segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Acaso sou eu o demônio de mármore?

Para Camille ClaudelAcaso sou eu o demônio de mármore?
Dividido entre a incompreensão e o medo?
Acaso sou eu quem distribui beijos de sangue?
E faz do amor um acessório vendido em sex shop?
Um par de tumores me faz as vezes de sapato.
Um par de cancros me faz as vezes de luvas.
Um par de pragas faz as vezes de chapéu
da minha cabeça dividida.
Sou um dragão embaixo de chapéus coco.
Caracóis coloridos despencam dos meus bolsos.
(Só quando estou sentado)
Silêncios esvaziam minha boca.
(O tempo todo)
Marcho cabisbaixo por caminhos que se bifurcam
Sem Pátria
(O Norte é bem mais quente)
Sem carinhos
Sem ternura
Sem nada
A taça da delicadeza
Quebrei-a em dez mil vontades
Um blues ainda consola a timidez dos objetos
Um sol negro estático baila no meu peito
Um arco-íris flutua em minhas veias
Toda noite
Mesmo quando conto anedotas estou triste
Meu ventre está cheio de merda, querida.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Ici Repose Daniel Lopes 1977 - 1992

Entre tantos que cultivam girassóis,
Gerânios
Crisântemos
Hortênsias
Orquídeas
Rosas vermelhas,
Eu sou aquele que cultiva flores de ódio
E cuido delas com sangue, álcool e bílis
Pelos meus dedos de jardineiro
Corre uma brisa estranha
Que é mágoa... decepção... rancor... o fim...
Não sei ao certo
A delicadeza dos pregos, talvez,
Ou o som de cupins devorando pacientemente os afetos
Talvez o fim derradeiro.
Mas o fim de todo fim é recomeço.

Beijos de festim habitam ainda os lábios das crianças
E a língua dos cães que nos amam.

domingo, 21 de dezembro de 2008

A FELICIDADE É UMA ARMA QUENTE

Partidos os relógios
Um vento delicado entre os cabelos
Andorinhas dissonantes apontando a dubiedade
Quero o frescor do início outra vez
E um gosto de pêssego na boca
O mundo é grande demais para se ser só
Vem com os meus erros
Porque o teu perdão reinventa o amor.

Hoje nos meus braços ninguém tinha dentes
e nem sorrisos
Mas eu engoli tua dor e teu sexo
E do líquido da nossa desgraça
Reconstruí diamantes cor de vinho
E espingardas de caçador.

Sou menino
e aceito das águas a revolta.
Quando você me deixou
Eu chorei tanto
Que as lágrimas cavaram feridas
Hoje restam cicatrizes no rosto
E claros traços de alcoolismo
Estou tão cansado de ser eu mesmo.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

EXECUÇÃO

“a culpa é indubitável”

FRANZ KAFKA.

Ele ouviu os gritos da multidão e não pôde acreditar que a coisa ia mesmo acontecer. Não podia acontecer, não com ele, isso só acontecia aos outros. Mas ele estava lá e foi arrancado do seu pensamento por imenso tapa na nuca. “Filho da puta!”, pensou, mas nada disse a princípio, talvez ofender pudesse ser pior, entretanto se não havia mesmo mais jeito e o que o separava da morte eram apenas alguns movimentos do ponteiro no relógio da torre, então que esse guarda amarelo fosse mesmo tomar no centro do cu!
- Filho da puta! Gritou com todas as forças.
Recebeu nova pancada, desta vez no estômago. Curvou-se sobre a dor. O guarda de uniforme verde bem passado e quepe preto balbuciou alguma coisa que ele não entendeu e o puxou pelos cabelos. A princípio não se moveu, mas, assim que pôde se reerguer, foi ordenado que ajeitasse a placa pendurada no pescoço onde constava seu crime e sua sentença. Não entendia as palavras do guarda, mas ele, o guarda, apontava na direção da placa. Num país onde os ratos eram sagrados, era proibido que se fabricasse ratoeiras. Sim, era culpado pela morte de milhares de ratos, ou não era culpado pela morte dos ratos, mas tinha confessado, ainda que sob as mais cruéis torturas. E eles ainda chamavam a isso de justiça. Pior, chamavam de a melhor justiça do mundo, onde 100% dos crimes eram punidos com a morte, onde os advogados de defesa recebiam mais pela condenação que pela absorção dos réus.
Viu um par de botas, um sobretudo e um quepe se aproximarem. Desviou o olhar pra multidão. Estavam eufóricos, monstruosos. Um estádio inteiro de filhos da puta! Ainda não acreditava que seria realmente morto, como num filme, num conto do Sartre, ele acreditava que seria salvo no último momento. Ao mesmo tempo, sentia um vazio por dentro, como se não tivesse órgãos, nem sangue, nem nada, além do vento, dentro de si. “Agora tanto faz”. Pensou, só não iria mesmo era abaixar a cabeça como eles queriam. Não iria mesmo.
Subiu as escadinhas que o separavam do centro do espetáculo. Sentiu os tomates podres esborracharem-se sob seus pés. Que lindo tapete vermelho! Que espetáculo! Estava no fim e nem sequer tinha realizado algo de grande. Olhou pro céu, num ponto mais além do relógio da torre, e notou que, ao longe, entre as nuvens pesadas de água, os dragões já haviam se libertado e voavam como que em câmera lenta. Recebeu a primeira tomatada no rosto. Em seguida vieram mais dezenas delas. E cada tomate parecia que vinha com mais força. Era o grande momento de sua vida, seu grande espetáculo e toda aquela platéia se rendia, jogava-se a seus pés. As vaias são tão importantes quanto os aplausos e seus aplausos eram as vaias que os cretinos arrancavam do ponto mais profundo de suas gargantas. Podia ver de longe o suor no rosto deles, de cada um deles. E os dragões cada vez estavam mais perto, mas era só ele, que estava no palco, quem os via, os espectadores não ousavam voltar suas cabeças na direção da torre.
Come in from the cold ...
Sorriu ao imaginar que seu sangue se misturaria ao sumo do tomate. Nunca saberiam o que fazia parte dele e o que fazia parte dos tomates.
Ouviu o guarda anunciar, sem entender porra nenhuma daquela língua estranha, sua sentença. Balançou a cabeça com força quando tentaram vendar seus olhos. Queria ver o rosto da morte. Queria encará-la de frente. Sentiu o hálito quente dos dragões empestear todo o estádio. Olhou pros seus pés vermelhos entre os tomates. Ergueu novamente a vista e viu que as mangas do sobretudo verde preparavam a munição pra arma. No céu, os dragões voavam em círculos nervosos. A multidão em êxtase. Lembrou-se pela última vez dos girassóis que ela, às vezes, deixava na janela. Lembrou-se da alegria das crianças quando voltavam da escola, mas agora ele estava só, completamente só. A despesa da bala já tinha endereço certo. Nem sequer na hora do disparo fechou os olhos.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Em águas tão profundas como as tuas eu me afogo

Em águas tão profundas como as tuas eu me afogo
Nunca aprendi a nadar
Nunca aprendi a ser forte
Nunca aprendi a enfrentar os outros e os dias
Do teu vestido de baile desmoronam prazeres imensos
E eu me masturbo só com as mãos que tenho em mãos
Feito um menino que não soube crescer
Feito um adulto que não deixou de ser pequeno.

Longe das tuas águas eu morro de sede
Dentro das tuas águas eu me afogo
Enferrujo
Prego no fundo da lagoa
Chave de fenda sem fenda no espaço
Teu corpo pequeno e imenso
Sugando meu corpo rígido e cansado
Enquanto Deus assobiava la vie en rose

Mas isso já não é.
Mas isso já não é.
Mas isso já não é, nunca mais, por toda a eternidade, sempre.

Em águas tão profundas como as tuas eu me afogo
Longe das tuas águas eu morro de sede
Distantes gritam tambores teus
Sons negros entrecortando a noite inda mais negra
A traição faz apodrecer o amor
Como os dentes da boca de um louco
A traição
Faz do teu rio esgoto a céu aberto.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Viagem ao Fim

Ele estava perdido. A maioria das pessoas está. Ainda carregava o machado na mão direita, mas não havia mais floresta. Era um lenhador, contudo seu trabalho havia terminado e ele, que jamais respeitara o perfume do sândalo, sentiu saudades do tempo em que havia ainda pela frente um trilhão de árvores a derrubar. Olhou para os dois lados e só havia a areia e o deserto avassalador. Soltou o machado no chão e enxugou com as costas da mão direita uma única lágrima pequena, que escorria pelas rugas da face formando quase que uma correnteza, quase que um rio. O corpo ainda era forte, resultado de sessenta e tantos anos derrubando árvores e mais árvores, contudo agora não havia mais árvores, nem pessoas, nem nada, só a areia e o deserto imenso. O machado era inútil, mas... porra... ele era um lenhador, e lenhador era tudo o que ele sabia ser, ainda que não houvesse árvores, de que maneira poderia abandonar o machado?

Pegou outra vez sua ferramenta de trabalho. Passou de leve a mão pelo fio afiado. Alguma coisa doeu em seu coração, mas o coração não doía nunca. Pelo menos era o que lhe haviam dito a vida inteira... então que diabo era aquele vento ruim soprando tudo que era sensação boa dentro dele? Sentiu as pernas enfraquecerem e sentou. Jamais sentira qualquer tipo de fraqueza, agora sentia, sentia uma fraqueza grande e profunda como o deserto, uma fraqueza de tamanho igual à da floresta, quando a floresta era grande e ele era pequeno. Acendeu um cigarro de filtro amarelo e tragou devagar. Doíam-lhe até as pernas da alma e ainda assim ele começou a se lembrar do tempo da infância, só pra se magoar e sofrer ainda mais. Era velho, mas parecia um desses meninos que cutucam a casca de uma ferida até que ela comece a sangrar outra vez. Examinou as unhas das mãos na esperança de encontrar alguma que pudesse ser roída, contudo todas elas estavam sugadas até o centro da carne.

“Agora é esperar a morte”. Pensou terminando o cigarro e se deitando pra deixar o Sol destruí-lo pra sempre. Era o que queria agora. Era só o que esperava agora.Todavia, mal fechara os olhos, ouviu a voz da menina chamando-o e os dedos dela cutucando-o. De onde ela, a menina, surgira só Deus o sabia.
- O que o senhor está fazendo aí? Ela perguntou.
- Nada, estou só morrendo. Ele respondeu.
- O senhor é muito bonito pra morrer assim... sozinho.
- Eu tenho culpa, acho que é assim mesmo que devo morrer.
- Ninguém merece morrer assim. – Ela disse e começou a mexer numa pequena mochila que carregava nas costas.
- O que é que você está procurando ai?
- É só uma coisa que eu trouxe pro senhor. – ela disse e neste exato instante encontrou o botão de rosa que pretendia dar ao lenhador. Ele ainda tentou argumentar que não merecia, que era culpado, mas ela insistiu e ele apertou o cabo da planta na mão, sem se preocupar com os espinhos. Por alguns momentos as almas de ambos se tocaram e eles souberam que eram iguais, que se pertenciam, ainda que ele tivesse mais de setenta anos e ela tivesse menos de quinze. Depois a menina virou as costas e foi embora sem dizer adeus. Quanto ao lenhador, tudo o que fez foi observar uma gota de sangue, saída da ferida na mão provocada pelos espinhos, escorrer pelo seu braço e cair sobre a areia quente. Poucos minutos depois a gota de sangue estava seca.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

SÓ DESSA VEZ


(para o tio César)

Anjos e meninas despencam da janela do sétimo andar
E um vento audaz corta as asas e os corpos
Estou sentado na calçada
e tento montar o quebra-cabeças da nossa vida que rasguei.
corre comigo que eu corro contigo...
sonhos pingando das torneiras...
colchas remendadas no centro...
E um cheiro amargo de manhã que me estupra as retinas.
Estou só e mal acompanhado
Com o gosto do teu gozo escorrendo dos lábios
E o cheiro dos teus dedos me afagando os cabelos...

Teu sorriso constrói manhãs...
Teu sorriso cura os doentes...
Teu sorriso canoniza meninos de rua,
E me cura do espólio ardente do pó.

Anjos e meninas despencam
E um vaga-lume acaricia o piano
Enquanto os bem-te-vis, imitando o som de um corvo,
Repetem “never more”.

Manhã de morte em mim
Ao mesmo tempo em que uma menina compra pão
Manhã de morte em mim
Enquanto o investigador pede um pingado
Manhã de morte em mim
Enquanto o mendigo revive na primeira pinga do dia
As amarguras dos cinqüenta e dois anos anteriores.

Flor de ir embora
Teu reflexo partido no espelho em doze mil ilusões
E eu desencantado sem saber bem o que fazer com as mãos
(Eu tenho doze mãos)
Então a porta se fecha e o espelho reflete a porta,
E a porta está sempre fechada.
O mundo é teu, menina
Tudo o que posso fazer é estender teu vestido vazio e vermelho na parede da sala.
Na imagem da memória,
Você tem dez anos e se balança em frente a um campo de rosas,
BRANCAS, dessa vez.
Só dessa vez..

sábado, 29 de novembro de 2008

I have to go home

Na maioria das vezes
A melhor maneira de se perdoar uma pessoa
É cantar uma canção antiga pra ela, sorrindo
Mas eu não sei cantar
E tenho sempre a boca dormente demais pra sorrir
Meu sorriso é leite coalhado

YOU ARE HOME, MY FRIEND

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

O MUNDO É UM MOINHO

Ainda é cedo amor... Não me perguntem por que, mas tudo estava degringolando. Em se tratando de tempo, a coisa era até recente. Três meses de namoro e cinco meses de casamento. Éramos do tipo de pessoa que se entregava de corpo e alma. Pelo menos eu era do tipo de pessoa que se entregava de corpo e alma. Amor. Amor e sexo são as duas coisas que mais separam as pessoas. Todas as traições, as mentiras, os subterfúgios são conseqüência. Na raiz de tudo está o amor e por extensão, o sexo. Eu estava com aquela tremenda peixeira cravada nas costas, porque ela era baiana e não tinha piedade... e eu era homem e tinha que me humilhar... e ela era mulher e fazia pouco caso da minha humilhação. Antes dela, eu não conseguia entender esses caras que se subjugavam, pra mim não passavam de um bando de frouxos. Homem é homem, porra! E mulher é mulher. Mas ela fodeu a minha vida e a minha cabeça. Havia mais de um mês que eu não dormia, incomodado com a tremenda dor nas costas que a peixeira me causava. Eu era agora um froxo, como todos os outros frouxos do mundo. E ela era negra e baixa, e eu era alto, e loiro, e quieto. Às vezes soltava algumas piadinhas, mas no fundo eu era um quieto. Eu estava...

Eu estava triste. Depois dela, eu vivia triste. Bosta, eu a amava, mas ela me entristecia e me desesperava. Talvez porque eu nunca tenha sabido quem ela era de fato. Mistério era o seu nome. Mistério é o seu nome.

Neste dia, ela chegou do trabalho nervosa, soltando um trilhão de palavrões por segundo. Não quis fazer amor. O que ainda me fazia sentir bem era o sexo. Todo o resto era domínio dela. A cama era domínio meu. Pelo menos eu pensava assim. Mas em breve isso ia mudar. Era só que eu ainda não sabia. Cruzes e crisântemos entrelaçando-se às serpentes no jardim.

Ela começou a arrumar a mala nova que comprara há pouco tempo. Eu já devia ter desconfiado.

- Onde é que você vai, querida? Perguntei.
- Vou a um samba e não volto mais.
- É?
- É.

Acendi um cigarro e enchi uma xícara de café. Ela continuou concentrada na mala.

- Você tem certeza? Perguntei.
- Tenho, não existe mais como a gente ficar junto. Até a tua risada me irrita ultimamente, Dan.
- É?
- É.
- Eu ainda acho que a gente podia tentar.
- Não tem como, a gente não tem mais nada a ver. Desculpe.
- É, mas o sexo pelo menos é bom, bom não, ótimo, ou não é?

Ela sorriu com desdém e enfiou a peixeira ainda mais fundo. Não existem mulheres piedosas, meu amigo.

- O sexo é bom? Ela perguntou quase gargalhando. O sangue que escorria ao lado da peixeira empapava minha camisa e algumas gotas começavam a cair no chão.
- Pra mim pelo menos era, pra você não?
- Ora Dan, deixa isto pra lá. Não tem mais importância. Acabou, meu bem.
- Como não tem importância, pra mim tem muita importância sim. Então pra você não era bom? Era tudo fingimento?

Ela deixou a mala por um momento e se levantou. Olhou no fundo dos meus olhos. Ela era forte. Tirou o cigarro da minha mão e tragou fundo.

- Olha, Dan, não é que tudo era fingimento, mas eu nunca cheguei ao orgasmo com você. Mulher é diferente, nunca goza durante a penetração.
- É, mas eu sempre te chupei. E até demais.
- Eu sei, querido, mas você ficava enfiando os dedos, me cutucando, aquilo me desconcentrava, repuxava, não era legal.
- É, mas você gemia alto.
- É gemia, mas e aí?
- Nada, deixa pra lá. - Falei acendendo um outro cigarro. Peguei mais um pouco de café. Bebi e então toquei no assunto que me estava incomodando. – Você já tem outro? Perguntei.
- Você quer saber a verdade ou a mentira?
- Sei lá eu, mas diz aí a verdade vai.
- Já tenho.

A ferida doeu ainda mais, ela sabia mesmo como manejar aquela peixeira.

- Como ele é?
- Não começa, Dan, isso não faz diferença, não fica se martirizando. Ninguém tem culpa.
- Ninguém tem culpa, mas eu quero saber como ele é, porra!
- Ah! Vai começar a gritar é? (Ela adorava gritar com os outros, mas odiava que se gritasse com ela) Se vai começar a gritar, então escuta também, se é o que você quer saber. Ele é alto, mais de um metro e noventa, acho que fica até desproporcional comigo, é negro, dança um samba como ninguém e eu me sinto bem com ele.
- Você se sente bem com ele?
- Me sinto.
- E ele te faz gozar?
- Pára com isso. A gente não precisa falar dessas coisas.
- Não precisa uma porra! Ele te faz gozar? Ele tem um pau grande e gostoso assim como o meu? Sua vaca.
- Vaca é! Pois eu gozei com ele desde a primeira vez e olha, gozei como nunca tinha gozado antes nem com o meu ex-marido. Quanto ao pau dele? Dá dois do teu.
- Então tudo o que vivemos foi pura perda de tempo? Falei apagando o cigarro.
- Não é que foi perda de tempo, com você a coisa foi mais espiritual, foi uma coisa de almas, entende?
- Eu quero é que se fodam os espíritos e as porras das almas. Entendeu? Eu quero é que se fodam!
- Tudo bem. Ela disse muito equilibrada e foi pro quarto finalizar a mala.

Eu enchi outra xícara de café e procurei outro cigarro, mas o maço estava vazio.
Ela terminou com a mala e parou no meio da sala.

- Eu nunca soube dançar samba, né? Falei.
- É, nunca, acho que você é branco demais.
- Mas tenho um bocado de discos do Cartola.
- Que que é Cartola? Algum mágico que canta? (Ela perguntou, ela era jovem).
- Cartola é um sambista.
- Sei, é dessas músicas velhas que você ouve, né?
- Pois é.
- Tenho que ir. – Ela disse.
- Tudo bem. – Eu respondi.

Abri a porta. Ela me beijou no rosto. Vi-a desaparecendo no jardim de crisântemos, onde eu imaginara que seria feliz.

- O mundo é um moinho! Gritei antes dela sumir.
- Não importa, eu quero ser moída até o final.

Voltei para casa. Tranquei a porta. Coloquei um Cartola e comecei a lavar a louça, olhando através da janela os crisântemos lá fora. E então me lembrei dos dois papéis que estavam guardados no bolso do meu paletó vermelho, havia mais de dois anos. Fui até o quarto, peguei a cocaína e estiquei a primeira letra do teu nome sobre o mármore da mesa da cozinha. Cheirei de uma vez só e me senti bem, mas lá fora garoava, e na vitrola o Cartola cantava e nos quintal havia os crisântemos e ela nunca tinha gozado comigo. Nem uma vezinha sequer. Eu me sentia vazio e dolorido como um dente furado. De cada amor tu herdarás só o cinismo. Meu pai havia me dito quando eu tinha onze anos.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

OLHANDO E ESPERANDO


Eu estava pintando tudo. A plantação e a árvore e os pássaros negros. Olhando e esperando. Sempre olhando pro caminho e esperando alguém que me pudesse entender. Só que o caminho estava sempre vazio, como o forno à lenha sem lenha da minha avó. Mas eu tinha os meus pincéis e a plantação e a árvore e os pássaros negros e ficava lá bem quieto sentado à beira do caminho. É bem triste estar no mundo e saber que nunca haverá alguém que o compreenda. Num planeta tão cheio de gente e a gente ser sempre calado e só. Eu deveria ter ficado quieto no meu canto com o meu mundo e os meus pincéis, mas fui abrir a boca e me perdi e agora estou perdido e sozinho. De segunda a sexta, tenho um trabalho e algumas roupas que lavo engomo e ponho no corpo, mas existem então os finais de semana e os feriados e eu venho aqui pra esse lugar e fico pintando sempre a mesma paisagem. Imagino que estou tentando recuperar as coisas que deixei saírem da minha vida, ou as coisas que nunca estiveram na minha vida e o caminho é sempre vazio, como um velho navio abandonado e enferrujado que vi na infância em algum porto de Espanha, ou de Portugal, não me lembro bem.

Penso gentilmente se numa época qualquer, do futuro ou do passado, chegará o dia de eu ver de novo esse rosto que conheço sorrindo, contudo sei que o rosto se perdeu e o sorriso também. O outro lado da máscara do teatro é o choro. E não é mesmo esse planeta um imenso palco? Você disse que eu era pequeno-burguês, porque eu tinha um carro, um terno e um trabalho. Não era bem isso, eu também tinha filhos a quem dar de comer, ideologias nunca encheram a barriga de quem quer que fosse, você sabe bem, agora que passou a viver o outro lado da coisa e administra sua Arte como um negócio promissor e lucrativo. Fico orgulhoso quando penso no seu sucesso. Todavia, eu bem sei que o meu orgulho não faz a menor diferença pra você que é forte e olha pro futuro. Eu é que sempre fui um fraco. Às vezes, quase sempre pra dizer a verdade, os fortes me dão no saco. Às vezes até a tua lembrança me dá no saco. Você sempre olhando o futuro e as avenidas, enquanto dirigia, com aquela expressão de quem sabe exatamente onde quer chegar. Esse mundo escroto em que você vive me dá vontade de vomitar. Mas eu ainda te espero (ou não?) e sou paciente e tenho a paisagem e os pássaros negros e a estrada, mesmo que a estrada esteja sempre vazia, eu continuo por aqui. A menos que a semana comece outra vez.

Deus é testemunha de que tentei, de que fiz de tudo pra te arrancar de dentro de mim. Todos aqueles homens ao teu redor, circulando você, como se você fosse o prato principal. E você burra e bêbada esbanjando o teu corpo e o teu carinho com qualquer idiota que aparecesse. Todos eles só queriam te foder no rabo. E você, míope como sempre, foi e deu o rabo pra eles se fartarem. Sei que o rabo é e sempre foi seu e que todo o espetáculo não representou nada pra você. Mas em algum instante você parou pra imaginar como eu me sentiria, ouvindo aquele bando de idiotas comentando o que fizeram com você na sexta à noite, ou no sábado de manhã?
- Sexo é vida, meu bem! Você me gritou nos ouvidos.
- Você sabe, ele era gay, mas era tão bonitinho e tinha a festa e a cerveja, rolou um clima e aconteceu. Você me gritou nos ouvidos com a empáfia que lhe é característica.

Sei que sexo é vida, meu bem, mas pra mim também é sagrado. Não sou moralista. Nunca fui moralista, mas acho que a gente tem que pôr um pouco o coração no meio dessa coisa toda, se não fica muito vazio, mais vazio que masturbação. Sem transcendência é pura perda de tempo. Não sei o que você pensa, também não quero saber, você põe um salto alto e chuta todo mundo pra escanteio sem cerimônia. Na sua cabecinha de menina isso é ser forte e independente. Pra mim é só burrice e insegurança. Não é vergonha nem humilhação nenhuma a gente tentar dar o lado mais terno pra alguém. Não é vergonha nem humilhação nenhuma a gente acariciar quem ama. A própria Frida, que você tanto ama, se pintou de mãos dadas consigo mesma, com o coração de fora e seu belo vestido branco. Ela não tinha vergonha de dar o coração, como você, muito pelo contrário. Sei que vai parecer choradeira, mas que se fodam as aparências, pois eu quis criar um mundo inteiro e novo e bom pra nós dois. Eu quis te mostrar as coisas mais bonitas do mundo que moravam dentro de mim e você chutou minha canela com força. Característico. Previsível. Que a sua solidão, ao contrário da minha, seja leve. Você tem seus derivativos: a cerveja, os machos, as festas. Eu não. Gosto de beber, mas gosto demais e não posso.Tenho que viver só com a minha cabeça e esta paisagem. Agora chega, vou trocar os pincéis por uma faca e te arrancar de vez de dentro de mim. Assim que a ferida cicatrizar, e ela vai cicatrizar, vou comprar uns livros e estudar latim e russo. Quero ler Petrônio e Fiódor Dostoyévsky.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

OBRA-PRIMA

Ele realmente não se sentia bem. Uma bruta ressaca e aquela típica vontade de morrer que sempre cerca os desesperançados. Mas para ele ainda havia esperança, ainda que fosse pouca. Muito pouca. Olhou a porra do rosto no espelho retrovisor. O lado direito parecia o lado direito de um monstro, inchado, roxo, cheio de sangue seco e de sangue pisado. Que merda! Que grande merda!

Acendeu o cigarro e deu uma longa golada na última garrafa de cerveja. Nada disso faz diferença, pensou, nem a estrada, nem os pássaros, nem esse rio (porque o carro estava parado bem próximo do rio) nem o céu, nem porra nenhuma, se a gente vai pro saco, se a gente entrega a rapadura, se a gente vai embora, tudo isso continua, e o sol continua, e a chuva continua, que bosta! Estava mesmo perdendo as esperanças, ainda havia uma última, mas ele com certeza não ficaria com ela, era só uma questão de tempo.

Então terminou a cerveja e jogou a garrafa no rio. Que se fodesse a ecologia. Acendeu outro cigarro, que se fodesse a saúde também, e foi fumá-lo embaixo de uma árvore. Olhou o relógio. Ela estava atrasada. Porra! Ele tinha enfrentado toda aquela encrenca. Tinha apanhado mais que um cachorro vagabundo e agora ela se atrasava. Era mesmo pra qualquer um perder a paciência... e a esperança. Jogou a bituca do cigarro no chão e a apagou com a sola da bota. Tirou a gaita do bolso e começou a tocá-la, não tocava muito bem. De qualquer forma aquilo ajudava a passar o tempo.

Antes de terminar a primeira canção, porém, viu-a surgir junto ao Sol que nascia, no fim da estrada. Sorriu, era aquele último pouquinho de esperança. Ela veio vindo feito um gato, quando ele, o gato, anda meio de lado, com cuidado e sorrateiro. Usava um daqueles vestidos de hippie azul que ficavam tão bem nela. Ele levantou, guardou a gaita no bolso e limpou a parte de trás da calça. Sorriu, e o rosto machucado doeu.

- Nossa você está horrível, caubói. – Ela disse tentando tocar o rosto dele, mas ele evitou.
- Sua família, aqueles anjinhos, fizeram isto.
- Que merda!
- Não tem importância. Vamos? Não podemos perder tempo.
Ela sorriu de lado. Realmente parecia um gato. Olhou pro rio. Olhou para as árvores. Olhou para o céu e para o chão: nada disse.
- Que foi? – Ele perguntou – Qual é o problema?
- É que estou confusa, não tenho certeza de que estamos fazendo a coisa certa.
- Como assim?
- Não sei. Só sei que estou confusa.
- E só agora que você me avisa, Ana, que grande merda! Depois de tudo que eu me fodi, você vem me dizer que está confusa.
- Não tenho culpa é que...
- Faça-me um favor, volte pelo mesmo caminho que veio.
- Não precisa ser assim, Danilo.
- Como não? Eu arrisquei tudo. Isso não é brincadeira, porra, é a nossa vida, menina. É a minha vida. Não posso mais voltar pra casa. Não tenho mais nada.
- Desculpe... eu não queria...
- Tudo bem, não faz diferença. Pegue minha gaita, um último presente, e volte pra sua casa.
- Você vai ficar bem.
- Não, mas foda-se.
- Desculpe.
- Tudo bem.
- Caubói?
- Fala.
- Não posso aceitar a gaita.
- Pega logo a porra da gaita e sai da minha frente, pelo amor de Deus.
- Desculpe. – Ela ainda disse mais uma vez, entretanto ele não disse palavra. Ela virou de costas e foi caminhando pela estrada. Diminuindo aos poucos, ficando cada vez menor, sua imagem ficou estremecida, por causa do Sol e, por fim, desapareceu. Ele caminhou até o carro, um Maverick, é necessário dizer, apanhou no banco de trás uma espingarda calibre doze, apoiou-a no chão, tirou a bota e a meia, colocou o dedão do pé no gatilho, a boca no cano e pressionou o dedão pra baixo. O estrondo fez os pássaros voarem das árvores, junto à última esperança que escapou do corpo do rapaz.

Minutos depois, uma jovem artista, pintora medíocre de paisagens, chegou ao lugar. Antes de chamar a polícia resolveu pintar toda a cena.

E pintou uma obra-prima, porque a morte ainda estava por ali e deixou o ar mais denso e nenhum artista, ainda que fosse medíocre, poderia ficar indiferente a toda aquela atmosfera. As pessoas que viam a tela, mesmo vinte anos depois, ainda se emocionavam, sobretudo com o pé descalço do rapaz.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

EXISTE UMA CIDADE...

Existe uma cidade onde todas as nossas esperanças renascerão
E nós deixaremos as luzes acesas
Com aquela sensação boa de natal, família e amizade
Estes pássaros escuros de agora fazem parte do caminho
A felicidade exige esforços e sacrifícios
Mas nosso corpo esfolado
Nossos olhos ardidos
As torturas estampadas em nossa face
Serão parte de um passado de sonho
E, lado a lado, saberemos que valeu a pena
E o teu amor cobrirá meu corpo
Como um longo manto sagrado
E os teus olhos que nunca duvidaram
Terão certeza de que fui um rei no que fiz
Porque eu entreguei o meu corpo
Porque eu entreguei meu espírito
Porque eu entreguei todo o meu ouro e meu tempo
E caminhei pela terra como um morto vivo
Pra te gritar uma nova estética de amor e brutalidade

Existe uma cidade onde nossos filhos andarão nus pelas ruas
E as pessoas colherão a bondade pelas esquinas com mãos cálidas
E olhos que compreenderam
Louis Ferdinand Céline, de negro, planta flores de ódio em seus vasos nesta cidade
Mas até ele só quer acreditar e fazer o amor.
Também nós andaremos nus pelas ruas
Exibindo cruas todas as nossas cicatrizes
Porque o nosso corpo é a bandeira maior da nossa luta
E a nossa luta é a bandeira maior da nossa estada
E a nossa estada é tudo o que temos
Que o meu verbo ereto faça do teu útero uma floresta
Que o teu útero faça do teu gozo meu destino
Que o nosso destino esteja lado a lado
Como os trilhos de uma velha estrada de ferro.

Existe uma cidade
Onde Jimi Hendrix arranca papoulas da guitarra
E nosso corpo é imortal
Ainda que eu caminhe com meus olhos roxos
Vou deixar minha luz brilhar
Porque sei que existe uma cidade
Onde a felicidade corre nos fios feito eletricidade.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Selo gentilmente cedido por Renata Maria Parreira

Selo gentilmente cedido por Jawaa e Blood Tears


Ofereço o selo a todos os membros da minha lista de blogs. Peço que cada homenageado passe o selo para 15 outros blogs.
Abraços a todos.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Sem lágrimas, ou Para ninguém...


O dia ainda não havia clareado quando ele acordou e ficou olhando pra ela que dormia. Entrava, pela janela da cozinha, uma luz levemente avermelhada. Ele deslizou devagar as mãos pelos cabelos dela e, quando baixou a cabeça com intenção de beijá-la, o relógio despertou. O beijo agora ficaria engasgado dentro dele, como se ele houvesse engolido uma águia, ou um corvo.

- Dá licença que eu preciso trabalhar. – Ela disse com seus olhos muito abertos e profundos. Havia mais de três meses que não se falavam, que não se tocavam, que não se ouviam. Quando alguma palavra escapava da boca dela e entrava pelos ouvidos dele, era, invariavelmente um palavrão, ou alguma frase mais agressiva.

Ele saiu um pouco para o lado. Tinha ficado mudo. Não conseguia mais falar.Era como se já estivesse dentro do túmulo, morto, tentando se comunicar com alguém vivo, desde o fundo da terra. Mas ela não ouviria e o túmulo dentro dele era lacrado com um concreto muito especial, que não deixava o que quer que fosse escapar. Ela caminhou até o banheiro e ele ouviu o barulho da água caindo pelo chuveiro. Enquanto ia pra cozinha, viu meio que de relance, seu próprio reflexo no vidro da janela. Estava barbudo, cabeludo, branco e feio. Os barulhos que vinham da rua o atormentavam e o amedrontavam profundamente. Será que nunca mais conseguiria encarar o mundo? Será que já estava mesmo morto? Estava se esforçando, mas não conseguia sair de dentro do túmulo que ele mesmo construira. Era um túmulo bonito, isso era, com uma estátua do Chaplin por cima, mas, mesmo com o Chaplin, não deixava de ser um túmulo e ele não conseguiria sair. Tudo doía dentro dele, o pássaro que era um beijo dilacerava seus intestinos, seu fígado, os rins, o coração e tudo o que ele poderia fazer era suportar a dor sem espernear. Porque era um homem. Um homem com um pássaro e um túmulo dentro do corpo.

Ela saiu do banheiro e começou a se vestir.Olhou pra ele parado a um canto do quarto e balançou a cabeça negativamente. Ele achou que ela continuava bonita, mas não conseguia fazer nada. Era como se estivesse completamente acorrentado à tormenta. Ela colocou um vestido vermelho e um sapato também vermelho. Havia uma echarpe salmão. Mas ela desistiu de usá-la no último instante. Penteou os cabelos enquanto os secava com um aparelho barulhento que também o incomodava. Por fim, passou um pouco de brilho nos lábios, que batom ela não usava, e foi pra cozinha, onde preparou um copo de chocolate.

O pássaro se debatia dentro dele. Precisava fazer alguma coisa agora. Ela já sairia. Havia muitas contas a pagar e ele não conseguia mais sair de casa. Alguém precisava pagar as contas e esse alguém não era um artista fracassado e morto. Mas ele tinha que fazer alguma coisa já. Sentia que esse era um momento definitivo, embora não soubesse muito bem porque. Correu até a sala. Pegou papel e caneta e escreveu com sua letra trêmula e nervosa

“Ainda temos uma chance?”

Colocou a folha sobre a mesa. Ela girou o copo entre as mãos tentando dissolver um pouco melhor o chocolate dentro do leite. Bebeu. Pegou a folha e levantou na altura dos olhos. Havia algum brilho, havia alguma água, havia alguma ternura em seus olhos, entretanto, em vez de chorar, ela sorriu e depositou outra vez a folha sobre a mesa, chegou a pegar da caneta, mas não escreveu coisa alguma, deixou-a cair novamente. Foi até o quarto apanhar sua bolsa. Beijou-o levemente no rosto sobre a barba e ele sentiu, pela milésima vez, o perfume bom dela. Alguma coisa dentro dele dizia que aquela era a última vez, mas nem assim ele conseguiu sair de dentro do seu túmulo. Em alguma praia do litoral norte um cachorro fazia cocô admirando o oceano.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Não sou eu.

Brilham como se fossem estrelas, as laranjas
Mas da varanda vazia
Ninguém pode vê-las.
Quem as acariciava com os olhos todas as manhãs
Dorme agora na sala entre velas.

Queria pintar o pomar
Queria pintar o sol das laranjas
Mas as sombras invadiram a casa
E as borboletas recolheram suas asas
sem prenúncios ou rodeios.

E eu que não sou mais que um vagabundo
Observo
A chuva que resvala na terra
E forma rios e lagos
Ecoando passos ausentes.

Nas árvores ao longe
Negras andorinhas aguardam o momento de voar
Enquanto a borracha do menino
Apaga da manhã os laranjais.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

sábado, 4 de outubro de 2008

VOCÊ NUNCA PODERIA VOLTAR PRA CASA

“Então é assim que tudo termina? Um gosto amargo na boca e a sensação de que toda a aventura poderia nos ter dado mais coisas e coisas melhores?” Não aceitava a conta que lhe era cobrada. Não era justa, a conta. Exigia seu troco. E o único troco digno, era servir-se de mais uísque, sem gelo nem água, e se deitar pra ouvir ainda uma última vez a voz doce de Annie Haslam, aí sim, partir de vez pro outro lado, enquanto o dia começava a surgir e os galos haviam se transformado em pardais que também cantavam.
Olhou mais uma vez o apartamento sujo, cheio de cinzeiros cheios e garrafas espalhadas. Olhou o piano no qual tinha composto quase todas as suas canções. Lembrou das inúmeras vezes em que Virgínia lhe trouxera um café, ali, no piano. E ele sempre tomava o café e fumava um cigarro e depois, renovado e afastado, pelo café de Virgínia, do medo do fracasso, voltava e prosseguia, procurando as canções. Agora o piano estava lá, calado, e lá calado ficaria, não poderia levá-lo pro outro lado. Agora Virgínia estava longe. Quem sabe na Amazônia, percorrendo aqueles rios negros com um garoto qualquer, vinte anos mais novo que ele.
Bebeu todo o uísque de uma vez. Tentou se levantar. Não conseguiu. A dor era muito forte. Colocou a mão nas costas. Onde sentia a camisa empapada. A mão voltou melada de vermelho, de um vermelho escuro, quase negro. “A facada deve ter acertado o fígado”, pensou. Ao pensar no fígado, sorriu. Quanto trabalho tinha dado àquele órgão. Tinha visto drogas entrarem e saírem de moda. Tinha experimentado, usado, abusado de todas elas. E o fígado tinha ficado lá, pronto, determinado a trazê-lo de volta do outro lado. Agora a facada o tinha acertado bem ali. Não poderia mais voltar. Agora teria que ficar do outro lado de vez. Se pelo menos lá, do outro lado, houvesse a certeza dos violinos...
Fez mais força... Escorou-se nos braços do sofá... Arfou... Devagar... Levantou-se... Sentiu vontade de vomitar... As vistas entraram na noite... Não podia ir... Não ainda... Exigia seu troco e seu troco estava logo ali, na cozinha, sobre a pia... Tinha falhado como artista... Tinha perdido o jogo da arte... como um garimpeiro... tinha procurado seu diamante... do outro lado... mas não tinha encontrado a coisa... Tinha falhado como artista, mas não se permitiria falhar como homem. Tirou seus olhos da noite... As baratas já tomavam conta da pia... Mas o uísque ainda estava lá, intacto... Os passos eram lentos... Os quatro discos gravados há muito tempo não poderiam ajudá-lo agora... A guitarra azul não poderia ajudá-lo agora... Nunca mais poderia voltar pra casa... A casa estava demolida... destruída... no chão... tinha esse apartamento, mas não era uma casa... respirou fundo... pé ante pé... como um samurai paranóico... ganhou a cozinha... escorou-se na geladeira... faltava pouco... Droga pianista, eu só quero mais onze passos, mexa-se.

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Onze passos que pareciam impossíveis. Todas as mulheres ficaram pra trás. Todas as notas arrancadas com sangue, ficaram pra trás. A casa ficou pra trás. Ninguém pode entrar na morte acompanhado, mas ter de encarar tudo, sem ter sequer alguém que lhe dissesse: “ Você não foi tão ruim assim cara, até que você tinha umas qualidades, vou sentir sua falta” era impossível pra qualquer um. Entretanto as pessoas que poderiam dizer algo estavam no passado. O futuro era a solidão e os três passos que ainda o separavam do uísque.
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“Só mais três passos”. Pensou... Mais uma respirada funda... Era uma das últimas... Precisava aproveitar... Ouviu o disco chegar ao fim, ouviu os primeiros acordes do violino... Desde criança, à noite, gostava de ficar acordado sozinho, cutucando as melancolias e ouvindo os sons... Adeus Virgínia... que pelo menos um sorriso bom dele tivesse ficado dentro dela pra sempre... nem tudo era mentira e traição... havia coisas bem sinceras... tantas guitarras azuis! Esforçou-se mais... Esticou a mão esquerda... era canhoto... Alcançou a garrafa... Devagar... Encheu o copo... As costas doeram forte... Adeus Virgínia... O dia lá fora clareava, mas, dentro do apartamento, a noite se tornava cada vez mais profunda e sincera... Bebeu todo o uísque de uma vez, era a dignidade que lhe restava. Cães latindo em meio aos violinos lá fora. Olhou os números vermelhos no relógio digital em cima da geladeira. 4:55.

- Vem meu filho. Disse a noite e o acolheu com carinho. E Virgínia estava longe. E a casa era só uma lembrança de pedra.


quinta-feira, 2 de outubro de 2008

DIAMANTES E FERRUGEM

PARA O MARCOS E PARA JOAN BAEZ

Você arrancou minhas bolas.
Descoseu minhas roupas.
Roubou minhas bombas.
Fez chacota dos meus poemas.
Riu dos meus pesadelos.
Rasgou minhas histórias.
Fez pouco de mim diante dos meus amigos.
Jogou fora meu gim.
Judiou do meu cachorro.
Quebrou meus Dylans.
Saiu com meus primos.
Me fez coadjuvante da minha própria história.
E
Me trocou por um cara quinze anos mais jovem.
E disse que eu usava drogas demais.
E eu escutava visions of johana.
E lia Jack kerouac.
E amava um Elvis gordo.
E tudo ao meu redor era decadência e cobrança.
E eu engoli todos aqueles remédios,
Mas nem a morte me quis.
E eu fiquei envergonhado.
E fui pra igreja
E uma velhinha me disse:

“Oh menino, você é tão bonito, por que fez isso?”

E eu só pude dizer que não sabia.
E fiquei com a minha cabeça abaixada.
E morri mais um pouco e fui ao museu da independência.
Porque eu tinha ido ao museu da independência quando era criança.
E fiquei bêbado no museu da independência.
E fui expulso.
E minha mãe me deu conselhos.
E meu pai me deu conselhos.
E meu irmão me deu conselhos.
E meu patrão me deu conselhos.
E o bêbado Vida Amargurada me deu conselhos.
E eu ouvi os conselhos.
E desaprendi a viver.

Você roubou meu dinheiro e meus filhos e foi viver com outro cara.
E ainda tem a cara de pau de dizer que a culpa é minha?
A sua ironia ainda me deixa de pau duro.
Vá para o inferno sem mim,
Por que havemos de ir juntos para o inferno?

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

JOYCE

Abriu os olhos devagar. As janelas, como sempre, estavam fechadas e as cortinas pesadas e vermelhas cobriam qualquer fresta por onde o sol pudesse entrar. Olhou o despertador: 14:48. Um bom horário pra se levantar. Calçou os chinelos. Teria um bocado de trabalho pra fazer agora pela sua manhã. A idéia do fogo nem sequer passava pela sua cabeça. Por enquanto, ela pensava que precisaria limpar as fezes dos ratos, alimentá-los, acariciar um ou outro que estivesse mais tristonho. Precisaria também alimentar Moema, a macaca. Moema há muito andava triste. Gostava dos sons dos sintetizadores, Moema, mas os sintetizadores haviam virado pedra. A maioria dos móveis havia virado pedra. A casa, agora uma ruína com chão de tábua, havia virado pedra. A carreira musical tinha virado pedra, primeiro pó, depois pedra. A beleza, os cabelos ruivos, a juventude, tudo tinha se perdido entre as pedras. O tempo é impiedoso. As pedras são impiedosas.
Foi até à cozinha. Os ratos rodeavam-lhe os pés. Havia dezenas deles. Estavam agitados. Desviou dos buracos no chão. Pisou metodicamente em alguns lugares onde as tábuas estavam soltas. Chegou à cozinha. Moema veio pulando pelas vigas do teto e ficou fazendo festa em cima da pia. Abriu a geladeira verde de porta grossa e vermelha. Empurrou o marmitex que já havia sido aberto e estava mal fechado para o lado. Pegou a caixa de peixes, estava repleta de peixes, a caixa, mas o aspecto deles, dos peixes, não era nada bom. Por cima dos peixes, estavam amarrados, com uma fita preta, um par de pés de galinha amarelos. Tirou os pés de galinha e colocou-os no congelador, seriam melhor conservados ali. Os ratos no chão davam pequenos pulinhos. Jogou alguns peixes um pouco distante de si. Os ratos correram como loucos pra cima da comida. Sorriu. Entregou a Moema, a comida de Moema. E a macaca ficou feliz. Voltou pra geladeira. Suas mãos enrugadas e cinzentas abriram o marmitex e apanharam uma rodela murcha de tomate, levou o alimento à boca de dentes raros e podres. Sentiu náuseas. Jogou o tomate no chão. Quase nada lhe descia mais.
Chegou perto dos ratos. Comiam rápido. Pegou mais alguns peixes e jogou para os animais que não conseguiam chegar perto da comida. Passou a mão no pêlo de alguns deles. Em algumas unhas ainda havia resquício de esmalte preto. Estava faltando alguém. Conhecia cada um de seus bichinhos. Sentiu um calafrio chacoalhar-lhe todo o corpo. Onde estaria Valkíria? A maior e mais carinhosa de suas ratazanas? Olhou novamente pra ter certeza de que ela não estava entre os outros roedores e teve certeza de que ela, Valkíria, não estava ali. Outro calafrio. Já estava acostumada à febre, mas, às vezes, como agora, os calafrios vinham mais fortes e ela não se sentia nada bem.
Andou até um dos buracos no chão, o maior deles. Abaixou-se. Olhou lá embaixo. A ratazana estava quieta, deitada num canto escuro. Pegou-a. O animal não se mexia. Ainda estava viva, mas a barriga inchada, rachada e o líquido escorrendo pela boca indicavam que o veneno havia sido fatal. Acariciou-a na barriga.O pior é que desconfiava que ela, Valkíria, estava grávida. Continuou acariciando o animal até ter certeza de que a vida tinha saído por inteiro dele. Foi até o banheiro. Abriu o armário. Não admitia mais espelhos pela casa. O reflexo seria insuportável. Pegou um pedaço de jornal. Enrolou a ratazana nele. Depois colocou tudo numa sacolinha de plástico verde escura. Abriu a minúscula janelinha do banheiro de uma maneira que pudesse jogar o embrulho pra fora sem que seus olhos ficassem muito expostos à luz. Todavia pode ver um homem, albino, passar dentro de um carro vermelho lá fora. Ainda abriu mais uma vez o embrulho para ver a ratazana antes de jogá-la pra fora. Depois fechou rapidamente a janela e a cortininha.
Voltou para o quarto. Abriu uma das portas quebradas do guarda-roupa. A porta despencou sobre o pé direito cortando-o. Correu um filete de sangue. Limpou-o com uma saia velha. A ferida rapidamente se cicatrizou. Da casa do vizinho vinha um som baixo de piano. Parecia que tocavam uma música qualquer de natal. Pegou o cachimbo branco, extremamente branco, de marfim talvez, de dentro do guarda-roupa. De um cinzeiro de metal dourado em cima da cama, recolheu as bitucas de cigarro. Retirou deles, dos cigarros, o resto do fumo e das cinzas e colocou tudo no cachimbo. Quebrou a pedrinha branca em pequenos pedaços e colocou-a também no cachimbo. Reacendeu um pedaço de vela vermelha que estava no castiçal dourado perto da janela, sobre uma velha cômoda infestada de cupins. Encostou um palito de madeira, usado talvez para pintar as unhas, na chama. Em seguida acendeu o cachimbo com o palito e fumou-o, mas o cachimbo apagava a todo instante e por isso ela tinha constantemente a necessidade de reacendê-lo. Talvez isto a irritasse.
Moema entrou no quarto brincando com um pedaço do que um dia havia sido uma flauta doce. Joyce sorriu. Acendeu ainda uma outra vela, branca desta vez, e colocou-a perto da cama. Apanhou no guarda-roupa um livro de capa preta. Deitou-se na cama. Abriu o livro e o livro era O morro dos ventos uivantes, e a macaca continuou a brincar com o pedaço de flauta, e os ratos vieram para a cama, para perto de sua dona, e qualquer vento mais forte que entrasse pelas frestas da janela poderia empurrar a cortina vermelha para perto das chamas da vela também vermelha.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

SAULO E ANA


ELE

Cheguei em casa e ela estava lá, toda pompuda, escorada em seu diploma e passando aquele esmalte vermelho ridículo nas unhas. “Vaca velha”. Pensei, mas não disse nada, não queria começar outra briga. Estava de saco cheio de brigas. Estava sem paciência pra ser ofendido e pra ofender. Queria mesmo era o meu sossego: entrar no quarto, deixá-la na sala, fechar as janelas e ficar só com a minha poesia. Era a única coisa que andava me salvando, a poesia.
Cruzei a sala. Ela não me cumprimentou, não tirou os olhos das unhas vermelhas dos pés. Estava desfazendo de mim, a vaca. Conhecia ela muito bem. Estava só esperando que eu dissesse alguma coisa, pra começar a falar que eu era imaturo e que não tinha sobriedade pra encarar as coisas de frente. Aí, se eu respondesse, ela começaria a falar de Freud, de Deleuze, Jung, Foucault e essa porra toda. É tudo decorado, eu sei, no fundo ela gostava mesmo era de revistas de fofocas da televisão e das ditas celebridades. Ela deve achar é bonito todos esses nomes de filósofos. Coisa de intelectual. Eu do meu lado prefiro a fábula, a poesia, as plantas, a cerveja ou uma boa luta.
Fui pro quarto. Fechei as janelas. Lá fora havia chuva demais. Abri a gaveta do criado mudo pra buscar a minha poesia, mas tinham tirado ela de lá. Procurei no guarda-roupas e nada. Embaixo da cama, do tapete, do colchão. Nada. Estava começando a ficar irritado de verdade. Que porra! Não basta a gente trabalhar o dia inteiro no meio da sujeira? Tem que chegar em casa e ficar agüentando o mesmo joguinho sujo da rua? Não gosto de queda de braço, muito menos com mulher, prefiro a porrada em estado bruto. Ela tava querendo partir pra porrada, a filha da puta. Devia ter enfiado minha poesia no meio daqueles livros podres dela. Olhei lá também, entre os livros. Nem sinal. Vaca, onde poderia ter enfiado? Não era possível que ela tivesse jogado minha poesia pra se sujar no meio dos objetos íntimos dela: absorventes, batons, camisinhas e todas aquelas coisas imundas. Ou será que era possível? Fucei mais uma vez, agora entre os objetos. Nada de novo. Paciência tem limite. Se o que ela tava querendo era mesmo briga, então ela teria uma briga das boas. Como aquelas de antigamente.
- Onde você enfiou minha poesia? Perguntei de uma vez, logo que entrei na sala.
- Nem mexi, onde é que tava?
- Lá no quarto.
- Não mexi.
- Quem foi que mexeu então? Porque tava lá e agora não tá. Decerto foi o capeta que escondeu na boceta do mundo.
- Calma, por que é que você está tão nervoso? Depois a gente procura com calma e acha.
Tava dando uma de sóbria, a filha da puta. Ela era muito boa nisso, nesse negócio de dar uma de sóbria. É que vocês não sabem o que ela já aprontou comigo. Tem umas histórias que envergonhariam qualquer depravado.
- Depois a gente procura? Porra, eu preciso dela agora, será que você não entende?
- Tem certeza de que você deixou no quarto mesmo?
Ela continuava pintando as unhas, a filha da puta. Fiquei com vontade de meter o pé no esmalte, na caixinha de esmaltes, nas lixas, na acetona, no pé dela, em tudo...
- Dá uma olhada na cozinha. – Ela disse. Só faltava essa agora, ela ter jogado a minha poesia no meio das frituras, do óleo, da carne crua.
Fui até cozinha. Revirei o armário, a pia, o fogão, a geladeira: nada de poesia.
Voltei pra sala.
- Escuta Ana, tem certeza que você não viu mesmo?
- Não amor, eu não vi. – Ela disse fazendo aqueles trejeitos dela com o cabelo, mas sem tirar ainda o pincel com esmalte da unha.
- Será que você não pode pelo menos me ajudar a procurar?
- Ai amor, você não está vendo que eu estou ocupada? Depois a gente procura. - Ela disse e dobrou mais as coxas grossas, deixando à mostra os pelinhos raspados que começavam a nascer próximos da boceta.
De certo queria desviar minha atenção com aquele par de coxas. Mas eu não cederia, não dessa vez. Eu queria minha poesia de volta, mas ela achava suas unhas mais importantes! Não deixaria de fazer as unhas pra me ajudar a procurar a poesia que ela mesma tinha enfiado no cu. Era metida demais, orgulhosa demais, feminista demais, pra deixar de fazer uma coisa feminina: pintar as unhas, e ajudar a mim, um homem, a procurar a poesia.
Se achava muito superior, a vaca, mas entre quatro paredes era eu que fazia ela uivar como uma loba e chorar como uma criança. Se achava muito superior, mas era ela que ficava de quatro como uma cadelinha, esperando que eu fizesse o que bem entendesse. E eu sempre tive uma imaginação fértil e gostei de coisas escuras. O que ela queria mesmo era umas belas pauladas. O que ela precisava, era que eu a revirasse do avesso, que buscasse com o meu verbo... com o meu membro... os ovários... as trompas... o útero dela e deixasse tudo jogado no lençol, como um açougueiro, um psicopata. Bem que era o que ela desejava, mas não era o que eu estava disposto a fazer, não dessa vez.
Voltei pro quarto. No espelho eu parecia um monstro, o rosto inchado, vermelho, as pupilas dilatadas, verdes. Onde porra tinha ido parar a minha poesia? Revirei ainda outra vez todo o quarto... Aqueles livros dela... De que adiantava ter lido aquela porcaria toda, se depois era ela quem ficava de quatro, esperando meu ódio quente e cremoso? Nem todos os Freuds, os Jungs, os Deleuzes do mundo podiam salvá-la na cama. Lá, eu a assassinava. Lá, eu a fazia de escrava. Contudo eu não queria a cama, não agora, a cama era o meu território, mas meu único território era a cama. Todo o resto, o quarto, a casa, o bairro, o mundo, eram território dela. Era ela quem tinha começado a briga, era ela quem tinha tirado minha poesia de lugar, era ela quem tinha que perder.
Joguei as coisas dela pelo quarto. Deve ter feito barulho, porque agora ela veio correndo. Então agora ela tinha pressa? Então agora pintar as unhas não era mais tão importante?
- Que porra você está fazendo, Saulo? – Ela sempre diz está, nunca fala tá como todo mundo.
- Tô procurando a minha poesia.
- E precisa revirar todo o quarto? Bagunçar tudo?
- Precisa.
- Você é mesmo um crianção mimado.
- Sou mesmo. Foda-se. Você sempre soube que eu era assim.
- Mas eu não pensei que fosse ficar assim a vida inteira. Todo mundo cresce um dia.
Essa doeu. Desgraçada.
- Ora, vá se foder.
- Vá você. Tem que ser tudo do jeito que você quer, na hora que você quer. Se não for assim o bebezão quebra as coisas, esperneia, grita.
- É, é assim mesmo.
- Então se vira bebezão. Quebra tudo. Depois você vai ter que se virar para comprar tudo de novo. É assim mesmo que se resolvem as coisas. – Ela disse e voltou pra sala rebolando e encostou a porta devagar. Sempre quer parecer muito controlada, isso é que me deixa louco de raiva.
Continuei procurando minha poesia, estava obcecado por encontrá-la. Não me importava com o que ficava quebrado, com o que ficava bagunçado. Depois eu daria um jeito de arranjar tudo. Senti cheiro de incenso. Ela devia ter acendido um na sala. Sempre fazia isso. Eu odeio essas porras desses incensos, mas ela os acende só pra irritar mesmo. Então escutei ela assobiando uma canção na sala. Justo a canção daquele baiano que eu odiava. Ela sabia que estava me irritando. Era o jogo dela. Estava me chamando pra guerra e, se era guerra o que ela queria, era guerra o que ela ia ter. Seria um ataque fulminante.
Abri a porta do quarto com violência e invadi a sala. Ela estava sentada no sofá e sentada no sofá continuou. Não parou de pintar as unhas, nem sequer levantou a cabeça. Eu sentia o ódio latejar nas minhas veias. Sentia o ódio dilatar todas as partes do meu corpo. Fui pra cima dela. Abri o zíper. Puxei minha espada. E enfiei na cabeça dela pela boca. Enterrei fundo. Com todas as minhas forças. Queria transpassar o cérebro dela. Queria ver a ponta da minha espada sair ensangüentada do outro lado do crânio dela. Ela não reagiu.

ELA

Eu estava pintando as unhas quando ele chegou. Como sempre fazia, bateu a porta. Devia estar nervoso. Gostava dele nervosinho. Foi para a cozinha. Nem sequer me deu um bom dia. Seus passos eram pesados. Voltou para a sala. Ficou olhando pra mim. Fingi que não percebi. Acho que queria dizer alguma coisa. Reclamar, como sempre. Entrou no quarto.Ouvi o barulho da janela fechando. Eu tinha deixado a janela aberta para o Sol entrar um pouquinho, entretanto agora ele a havia fechado com força. Questão de ponto de vista.
Ouvi uns barulhos estranhos dentro do quarto. Devia estar procurando alguma coisa. Como das outras vezes, não encontraria, e então viria até mim, como um cão atrás do dono. Dali a pouco voltou para a sala. Perguntou-me pela poesia. Disse que não sabia, que não tinha visto. Soltou um palavrão. Divertia-me vê-lo tão zangado por um motivo tão bobo. Parecia uma criança da qual tiraram o brinquedo. Ficou ainda um tempo olhando-me e eu continuei pintando as unhas. Ele deve ter ficado lá com as sobrancelhas franzidas, como se todo o seu ódio estivesse entre elas. Era bonito, tanto nervoso, quanto calmo, mas o que me fazia perder a cabeça nele não era a beleza, a beleza também, mas não só ela. O que me fazia ficar louca era aquele jeito impetuoso dele, aquela crueza, aquela quase irracionalidade, como se ele não fosse um menino, mas um outro tipo de força da natureza. Por fim, falei pra ele dar uma olhada na cozinha, quem sabe a poesia não estivesse lá, ou em qualquer outro lugar da casa.
Ele foi pra cozinha. Ouvi o barulho da zona que ele devia estar aprontando. Voltou pra sala. Perguntou outra vez se eu não tinha visto a poesia. Repeti que não. Quis saber se eu não podia ajudá-lo a procurá-la. Respondi que ajudaria, mas depois, naquele momento estava ocupada. Sabia que a raiva dele estava aumentando, mas já disse, gostava dele nervoso. Gostava do jeito como ele me agarrava com força, quase como se fosse me bater, mas não baita. Pelo contrário, usava sua força para me acariciar. Só para provocá-lo, dobrei mais as pernas e as abri um pouco mais, deixando que ele visse alguma coisa, mas não tudo. Começava a sentir por dentro uma vontade louca de ter as mãos dele agarrando forte a minha cintura.
Ele, lá no quarto, começou a quebrar as coisas. Tudo bem, eu até que pagaria pelo estrago. Valia a pena. Era o jeito dele me chamar. Entrei no quarto fingindo raiva, afetação. Chamei-o de criança. Sabia que isso o deixava doido de raiva. E eu queria que ele viesse do fundo do seu ódio pra me derrubar. Deixei-o mais uma vez no quarto e voltei para a sala. Acendi um incenso, tinha certeza de que ele se revoltaria, de que arrancaria os cabelos no quarto por causa do incenso. Assobiei uma canção por cima do ódio dele, como pra zombar dele, do ódio, de tudo. Estava só esperando o momento dele entrar na sala. E ele veio. Fiz como se não soubesse que já estava por ali. Continuei com o esmalte. Ficou lá parado por um tempo, depois avançou para mim com sua tocha de chamas enormes nas mãos. Por puro despeito engoli a tocha... as chamas e as apaguei dentro de mim, com a minha água. A poesia estava em cima da cama, escondida dentro da fronha do travesseiro.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Dylan


TRÊS

Já aprendi a ir embora
O que não quer dizer que não doa
Eu empresto meus pés ao vidro
Eu empresto meus olhos aos punhos
Eu empresto meus dentes ao caos
Eu ofereço dez mil faces novas a dez mil mãos espalmadas
Não é por bondade
Nem é por maldade
É por ser gente

Há muito
Deixei de entoar cantigas de guerra
Mas invento novos impérios vermelhos
E crio línguas outras
E faço as religiões que me convém.

Não sei se é já esta a minha hora
Quem sabe?
Mas enquanto as borboletas,
De asas dadas, vêm trazendo a primavera
Deixo um conselho simples às lebres
- Não se metam com a fúria do Leão.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

MEMÓRIA DA ROCHA

René Magritte
para os que ficaram

Naquela época, pela janela do carro, eu via que a chuva caía. Já não havia mais nada pelo meu lado de dentro, mas nem por isso eu me sentia mais seguro, ou menos roubado. Já não havia mais livros a serem escritos e nem músicas a serem feitas, mas havia ainda quase toda uma velhice pela frente. Já era alguma coisa? Eu não sabia, eu não sei, tenho cá minhas dúvidas e todos os desesperos brotam em meio aos ressentimentos, feito essas pequenas plantas que brotam entre os tijolos dos muros. Veja bem, não é conformismo ou desistência é só um meio de me defender, de me proteger, pra sofrer menos. As desculpas jamais serão aceitas mesmo. Não há como escapar. Estamos todos presos. Encaixotados. Mortos, ou semi-mortos e é uma grande besteira achar que o cinema vai resolver, é besteira achar que a literatura vai resolver, que o vinho, a música, as crianças vão resolver, não passam de paliativos. Derivativos. Ainda assim era bom tocar guitarra num dia de chuva, sozinho, trancado, no carro ou no quarto. Ainda assim era bom cair no vinho a qualquer hora. Mas em todos os copos, em todos os corpos, em todos os banheiros, em todos os telhados e puteiros havia olhos. “O que foi feito da casa das nossas infâncias?” Nós nos perguntávamos sem saber que haviam tocado fogo nela, que haviam jogado-a ao chão. Pelo menos nos deram capacetes pra que nós nos protegêssemos dos tijolos que caíam por toda parte. Um capacete não é uma casa, ou é? Mas já servia, aliviava um pouco a potência das pancadas. Entretanto e apesar de tudo, escapávamos, às vezes, à noite e tocávamos teclados e baterias e guitarras. O problema eram as manhãs, sempre tão facistas e reacionárias nos empurrando para um caminho que não era o nosso. Tudo bem, nós nem sabíamos direito qual era o nosso caminho, só sabíamos que não era aquele. Mas aí alguns começaram a desistir, jogaram seus capacetes fora, eram sensíveis demais pra continuar. Não era fácil, cada vez os tijolos eram maiores e, a cada vez, vinham com mais força e a casa... a casa da nossa infância... estava morta, apenas as portas tinham ficado de pé, mas as portas davam para um vazio sem teto, era inútil entrar.
E os mais sensíveis continuaram a desistir. Um cortou os pulsos. O outro bebeu veneno de rato. O mais triste de todos pulou do décimo oitavo andar com uma corda amarrada ao pescoço, pra ter certeza de que não escaparia. Os poucos que ficaram vivos fugiram, ou deram um jeito de enlouquecer tranqüilamente, pra não sentirem saudades ou remorsos. Um foi pra Minas. Outro pra Manaus. Houve quem conseguiu fugir pra Santa Cruz de la Sierra, num trem que partiu a noite em duas e nunca mais voltou. No final, ficamos apenas eu e ela, encalacrados, e eu não era mais eu. Agora... agora eu era uma rocha, mas eu era rocha só por fora, porque o lado de dentro da rocha que eu era, era mole, cremoso, um creme triste de lembrança e saudade. O bom era que à noite ela me acariciava, acariciava essa minha superfície cinzenta e fria e tocava flauta pra mim, só pra mim. Todavia eu nem me movia. Sabia que se me esforçasse conseguiria voar, ou pelo menos rolar. Mas eu não conseguia me esforçar e ficava lá. Parado. Tornando-me poeira, vento, terra, aos poucos, esperando os trilhões de anos que, enfim, me destruiriam. Não me importava. Os tijolos batiam em mim e eram eles que se esborrachavam, havia força na minha imobilidade.
Até que uma noite ela não apareceu. Com uma talhadeira escreveram o nome dela na minha superfície e mais tarde eu soube que ela havia voado para o Canadá. A voar pra lá, preferi ficar. Não suportava mais ficar desesperado.
Ainda hoje, milhares de anos depois, desperto à noite assustado, ouvindo os sons da flauta, mas, após o primeiro instante, percebo que não é ela e permaneço imóvel, quieto. Dentro de mim, aos poucos, tudo se solidifica e se esquece. Resta apenas no meu cerne, no centro de mim, uma pequena porção de pedra gomosa: É a lembrança dos tempos em que pela janela do carro, dela, eu olhava a chuva que caía, enquanto acariciava a carne dos seus seios.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Texto no Amálgama

Quero informar meus parceiros que tem um ensaio meu intitulado "Um timaço argentino", apesar do título trata de literatura, no Amálgama. Acessem: http://www.amalgama.blog.br/?p=76
Amigos, ontem tivemos alguns probleminhas com a página. Peço que tenham paciência e tentem outra vez.
Abraço

domingo, 7 de setembro de 2008

Frankenstein Lírico dos Meus Sonhos de Alcalóide


Acendo um cigarro e ligo o som do carro. FM. “Queria saber voar... para do alto poder ver você”. Bonito. Dengoso demais talvez para o meu gosto. Mudo. “ E de repente vi você sair com a toalha no seu corpo”. Lindo, mas todas as estações de rádio parecem conspirar contra mim nesta tarde azul e amarela. SOU UM CANALHA. É fato, e os canalhas não têm sentimentos. Mas estas músicas cutucam-me. Agulhas invadindo suavemente as pontas dos dedos. Não sangra e nem dói, como ela me disse num tempo mítico, enquanto éramos crianças e inventávamos um ao outro, superando o tempo dos relógios e o espaço de metros, milhas e quilômetros de distância.

- Queria ter um filho teu. – Ela me disse ainda na semana passada. Ela gosta de falar e... juro por Deus que eu nunca tinha ouvido prova maior de amor e admiração. Os homens, não digo a humanidade, digo os homens, são como crianças: só querem ser amados e admirados, contudo, quando conseguem amor e admiração, eles se rebelam e agridem quem os ama e admira. São feito um menino de um ano que esbofeteia a mãe, enquanto ela o amamenta. Há amor íntegro, puro e verdadeiro até nessa bofetada.

Quando terminamos, pelo telefone como qualquer bom canalha faria, ela soltou a seguinte frase nos meus ouvidos:

- Eu componho, você se esqueceu? Engana-se quem pensa que fazendo um artista sofrer, faz mal a ele. A dor é a matéria prima de que me alimento, querido. Você é parte de mim. Mas tenho agora que vomitá-lo, porque você mesmo quer, não se assuste se um dia você se ouvir lambuzado de vômito no banheiro de uma lanchonete qualquer. – E aí ela desligou e eu fiquei com o telefone na mão, imaginando que nunca seria um escritor de verdade, porque eu demorava um texto inteiro para criar uma única metáfora, ao passo que ela as criava numa conversa com um amigo, num passeio pela praça, numa despedida... numa despedida...

Deve estar fazendo uns quarenta graus. Desligo o rádio. Tudo parado. O rio poluído da minha cidade ferventa gomoso ao lado. Abrir a porta e dar um mergulho seria o suficiente. Mas sou um canalha e os canalhas não se matam e ela disse que queria ter um filho meu... um filho... e meu! Vai entender.

Ela tinham (isso não é um erro, porque ela era mesmo mais de uma) uns olhares que me liam e eu me assustei e quis ir embora e ela havia desenhado meu rosto e nenhum espelho antes havia me dito que um canalha podia ter os olhos tão tristes. Então saí correndo com o meu desenho embaixo do braço e escalei uma montanha de cocaína e no outro dia eu não tinha mais nariz, nem olhar, nem nada e o papel que eu carregava nas mãos estava em branco, como se jamais tivesse sido tocado, nem por lápis, nem por caneta e nem por mãos de gente... e ela disse que queria ter um filho meu! Mas eu achei que ela era doida, porque quem poderia ser tão lunática a ponto de querer gerar uma vida a partir de um canalha?

Penso em acender outro cigarro, mas desisto. Viro para o lado e vejo a menina que me observa ao volante de um carro vermelho. Do outro lado, uma outra de olhos verdes me sorri. Mais atrás, essa de cabelos nos ombros buzina pra mim. Só então percebo que todos os carros ao redor são guiados por mulheres. Por dentro da minha cabeça louca, eu arranco os olhos de uma, junto com o sorriso de outra, misturo ao olhar de uma terceira. E te reconstruo toda só pra mim. Frankenstein lírico dos meus sonhos de alcalóide.

Então, enquanto ainda danço em círculos com você dentro da minha cabeça, percebo que uma das moças abriu a porta do carro e vem na minha direção com uma faca nas mãos. Olho então no espelho e a outra se aproxima com uma espada de samurai. A da frente vem com um revólver.

Sem me precipitar, acendo enfim o cigarro. No cerne da fumaça azul, dez mil almas femininas bailam e choram e sorriem e se acumulam no céu, feito imenso telhado, construindo uma noite em plena três horas e vinte sete minutos da tarde.

Estou feliz. Sou um canalha.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

ONDE O AMOR NÃO FLORESCE

Baby,
Você saiu pela tangente
Dos meus planos.
Lembra-se daquela viagem?
Admito,
Ainda é uma miragem
E anda roubando meus sonhos
Embora de passagem
Como teus beijos infames...
Baby,
Onde você pisa
O amor não floresce...
Como uma peça sem conserto
Ou emenda com arames
Abrirei minhas comportas
E mandarei com uma descarga
O amargo dos vexames
Que restou de nós
E de um amor
Com aparência de sol...
Baby,
Onde você pisa...

Luciano Fraga

Sentiram o peso? Meio banda Terço, meio banda Peso, meio Casa das Máquinas?... "abra que eu quero ver...?" Meta-se nisso umas guitarras progressivas e um puta baixão. Enfim visitem o blogue:

http://versoseperversos.blogspot.com/

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

BENEDITA

IMAGEM DO FILME VALE ABRAÃO, GENTILMENTE SURRUPIADA DO BLOGUE DA RENATA CORDEIRO
Se pudesse entender, não escreveria. Estava cansado, um bocado cansado mesmo, embora contente. Contente porque depois de três meses eu poderia me encontrar outra vez com Benedita, que é boa e eu amo. Contente por poder ficar longe de toda aquela correria do banco, daquele dinheiro todo, daqueles clientes todos, de todas aquelas gravatas coloridas e daqueles ternos bem e mal talhados. Estava feliz porque Benedita escrevia poesia e me esperava e era sexta-feira e o trem... o trem estava por vir, e me levar pro oeste, onde ela, Benedita, me esperava, usando seu vestido vermelho com elefantes indianos desenhados e a bíblia aberta sobre o criado-mudo.

Certo é que ainda sobrava tempo pra tomar um café e fumar um cigarro olhando os gêmeos colombianos tocarem suas flautas de bambu enquanto o trem não vinha. Enfim era tempo de sorrir, eu estava sem calor, de banho recém tomado, imaginando Benedita nua com seus olhos brilhando no meio do rosto alegre, o corpo deixando o vestido sair, as mãos prontas pra serem minhas. E pensar que em breve eu seria senhor de tudo aquilo! E pensar que em breve eu não estaria mais na estação vermelha esperando o trem, em breve São Paulo e suas neuroses seriam passado e eu beberia algumas cervejas bem geladas depois do amor.

Eram sete e trinta e sete da noite, quando olhei no relógio da estação e decidi que era hora de abandonar o café e embarcar. Por farra resolvi pular a catraca, justamente na frente do guarda pra ver qual seria sua reação. Embora eu pulasse devagar, ele, o guarda, não esboçou qualquer reação. Fez como se não me tivesse visto. Melhor pra mim que poderia guardar o dinheiro pra mais tarde.

O trem não demorou a encostar. Estranhei-o, porque era extremamente velho. Como é que uma coisa naquela situação poderia suportar atravessar o estado? De qualquer maneira eles, os chefes da estrada de ferro, deveriam saber o que estavam fazendo. Não colocariam pro serviço um veículo que não poderia fazê-lo.

Assim que as portas se abriram eu entrei. Já havia algumas pessoas, poucas, dentro do vagão. Achei que eram, principalmente por suas aparências, foragidas de algum circo. Havia um palhaço sentado no banco em frente ao meu que fazia crochê com lã vermelha, não consegui distinguir o que ele tecia. Um pouco mais adiante, sentados no mesmo banco, conversavam uma mulher barbada e um homem de terno negro e cartola, que eu deduzi ser o mago. No banco atrás do meu, dormia um senhor de uns noventa anos com roupa de trapezista.

Sentei. Sorri. E decidi que era hora de tomar o meu comprimido azul.

Lá fora a noite aumentava cada vez mais. E, aos poucos, uma névoa clara quase como nuvem envolvia o trem. Senti meu corpo amolecer. Estava relaxado da cabeça à ponta dos pés. O mágico acendeu seu cachimbo. Tinha um cheiro bom a fumaça que o cachimbo dele, do mágico, emitia.

O trem ganhou velocidade. Avançava na noite feito um tigre. Não sei se adormeci, ou se ainda estava acordado. Talvez fosse sonho, talvez meus olhos estivessem realmente vendo aquele rio lindo correndo ao lado dos trilhos, cercado de girassóis azuis, e no qual os peixes eram todos de cores exóticas. Ao longe havia montanhas em cujos cumes um fogo intenso crepitava. Foi estranho que nem eu, nem ninguém no trem tivemos a menor reação, quando aquela cruz enorme surgiu entre as montanhas, tingindo tudo ao seu redor de fogo, feito o sol quando se põe. Mais estranho ainda foi ver aquele pano roxo enorme descer sobre a cruz, encobrindo tudo, inclusive as montanhas... Talvez eu estivesse mesmo sonhando.

Sei que quando dei por mim novamente os alto-falantes do trem anunciavam que dentro de dez minutos chegaríamos à estação onde eu deveria descer. Notei que os outros passageiros não estavam mais no trem. Fiquei feliz ao pensar que em vinte minutos, no máximo, eu teria Benedita só pra mim.

Assim que o trem parou, pulei com minha mochila, entretanto estranhei a estação, não parecia ser mais a mesma. O mofo havia tomado conta de todas as paredes, que em muitos lugares estava destruída ou deixava os tijolos à mostra. Havia um cheiro azedo no ar. Pensei em tomar um café, uma cerveja, ou qualquer coisa assim, mas o telhado da estação, onde ficava o bar, havia desabado. Saí para a rua e a cidade inteira não estava em melhor estado. Era absurdo que as coisas tivessem mudado tanto em apenas três meses. O cheiro de carne podre empesteava o ar.

Nas ruas não havia mais asfalto, apenas buracos, buracos enormes. Resolvi caminhar. Viva alma não encontrei em toda a cidade, apenas aranhas, teias de aranhas e o zumbir das moscas, alimento. Pelo menos as ruas ainda existiam, embora as casas estivessem destruídas e as pessoas estivessem longe, invisíveis.

Dobrei uma esquina, depois a outra, segui em frente.

Então, mesmo com medo de olhar, avistei a casa. Como a estação e todo o resto da cidade, não era mais que um emaranhado de ruínas, a casa. Continuei ... A porta estava escancarada. Em algumas partes da parede os tijolos também apareciam, porque o reboco havia caído. Onde os tijolos ainda não apareciam, o mofo cobria tudo. Um mofo negro, áspero.

Entrei devagar, sentindo o assoalho velho ranger sob meus pés. Ouvi vozes baixas que vinham do quarto onde Benedita dormia. Fui até lá. Meu coração disparou. A porta do quarto estava fechada. Pensei em bater, mas desisti e acabei entrando de uma vez.

Havia uma velhinha deitada na cama, segurando na mão de uma menina de uns doze anos. Conversavam. Não pude entender o que diziam. Aproximei-me da cama. A menina não se moveu um milímetro sequer. A velhinha, entretanto, virou-se pra mim e sorriu. Apesar de velho, era um rosto bonito o dela, e os olhos azuis, embora acinzentados pelo tempo, ainda brilhavam. Eu conhecia aqueles olhos. Ela disse meu nome, calma, como se me conhecesse de longa data. Percebi pelos olhos, o sorriso, a voz que aquela senhora ali, deitada, de alguma forma, era Benedita, a minha Benedita. Havia uma cadeira encostada na parede. Tudo o que pude fazer foi me sentar e segurar a outra mão dela.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

CLUBE DA ESQUINA 2

ÊTA DISCO FODA!!!!! SE PUDEREM, OUÇAM. NADA MAIS TENHO A DIZER.

UM BÊBADO DANÇA NA BEIRA DO ABISMO

A rotina bate forte e não alivia quando já estamos no chão. Eu crio metáforas e invento palavras pra te impressionar, mas me tornei cotidiano e previsível como um matemático. O meu show não impressiona a mais ninguém e a elegância com que você desfila sua dor me deixa perplexo. Não se trata de pedir desculpas, eu tenho todo um porão inundado de desculpas, mas elas não valem de merda nenhuma e o seu desprezo por elas me deixa atônito. Com cara de bobo, como sempre. Dez mil demônios invadem meu corpo cansado. Explodem-se os ponteiros do meu relógio. Saltam-me as lentes da armação dos óculos. Tudo escurece e eu enfrento o pântano, pulando de uma vitória régia à outra, equilibrando-me feito um bêbado que dança na beira do Abismo.

E a Rotina bate forte... mas eu ainda tento.

Se estou acordado, eles me perseguem, causam chagas em minha pele. Se estou dormindo, eles invadem minha cabeça e eu tenho dez mil quinhentos e oitenta e sete pesadelos por minuto. Só queria poder dormir por uns cinco dias sem sonhar. E você segue em frente, adestrando a sua dor como quem domina um tigre, ou um leopardo... Grita-me nos ouvidos que eu não tenho motivos para produzir um espetáculo assim, que a minha vida é tão normal quanto a de qualquer outro, mas os demônios me atormentam e eu encho a cara e perco a chave de casa e caio de cabeça nos bueiros, mas ainda me equilibro como um bêbado que dança na beira do abismo.

Tenho ainda os lábios sujos de amora e tento driblar os fantasmas que me perseguem pela rua.

O amor dói.

No céu, um avião vermelho fecunda nuvens também vermelhas.

É sempre segunda-feira dentro de mim.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

TEENAGE WASTELAND, OU O ÚLTIMO PRANTO PARA ROGÉRIO CARVALHO DE FREITAS.



CREPÚSCULO

Quando a criança morreu,
Seus assassinos colocaram novos sapatos vermelhos de bico fino
e marcharam rumo às universidades, aos escritórios, aos supermercados, ao saco escrotal da psicologia moderna
Ao cu do Freud com Jung aplaudindo.
Já vinha a noite já, mas ainda havia luz
E os bares vendiam cerveja
E nossas mães estavam longe
E eu estudava ainda...
Ó crepúsculo insano e vermelho
Ó outubro estranho
Ó rio de ratos e baratas deste chão
Ó corda velha de varal que não arrebenta
Um real o metro e teus sonhos todos dependurados
Ó Rogério, gnomo mais triste do mundo.
Vai o Sol quente e indiferente
Já pararam para imaginar a casa vazia e suja?
Fogão velho
Botijão de gás novo
Geladeira alienada e vazia
A cama, nunca arrumada
O som, meu Deus
O som.
E o corpo pendurado no meio, sozinho
Já pararam para imaginar ele enchendo sozinho sua mochila de morte?
E no acadêmico as meninas flertavam com os rapazes, que olhavam as meninas.
Já pararam para imaginar o quão vazio era o silêncio?
E na cantina tagarelavam os professores ao jazz de colheres nas xícaras de café.
Já pararam para imaginar as mãos ficando roxas, as unhas, sem meia-lua, ficando roxas, os olhos fora das órbitas e as órbitas abertas ao nada?
Já pararam para imaginar o cansaço, a tristeza, o ódio, o tédio, a sensação de abandono, as unhas rasgando a carne do pescoço tentando em vão talvez voltar?

Um cachorro entra pela porta
(Vem a morte vestida de mosca e põe larvas no menino)
As creches soltam as crianças nas tardes onde as crianças ainda têm mães
(Vem a morte vestida de mosca e tira a música do menino)
Um semáforo fica vermelho, um pedreiro cai do andaime, um marceneiro perde os dedos, um açougueiro mói as mãos
(Vem a morte vestida de mosca, varejeira, e toca alegre a vinheta do vídeo show)
Uma mulher olha sentada da cama
(Vem a morte vestida de noiva e corta as unhas do menino)

Água estancada
Pedra
A letra U
Um urubu
O silêncio
As notas mais graves
Cruz
A barba que cresce indiferente
A cor preta
Um rato morto na rua Procópio Dias
Um carro quebrado
Uma pedra de gelo
Uma camisa do Náutico, do Corinthians, do Fluminense.
Um bom conselho
Você tentando dar comida na boca da Sílvia doida
Um trem azul
Uma voz de criança ao telefone
Um contra-baixo
Um porco magro
Um palco vazio
Um estádio de futebol
Uma caneta
A pasta na mão e o plano de partida.
Nunca mais seremos os mesmos, Rogério.
Nunca mais sorriremos nos bares tomando cerveja e ouvindo o clube da esquina.
Nunca mais voltaremos à nossa velha casinha velha
“Houvera tantas madrugadas em vão nessa esquina?”
AAAhhh!!! Quebra o gelo, irrompe o escuro, explode o delírio,
Mas volta parceiro, nem que seja em sonho.

NOITE

Já se fecharam os bares
As dentaduras repousam nos copos
Uns casais que se amam e outros que nem se amam tanto assim fazem amor já
A lajota vermelha ainda está fria
Mas teus pés descalços já nem a tocam mais.
Já podes voar, parceiro
Indiferente às aranhas do mal que inundam a casa, aos ratos no chão.
Já podes voar, parceiro
Indiferente à noite densa que escorre pelas vidraças, sobre os bueiros, nas paredes dos prédios de apartamentos.
Teu corpo já não é necessário
Queriam o teu sangue e o teu sangue tiveram
Agora podes te rir desta corda estúpida, deste silêncio.
Da tua mochila de viagem brotam leões selvagens, canários da terra, do reino, uma pantera, um tigre, um cavalo, um punhal, um endereço marcado no papel,
lagartixas que também fazem parte, um natal, um mês de férias, camelos alucinados.
Já podes voar pelo todo
Foda-se o espaço da casa fechada
Fodam-se as reflexões do príncipe de Shakespeare
Teus amigos têm o crânio dormente
Voa que o infinito é irrisório
E o abismo não faz medo algum.
Teu coração brilha feito um Sol estático
Já vêm os anjos do Senhor ao longe e a roupa branca
Desmentindo tudo o que dizem a respeito dos suicidas
Se você fosse japonês seria recebido aí do outro lado com honras,
Samurai do parque Buracão.
Salve Rogério, salve
Segue, segue, segue Rogério, o rio,
Porque as águas dele são tão alvas.
Segue o rio, irmão
Segue o rio
Que os anjos estão chegando,
Com a roupa branca e tudo.

AURORA

Brotam rápido os girassóis do chão
E tuas mãos podem tocar os céus
Te faz sorrir a melodia mais bonita
O rio segue pelo campo de girassóis
Só não deves xingar os anjos
Em breve Van Gogh te fará um retrato com o baixo nas mãos
E as capas daqueles discos bons atrás.
O álcool já não faz diferença
A água já limpou tuas feridas
Deus te quer ao lado
Quer ouvir tuas canções favoritas
Corre o rio como um longo diamante
Já não precisas passar de ano
Já não precisas aprender inglês
Já não precisas perdoar cicrano
Esquecer o amor
O inverno ficou pra trás
Todos os filhos da puta ficaram pra trás
Já te brilha nos olhos uma terra maravilhosa
Segura a mão dos anjos, segue o rio
Olha o campo de girassóis
O Sol já vem
Como nos tempos de Office-boy,
Na estação da Luz.

MANHÃ

E vendo o Senhor Deus
Que ainda lhe faltava luz nos olhos,
Encheu-lhe os olhos de luz,
As mãos de sons,
Contra-baixo de marfim.
O Sol ilumina sem esquentar muito
A voz de Milton Nascimento
Nascente
Caminhando numa terra maravilhosa
Um poema antigo
Uma mulher bonita
Caminhando numa terra maravilhosa
Um carrinho de brinquedo
Uma pomba branca no céu azul
Caminhando numa terra maravilhosa
Longe dos ônibus, caminhões, serras-elétricas, fios de luz que te cortavam os olhos
Caminhando numa terra maravilhosa.

A Sofia está crescendo
Queria que ela sentasse no teu colo e te chamasse de tio.
O Ceará vai ter um filho,
Caminhamos pela Dom Antonio rumo à velhice inevitável
Longe vão os tempos da banda Assis
Longe vão os tempos do Neguinho
Longe vão os tempos do nosso tempo
Agora é só um vazio
E esse Sol que não se põe nunca
Queria fazer um longa-metragem falando da gente.
Queria ter te dado um beijo de adeus
Queria estudar latim.
Queria, queria, queria,
Sempre quis o impossível.

domingo, 24 de agosto de 2008

PIANISTA BOXEADOR




Sempre gostei de rosas vermelhas!
Difícil é te explicar porque foi que eu resolvi escrever depois de tanto tempo. Tudo parece tão absurdo que eu não consigo sequer imaginar um meio de começar a te contar. Talvez pelo início seja o melhor meio, mas é difícil também saber onde e quando tudo se iniciou. Vou começar então por onde a gente terminou. Naquela manhã chuvosa de domingo em que te perdi pra sempre. Talvez tudo tenha começado exatamente naquele momento, quando comecei a descer as escadas pra fugir do teu quarto e continuei a descê-las, mesmo quando cheguei ao porão. E continuei a descê-las, mesmo quando não havia mais escadas e eu arranquei as lajotas com as mãos e continuei a cavar e a descer até me embrenhar entre os vermes, longe das flores. Você sabe, sempre gostei de rosas vermelhas, embora aqui embaixo nunca tenha havido muitas delas.
Quando saí da sua casa naquele dia percebi que não havia mais jeito, que não havia mais um meio de voltar àquele passado onde havíamos sido felizes, porque eu, sempre eu, tinha destruído tudo outra vez e, dessa vez, eu o sentia, era pra sempre. Então fugi. Abandonei os ringues, as luvas vermelhas, o cinturão de campeão brasileiro de boxe, categoria peso pesado. Então fugi e abandonei os pequenos palcos e o meu piano branco, e quebrei meus discos de vinil forte, e decidi que rolaria no estrume até onde minha alma pudesse suportar.

Voltei pro crime. Você sabe que eu tenho habilidade pra isso. Retornei também ao pó que sempre me fez subir, mas que também já me passou rasteiras imensas. Estava sujo outra vez, mais sujo que nunca. Entretanto, no panorama negro da noite, entre cartas de baralho, carreiras, copos sujos de vodka, de conhaque e homens que atiravam com a mesma espontaneidade com que sorriam, muitas vezes me vinha nítida aos olhos a tua figura. Então eu me levantava no meio do jogo e tudo, e corria pra tentar tocar teus cabelos sempre amarelos e soltos, mas, quando chegava perto e tocava, só havia a noite, quente e densa. Aí eu voltava pra mesa e sorria e meus companheiros, todos tão subterrâneos e brutos, alguns até mais subterrâneos e brutos que eu, aconselhavam-me para que parasse com o pó e deixasse um pouco o conhaque e a vodka de lado. Mas eles não entendiam que eu estava decidido. Não entendiam que nós havíamos sido crianças juntos. Você se lembra de quando me emprestava sua bicicleta verde e, à noite, brincávamos de pega-pega até nossas mães nos buscarem furiosas? Às vezes você ia na bicicleta e eu ia a pé, outras vezes eu ia na bicicleta e você ia a pé. As mães ainda existiam naquela época. Mas agora não há mais mães. Agora está tudo fora de lugar e eu apunhalei meu anjo, esqueci de Jesus, da nossa professora de catecismo. TE PERDI PRA SEMPRE!
***
Arquitetar crimes não é como compor canções, ou estudar um adversário no quadrilátero. Arquitetar crimes tem segredos e idiossincrasias específicas. Eu elaborei assaltos perfeitos. Transportei drogas em lugares que ninguém jamais poderia imaginar. Mas um dia falhei. Lembra do grande roubo a agência central do Banco do Brasil? Fui ferido. Na barriga.Quase morri, mas os anjos do mal que comigo andavam conseguiram um médico que aceitou me operar, mesmo num barraco de madeira podre onde a noite entrava por todos os lados, entre as frestas. Sobrevivi. Ganhei uma cicatriz imensa na barriga e algumas dezenas de rugas em cantos do rosto onde a barba não pode encobrir.
Estava novamente de pé, na noite, e novamente o pó me acolheu e me levantou. Por pura maldade atirei num cachorro branco que latia à noite na rua Guaianases. Atirei também em alguns dos que se esforçaram pra me salvar. Não pelo egoísmo de ficar com todo o dinheiro, mas pelo simples gosto da traição, da mais vil traição. Quando era pequeno também fiz desaparecer a aliança do teu padrasto, isto mesmo, fui eu quem roubou a aliança, e você apanhou até que na sua pele brotasse imensos vergões negros, feito lagartas. Você sabe... sempre gostei de rosas vermelhas.
Mas vivemos sob as chagas de Cristo e às vezes, sempre na noite, eu chorava. Chorava pela loucura e o mal que usavam meu corpo, minha mente, meus braços. Chorava pelo pai que nunca tive. Chorava pelo nosso bebê que eu fiz você arrancar da barriga. Chorava por todos os crimes que havia cometido e por todos que sabia que ainda iria cometer. Chorava por ter ferido você, o anjo que perdi pra sempre. Longe de você, das luvas, das teclas, toda energia boa ou má que existia em mim e que poderia se transformar num beijo terno, num bom cruzado no ringue ou numa canção bonita se tornava atos vis e criminosos.
Mas vivemos sob as chagas de Cristo e um dia, quando eu me sentia superior e imortal, senti brotar na minha barriga, ao lado da cicatriz da operação, um pequeno nódulo, talvez o primeiro sinal de uma inflamação. A princípio não dei atenção alguma, apenas continuei, na noite. Só que, quando amanheceu, eu vi que o nódulo havia explodido e que de dentro dele, além do pus, saía um pequeno pedaço de tecido vermelho. Tinha textura delicada, o tecido, parecia camurça, mas, por incrível que pareça, era ainda mais macio que a mais macia das camurças.

Ó Deus, por que não fugimos pro meio do mato enquanto ainda era tempo? Por que não fizemos uma casinha simples, no pé de uma serra onde nas janelas houvesse cortinas brancas, como se todas elas, as janelas, estivessem usando vestidos de noiva? Por que?
Agora é tarde, porque aquele pequeno pedaço de tecido que brotou na minha barriga, aos poucos, foi crescendo. E até que era bonito, mas o pus continuava a correr o tempo todo junto a ele e, Deus, como doía. Não soube muito bem o que fazer. Eu nunca soube muito bem o que fazer. Apenas ficava lá, suportando a dor e acariciando com a pontinha dos dedos aquele vermelho tão pequeno e delicado.
Vermelho que crescia e desabrochava e parecia sugar todas as minhas forças, uma vez que eu me sentia fraco e minha pele, e meus olhos, estavam anêmicos, amarelos. Todavia, apesar da dor e do cansaço, eu estava feliz, porque do meio de todo aquele pus e daquela ferida, que agora era enorme, surgia algo bonito.

Quer saber o que era aquele pedaço tão singelo de vermelho? Eu tive que esperar mais de uma dezena de dias pra que ele se mostrasse inteiro. Você não vai acreditar, eu mesmo não acreditaria se uma outra pessoa me dissesse. Apesar de, hoje, isto me parecer tão normal quanto uma espinha, naquele tempo eu custei muito a acreditar. Cheguei a pensar que estava enlouquecendo, ou que o pó já me dava alucinações. É difícil pra qualquer um ver brotar na sua barriga (violento, vermelho, macio, ereto) um botão de rosa. Isto mesmo, você sabe... sempre gostei de rosas vermelhas!
Só que a coisa não ficou num botão apenas. Dia após dia, sugavam-me as forças, os galhos, os espinhos, as flores de toda uma roseira. Meus olhos, eu via no espelho, não tinham mais cor alguma. Cada espinho, da roseira que crescia, que passava pela minha barriga, fazia-me sentir dor como a de um dente arrancado sem anestesia. Mas a roseira era linda, a mais linda que eu já havia visto. Era bom acordar pela manhã e vê-la lá, tão imponente na minha barriga. Difíceis eram as coisas simples, como conseguir comida, ir ao banheiro ou levantar da cama. Eu já tinha perdido trinta quilos. Era bonita, a roseira, mas estava me sugando a vida, e eu sou feio, egoísta e mal. Dar cabo da roseira era preciso, antes que ela desse cabo de mim.
Preparei minha navalha de cabo de marfim, um pano branco e o álcool indispensável. Manhã de outubro. Abri a navalha. Manhã de outubro. Bebi e fechei os olhos. Manhã de outubro. Segurei o pezinho da roseira com uma das mãos e com a outra passei-lhe a lâmina... O sangue jorrou e, por Deus, não existe dor maior no mundo... Apertei o pano forte contra a ferida e tentei me levantar, mas minhas vistas se escureceram e eu achei que tinha morrido.
Entretanto acordei e me sentia forte. Continuar a viver era necessário e até que era bom poder viver, e caminhar pelas ruas, e ser livre. Mas minha liberdade, eu ainda não sabia, duraria pouco, pois a chaga da barriga mal cicatrizara e já me brotava outra roseira no braço direito. Novamente repeti o processo da navalha, do marfim, manhã de novembro. Mas aí começou a nascer o vermelho na minha perna. Da perna espalhou-se para a virilha e por mais que eu repita, até hoje, o processo da navalha, das toalhas brancas, sei que não vai adiantar.
Amanhã é natal. Cinco anos que eu não te vejo.Tenho aqui comigo um revólver. Quando terminar de ler esta carta, procure no jardim da sua casa a rosa que está num vaso de cerâmica branca. O corpo estará um pouco mais distante, na praça em frente à catedral.
Feliz natal! Se eu pudesse começar de novo, mudaria tudo.