláveis dos meus olhos. Eu até que tentava me controlar, mas a coisa vinha em jorros, soluços, gemidos... outra vez.
Eu não sabia porque aquilo tudo estava acontecendo, mas senti uma mão fria tocar meu ombro, na pele perto do pescoço. Não levantei a cabeça. Fiquei quieto, imaginando que fosse o vigilante do cemitério. Mexeu um pouco mais, a mão, e eu percebi que não poderia ser o vigia, porque a mão era uma mão fina, delicada, de mulher. Levantei a cabeça. Meus olhos estavam embaçados por causa das lágrimas e de eu os ter apertado contra os braços. Esperei uns segundos até os olhos melhorarem e foi então que eu a vi. Era a mulher mais linda que eu já tinha visto até então. Era bonita, se era! Mas não era alegre. Ela tinha aquela beleza e aquela sensualidade que só a tristeza confere às pessoas. Era pálida, mas não era magra e nem gorda também, tinha o corpo perfeito para o tipo de rosto dela. Tem gente que tem o corpo e o rosto bonitos, mas um não combina com o outro e aí vira uma desgraça. Outros têm um corpo e um rosto que... melhor deixar pra lá. Ela usava um vestido vermelho que realçava a pele branca. No busto do vestido tinha um desenho preto que parecia o Robert Smith, ou o Edward mãos de tesoura. Devia ter uns trinta anos e levava uma garrafa de vinho tinto na mão esquerda. Lembro-me bem da mão onde estava o vinho, a esqueda.
– Oi. - Disse e se sentou ao meu lado.
– Oi. - Eu respondi e fiquei olhando pra ela.
Deu uma golada no vinho e passou a garrafa pra mim.
– Triste? - Perguntou.
– Triste? Acho que não. Estou mais pra desesperado.
– O desespero faz parte.
– É, eu sei.
– Qual o problema?
– O problema é que são problemas demais.
Dei uma golada no vinho. Bom.
– Fale de alguns.
– Bom, pra começar tem essas espinhas. Depois tem o futebol que não dá certo, a música que eu não aprendo, a poesia que não vem, minha mãe que me aporrinha, meu pai que foi embora, as mulheres que não me olham, as palavras que eu não aprendi a dizer, a sensação de ser invisível, esquisito, quase um fantasma.
– É, não são poucos os seus problemas, mas os meus também não são brincadeira.
– Fale um pouco deles, se você quiser.
Ela tomou um pouco de vinho. Acendeu um cigarro e tragou como se estivesse refletindo sobre alguma coisa muito chata, ou muito grave.
– Basicamente tudo está ligado ao meu ofício.
Esperei que ela continuasse, mas, como ela permanecesse calada, perguntei:
– O que é que há de tão errado com o seu ofício?
– Tem a ver com as pessoas. Elas não o aceitam muito. Reclamam, acham que eu não presto, que sou injusta.
Comecei a imaginar, por aquela fala dela ali, que a Dona devia ser era puta. Tomei um pouco mais de vinho e pra mim a coisa tava ficando era boa daquele jeito ali: vinho... luar... mulher bonita... parecia poesia de verdade.
– Agora queria ver como elas, as pessoas, fariam sem mim – continuou -. Só sabem se queixar, aporrinhar, reclamar, não param nunca, nunca estão satisfeitas, são umas viciadas. Posso dize, sem falsa modéstia, que sem mim não haveria ciência ou religião, ou arte.
– Ainda bem que você é humilde.
– Humildade! Dispenso sua ironia. Só os medíocres são humildes.
– Nisso você tem razão.
– Qualquer dia saio de férias, ou me aposento de vez e aí quero ver como é que vocês vão se virar.
Acendeu outro cigarro. Parecia ser bem nervosa e devia fumar um bocado, porque seus dedos estavam todos manchados de nicotina.
– Preciso voltar ao trabalho. - Ela disse.
– Mas já! Fica mais um pouco. Tá legal aqui, não tá?
– É você até que não é mal. Quando chegar sua vez vou ser carinhosa com você. Mas agora preciso ir. Tenho minhas obrigações. O trabalho me espera.
Pegou o resto do vinho, se levantou e partiu.
Antes que ela desaparecesse ainda gritei:
– Qual é seu nome? Seu telefone?
– Telefone não tenho. Quanto ao meu nome, acho que você não vai mais se esquecer, é bem simples: MORTE.
– Morte? Mas e onde é que estão a foice e a capa preta?
– São invenções – ela disse – invenções. - E desapareceu nas esquinas da noite.
Sorri quieto pra mim mesmo. Levantei e saí caminhando entre os túmulos. Pulei o muro, cai na rua e continuei caminhando até que ouvi o barulho de tiros e depois o barulho de carro cantando pneus. Fui para trás de uma banca de jornal e fiquei lá até que o carro passasse. Só então continuei meu caminho, mas nem bem tinha começado a andar quando encontrei ali, no meio da rua, ainda trêmulo e vermelho, um corpo cravejado de balas. Já era ela trabalhando. Revirei os bolsos e a carteira do defunto. Tinha quarenta reais. Ele não precisaria mais daquele dinheiro. Pus no meu bolso e continuei caminhando rumo ao meu barraco, mas no meio do caminho voltei e devolvi o dinheiro do morto. Ele poderia precisar pra pagar o transporte do outro lado. Vai saber se o barqueiro faz fiado!
Cheguei em casa. Levantei o portão. Abri e entrei. A mãe já estava dormindo. Tomei um banho rápido. Comi a comida fria mesmo. Fui pro quarto. Sem fazer barulho é claro que barulho nada resolve. Pus no som bem baixinho The end, dos Doors. Depois liguei a luminária, peguei o lápis, o caderno e escrevi:
Talvez houvesse um outro caminho.
Mas ele preferia aquele, o que levava à beira do abismo.
Deixou em casa velhos discos
E bons livros.
Levava nos bolsos alguns cristais
E sorrisos de criança
Chegou ao abismo às 16:28
Mergulhou às 16:31
Deus sorriu no instante seguinte
Deus tem bons dentes
Na África, uma centena de leões atravessava a savana.
Era um dia de Sol.
Aí guardei o caderno, o lápis, apaguei a luminária, mas deixei o som ligado e fui dormir.
Que noite.

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