sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

LITERATURAS EM REDE

 A NOVA CAMPANHA DO BULE: LITERATURAS EM REDE

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A Arte... A Inspiração... O Fora...

A Arte... A Inspiração... O Fora...

A literatura vive no salto, no imprevisível. Quanto mais tentamos fazer literatura, mais nos distanciamos dela. Vizinha do Desespero, de Eros e Tánatos, (que vizinhança hein!) ela irrompe como um desmoronamento, levando do morro a terra, as moradas, os rizomas, o lixo e as fezes. Ao mesmo tempo que passa pelo poeta e é dele, se perde dele, porque vem de um outro lugar, um outro lugar que pertence a todos os homens e mulheres (inconsciente coletivo, arquétipo primevo, mundo dos espíritos, angústia?). O objetivo do poeta, não importa se escreve prosa ou poesia, é transformar-se em palavras, transformar-se tão profundamente que mesmo o que não é só dele, mas de todo homem: o abismo, o enigma, também transborde do texto. O que o autor não sabe em si, é o que o outro ser humano também não sabe. Heidegger diz que os filósofos (e por que não os escritores?) dizem o mesmo, entretanto não dizem o igual. É dizer que desde que se toque o enigma, ou que o enigma toque aquele que escreve, o mais é irrelevante. O toque será diferente, porque os homens são diferentes e vivem em tempos diferentes, mas o Lugar será o mesmo: o espaço literário de que fala Blanchot. Segundo Pedro Nava, nem todo grande escritor é um BOM escritor. Acho que está para além das questões de forma e conteúdo. Dostoievski era acusado de repetir palavras em excesso, em Balzac censuravam o estilo sinuoso e, mesmo no aristocrático Henry James, apontavam o uso desmedido de advérbios. O texto é só a ponta do iceberg, nove terços estão submersos: correntes de desejo, fezes, orgasmos, ódios e amores irrompem na escrita, estão lá, ainda que não estejam no texto. Por isto acredito, com Artaud, que a literatura é uma possibilidade de existência, não uma coisa entre coisas, mas a Coisa, o corpo sem órgãos. Não se trata de pintar o cabelo de roxo para chocar os adultos, às vezes, uma existência terrena simples abriga uma vida interior desmedida, porque o planeta do artista é o planeta da Arte. O mundo historicamente instituído é onde ele está,  ele, contudo, vive num outro tempo, o tempo de Adão. A vida como obra de Arte é isto, é tornar a travessia, entre nonada e ∞, uma travessia espiritual. Poiesis brota de dentro pra fora e não o contrário, como querem os fincados no material. – Veja! Diz o poeta apontando o éden, mas o crítico formalista analisa rigorosamente o dedo e reclama da cutícula no indicador, e Blake, em consonância, diz: Vejam através da janela e não com a janela. O texto é a janela que aponta sempre para o aberto, porque o Todo, Deus se preferirem, é um círculo aberto, a imagem da circunferência, cujo centro está em todos os pontos e em nenhum, de Pascal. A palavra é a casa do Ser, afirma Heidegger, e Lautreámont sussura que o coiote uivando para a Lua é sua ânsia de infinito. É poiesis, sem palavra, só que no homem é a linguagem que o une ao sagrado e restitui-lhe à humanidade. Porque o Fado (Dasein se preferirem) do homem é muito mais próximo dos deuses que dos macacos, mesmo que o corpo, onde o homem mora, seja o de um macaco desenvolvido. Deus é mais Deus quando habita um livro sagrado. No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Esta é a dimensão da Literatura, não um apanhado de técnicas, não um conjunto de truques, não é o que se diz, nem o como se diz, mas o mistério do Dizer. A técnica é uma possibilidade do coração, do Dizer, mas a técnica sem o coração é uma velha tagarela: fala demais por não ter nada a dizer, como já sabia Renato Russo.
Escrevo para me tornar invisível, / Para perder a chave do abismo. Os versos de Murilo Mendes descrevem bem a ânsia do inspirado, porque o inspirado funciona como a agulha quando toca uma veia, ou a broca quando encontra o lençol freático. Depois que o líquido jorra, a agulha ou a broca são irrelevantes. Depois que encontra o espaço literário, o escritor se torna invisível, se perde, não é mais o dono de si, o próprio abismo toma forma de homem. O inspirado é aquele por onde o obscuro, ainda que misturado à sua gagueira ou à sua cor, jorra com mais veemência o enigma. O inspirado vomita Arte, é van Gogh possuído pela pintura nos últimos anos, é Cézanne monomaníaco, é Sade escrevendo como podia na cadeia, é Robert Walser martelando os microgramas no hospício. Alguns se assustam quando começam a desaparecer e então tentam manter diários enquanto escrevem livros que passam por eles. É o caso de Kafka quando percebe que vai se desmaterializar, ou de Kerouac quando percorre suas estradas.
Recentemente li no facebook do Ivan Marques uma afirmação de Philip Roth: Amadores procuram por inspiração, a maioria de nós senta e escreve. Seria mais verdadeiro se ele tivesse dito: a maioria de nós senta e trabalha, porque os fincados no material, seja de esquerda ou de direita, querem porque querem transformar a Arte num trabalho. Parece que a Arte, a escrita no nosso caso, para ter alguma dignidade, tem de ser um trabalho. Existe quem vive de Literatura e quem vive para a Literatura. Eu? Fecho com Cioran: Se tivesse de abdicar do meu diletantismo, especializar-me-ia no uivo, ou com Orides Fontela: Se poesia fosse trabalho não escreveria porque não gosto de trabalhar. A imagem do vagabundo é o maior dos estigmas, mas trabalho não garante qualidade, pois a Arte não oferece garantias. São Paulo está cheia de gente que escreve das oito às oito sem direito a férias, horas extras, ou décimo terceiro. Trabalhando em condições assim, é de espantar que o sindicato dos escritores não tenha decretado ainda uma greve geral. E quantos livros verdadeiros foram publicados no último decênio? O trabalho existe porque a escrita é o continente da incerteza. O escritor tem uma visão intuitiva e, no primeiro ímpeto traz o bloco-poema, depois, tendo apenas a si por paradigma, procura deixar o texto mais próximo do próprio texto. Tudo oscila, os móveis da casa tremem, feito um cego num quarto lavado de Sol, o artista vai tateando, e teima, e sofre e sua e depois de dias, meses, anos de luta, desiste. Nunca estará satisfeito, porque a palavra não diz tudo, é uma fôrma muito pequena para um bolo grande demais. A ideia do poema que Diga o atormenta e quase que o impele à mudez, mas ele continuará a dizer, a gaguejar, sob pena de explodir se não disser, porque a linguagem vem do ser, passa pelo poeta e quer voltar para o ser. É um círculo. A inspiração, o momento da criação não passa de uma clareira, um instante no qual o ser se deixa vislumbrar em meio aos entes. Um corpo de carne e osso não suporta em si tais forças. É preciso deixá-las voar, é preciso abrir a boca e gaguejar nossa impotência.
Para Blanchot, toda obra é obra do acaso. E o acaso... O acaso é a vida. A obra é produto de uma biografia, ou a obra exige uma biografia? Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Acredito que toda obra existe em estado de possibilidade, espera apenas uma biografia que a encontre. O caos contém o que é e o que poderia ser em estado de não-forma, mas exige um homem, ou mulher que o traga ao mundo dos seres humanos. Alguém que transforme o númeno em fenômeno. Por habitar o mundo do númeno, da coisa em si, por viver na dobra do ser, o poeta dificilmente consegue habitar com tranquilidade o mundo historicamente instituído. Ele está sempre ausente, sempre excluído, sempre fora, de um Fora ainda mais distante que o mais distante dos foras. Não se trata de homossexualismo, alcoolismo, cor da pele, ou drogadição. Aqui não existem campanhas de inclusão. O poeta, o inspirado, é aquele que sente em todo o seu ser, desde menino, o peso insuportável de não poder participar, de ser sempre excluído. É o menino do estar não estando, do ser não sendo. É o menino do olhar que suporta o não-pertencimento, do olhar que não pode habitar o mundo, porque ele, o menino-já-poeta, nem sequer chegou a construir uma casa no corpo e é preciso um corpo para pisar o mundo. N’O processo, do Kafka, há uma cena em que um homem pára diante de uma porta, guardada por um polical, e fica ali esperando a vida toda para poder entrar. Quando por fim decide perguntar se pode ou não passar para o outro lado, o policial o olha fixamente e responde:
- Até o momento esta porta esteve sempre aberta, esperando só por você, mas você não se decidiu a entrar. Agora vou fechá-la e ela ficará fechada por todo o sempre.
Quem desejaria um destino destes?


quarta-feira, 2 de novembro de 2011

A SOLIDÃO DO CARRASCO

                                                                                          Para Leandro Mendes, que conhece a ferida.

De todas as religiões, o cristianismo é a mais negra.
Era menino, vida inteira na mão, mas meus olhos eram velhos. Tinham mais de sessenta anos, meus olhos. Mãe era religiosa, pai também. Vô e vó ainda mais. Vô era pastor da Igreja Assembléia de Deus e mantinha seu rebanho sob rígida disciplina. Pai ia ser pastor também e o que me esperava não era diferente. Não sabia o que tinha de errado comigo, mas sabia que não ia dar certo. Eu tinha um corpo e morava nele. Para o vô, corpo era diabo e diabo era corpo. Pai era fraco e aceitava. Eu não respondia, mas também não aceitava, toda vez que ia falar com o vô, tampava o umbigo com a mão esquerda para a palavra não entrar.
            - Escute menino, não houve um só homem que se entregou aos prazeres do mundo e praticou a caridade. É preciso ser casto pra amar os outros. Cristo deu o exemplo.
            Culto era quase todo dia. De tarde e de noite. Os homens, colarinhos abotoados até o pescoço. As mulheres, coques na nuca, pernas peludas e saiotes até as canelas. Todo mundo: cara triste. Nenhum artista (hoje sou escultor) é tão atormentado quanto um cristão autêntico. Gente assim é palco da navalha, estão rasgados ao meio. Sonham o céu, mas estão presos às tripas e às fezes. Ir ao banheiro, para quem ama o Cristo crucificado, é um pecado e uma humilhação. O Gótico é o mais profundo dos estilos.
            Mãe tinha asma e vivia trancada dentro daqueles templos fechados. Mesmo que não tivesse, seria difícil respirar ali. Era magrinha, mãe, canela fina, mas fazia cafuné em qualquer menino, nem precisava ser parente. O chão da nossa terra era seco, mas mãe tinha os olhos sempre molhados. Não eram lágrimas, porque não escorriam pelo rosto. Eram lagos soltos que não saiam por vontade própria. “A vontade da água sempre se impõe” Mãe dizia pelo olhar, ainda que olho não fale. Tinha uma amiga, mãe, uma única e melhor amiga. É dela que me lembro agora. O nome era Emanuela, não Emanuela não, nada a ver, o nome era Emília. Isso mesmo. Emília era morena, alta, riso fácil, viúva. Era o contrário de mãe, mas juntas elas formavam uma esfera. Isto aprendi depois que estudei as matemáticas. Lavavam roupas juntas. Faziam bolo de fubá e cuscuz para as festas da igreja. Quando terminavam o serviço de casa, uma sempre procurava a outra pra tomar café e falar da vida e da infância. Emília tinha um filho e viviam só ela e o filho, isso quando ele não estava na capital. Servia o exército. Era tudo. Na sala da casa dela, tinha uma foto enorme do filho vestindo a farda. Quando o rapaz vinha visitá-la, Emília corria pela vila alegre, pulava no menino e o cobria de beijo, assim que ele atravessava o umbral. Beijava a testa, o pescoço, a bochecha, o nariz, as orelhas. No culto, meu avô repreendia, aquilo não era postura de gente séria, mas Emília não ligava e sorria seu sorriso de dentes brancos. Vô corava, mas retrocedia, não falava mais, a austeridade tem medo do riso franco.

***

            Estava dedilhando a rabeca (tentava aprender) escondido atrás de uma árvore, perto do umbral de entrada da vila, quando vi Emília correndo doida, descabelada, chorando e gritando. A mãe vinha atrás, pequena, mofina, tentando alcançar, mas se distanciando. Emília desapareceu na estrada. Atrás ficou uma nuvem de poeira como se um carro grande tivesse passado.  Mãe parou. Escondi a rabeca e fui até lá.
            - Que foi mãe?
            Não conseguia respirar direito. Agachou no meio da estrada. Agachei também pra ajudar e foi aí que eu vi o que nunca tinha visto. A água dos olhos de mãe começou a escorrer, mãe não chorava, mas nessa hora chorou e a poeira da estrada se juntou às lágrimas. Tinha um som de sanfona que vinha do outro vilarejo, mas eu reparei foi que minha mãe chorava era lama. Uma lama grossa, marrom. A lama sempre diz o marrom e o marrom é a mais gomosa das criaturas.
            - Que foi mãe? – Repeti.
            Tomou fôlego outra vez.
            Esperei.
            - Marcelo, o filho de Emília.
            - O que tem mãe?
            - Morreu. Chegou telegrama pra ela ainda agora. Parece que a arma disparou sozinha.
            Abracei minha mãe e fui levando ela de volta pra vila, devagar. Continuou chorando e chorava mesmo lama. Eu queria protegê-la, queria cuidar dela, porque, se Emília tinha perdido o filho, que Deus impediria que eu perdesse minha mãe? Antes de chegar à casa, estancou:
            - Me promete uma coisa filho?
            - Prometo mãe.
            - Quando você crescer, quando virar homem, saía daqui, não olhe pra trás. Vá ver o mar. Vá espiar a vida. Aqui nada cresce. Na geração de vocês, vai ser tudo deserto. Anda... Promete?
            Engasguei.
            - Promete logo pra sua mãe, porra!
            Assustei com o palavrão. Acho que arregalei os olhos. A mãe apertou meu braço com força.
            - Prometo, mãe. Eu prometo. Prometo.

***

            Emília não ia mais à Igreja. Também não trabalhava mais. Passava os dias trancada em casa, as janela fechadas. Não sei como ela conseguia naquele calorão imenso. A mãe tinha feito um bolo de fubá e me chamou.
            - Vamo comigo, Dan, lá na casa de Emília.
            Peguei as sandálias embaixo da cama e acompanhei. Batemos na porta. Ninguém abriu. Entramos. A casa estava limpa, limpa, mas parecia não haver gente. Atravessamos a sala. O retrato de Marcelo não ficava mais na parede. Fomos para a cozinha. Deixamos o bolo sobre a mesa. Mãe gritou Emília. Sem resposta. Abriu a porta do quarto dela: vazio. Se Emília não saía mais de casa, onde teria se enfiado? Só faltava um quarto para olhar. O quarto de Marcelo. A mãe olhou pra mim, senti um calafrio pior do que se tivesse com febre, nunca mais, em toda a minha vida e olha que hoje tenho setenta e quatro anos, senti algo parecido com aquilo. Acho que a mãe também sentiu a coisa ruim, porque sussurrou:
            - Senhor tende piedade de nós!
            - Vambora daqui mãe.
            - Não. É necessário.
            A coragem de mãe pôs a mão na maçaneta, olhou pra mim, respirou fundo e aí abriu.
            Estava lá, Emília, deitada sobre a cama desarrumada. Abraçada ao quadro do filho, no meio do quarto imundo. Havia mofo em todas as paredes. Num lugar seco como aquele de onde saíra a umidade? Dezenas de aranhas imensas teciam teias que, à luz da porta aberta, julguei serem vermelhas. Num canto, perto de um prato com restos de comida, uma ratazana fizera ninho. Emília sentou-se na cama. Bem debaixo do quadro com um cavalo preto sem olhos. Tinha pintado ao redor das vistas de preto, mas as lágrimas fizeram a tinta escorrer por todo o rosto. O quarto fedia. A mãe chegou perto, tentou abraça-la, mas Emília estava molhada de xixi e toda cagada também. Mãe recuou, mas depois pegou Emília no estado em que se encontrava mesmo e a levou para o banheiro. Mãe era forte. Lembrei do sermão na mesma hora: “Quando penso que estou fraco, estou forte. Quando penso que estou forte, ali mesmo é que estou fraco”.
            - Pega toalha pra mim, Dan, gritou do banheiro.
            Procurei a toalha de banho, mas não encontrei. Peguei a toalha de mesa mesmo e levei. O bolo caiu no chão. Abri a porta do banheiro e foi então que vi a gruta pela primeira vez. O aglomerado de pelos inspirava o terror. Corri para a cozinha de novo e esperei. A realidade, por vezes, tem pinceladas de pesadelo.
            - Vá embora, Dan. – A mãe gritou do quarto.
            Era só o que eu queria. Abri a porta e saí correndo.

***

            Passou tempo. Era o culto de domingo. O mais cheio de todos. Emília tinha mudado de cidade. Os outros diziam que foi minha mãe quem deu conselho a ela. Eu cantava no coral e o coral era afinado. Jesus alegria dos homens. Não fosse Bach, hoje eu sei, Deus seria só mais um solitário. Bach, tão bonito. Ele ouvia os anjos. Acho que meu vô não gostava muito de Bach, não mesmo, porque interrompeu o hino no meio e começou a falar com suas palavras mais duras que estacas:
            - Se teu olho te faz pecar, arranca-o, porque é melhor perder um olho que perder o reino dos céus... Se teu...
            O avô estancou. Calou. Segurou firme para não cair do púlpito. Embranqueceu. Olhava fixo para a porta no fundo da igreja. Ato continuo, toda a igreja acompanhou seu olhar. Ninguém pode acreditar. Houve silêncio. Talvez o maior silêncio do mundo.
            Era Emília.
            Entrou andando devagar. Gorda, morena, os cabelos longos soltos, vestindo só uma saia vermelha, sem qualquer peça de roupa na parte de cima. Os seios enormes de fora. Atravessou toda a assembléia e parou diante de meu avô. Abriu os braços, balançou o corpo e explodiu numa gargalhada de terror.
            Meu avô abriu a boca para falar, mas as palavras se recusaram a sair. Estavam envergonhadas. Emília se sentou num cantinho vago na primeira fila e ficou séria como se esperasse o final do sermão. Sobre o seio esquerdo, bem em cima do coração, carregava desenhado numa tatuagem vermelha o rosto do filho morto.
            Lá fora o vento sacudia a poeira e sussurrava palavras indecifráveis. Não eram permitidos poetas nos limites da cidade.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

O ENORME PESO DO NADA

O objetivo do presente texto... Não, assim, não. Formal demais. Não é minha cara... “A verdade, meu amor, mora num poço, é Pilatos lá na Bíblia quem...” Também não. Ainda não é o que eu queria. Todo texto é uma escavação... Uma busca... Um parto... Há escritores que acreditam que o leitor não deve ter contato com esse processo. Ao leitor, segundo tais autores, deve ser ofertado o magma e só. Acho válido, mas não consigo trabalhar assim. Quero tirar o leitor pra dançar e dizer sinceramente ao pé do ouvido que estou tão perdido quanto ele... Daí meu gosto por reticências. Estou escavando também, não tenho certeza do que quer que seja. Incomoda-me muito o fato de meio mundo hoje escrever como se conhecesse cada detalhe do cosmos a que deseja dar a luz. Eu sou míope, enxergo muito pouco do outro lado. Há uma neblina densa que envolve o ambiente. O que vejo pode ser e pode não ser. Daí, como já disse, meu gosto por reticências... Nunca sei se estou acertando.
            Mas não é sobre as reticências que quero tratar. Não aqui. O objetivo do presente texto, como diz o excerto do Noel Rosa aí em cima, é a verdade. Somente a verdade, nada além da verdade.
            Comprei, ainda ontem, um livro sobre tarô surrealista. Sou ligado ao ocultismo, mesmo que me considere um cético. Na verdade, (que verdade?) nunca conheci cético que não fosse crente. Crente na ciência... Na Arte... Num destino grandioso para a humanidade... Numa ética laica. Ninguém consegue suportar sem subterfúgios “o enorme peso do nada”, como diria Joseph de Maistre.
            Esqueçam Berkeley, se levarmos em consideração as melhores ferramentas que temos, a razão e os sentidos, todas as evidências, desde o nosso lugar no Universo, até tudo o que tocamos, vemos e ouvimos, nos levam a crer que nossa existência aqui na Terra é fruto de uma miríade de acasos e coincidências e que a vida não tem fim Sublime algum. No final, nossas cinzas estarão espalhadas pelo chão de qualquer boteco, feito as cinzas de Murphy no final cômico e triste do livro de Samuel Beckett. Sem fantasias, o nada é a verdade. E agora? Como lidar com isso?E agora que tanto faz escrever como não escrever diante da noite imensa do tempo? Mesmo os vencedores perderam. Um dia a língua em que escrevemos não existirá. Um dia o planeta no qual nos preocupamos com as contas a pagar e com amor vai se dissolver no espaço, ainda menor que o grão de areia que respiramos sem perceber e que nos faz espirrar e praguejar logo em seguida. “A vida está cheia de som de fúria rumo ao nada”. Diz Macbeth, num momento de rara clarividência, logo depois da morte de Lady Macbeth. O nome de Deus não é Javé ou Alá, o nome de Deus é Tanto Faz.
            Sinto cheiro de carniça. A verdade, meu amigo, é uma carranca malcheirosa. De certa maneira, todos somos o boi esfolado de Chaïm Soutine. Você consegue sentir o cheiro podre das cores e o zumbizar das moscas?
            É por essas e outras que eu quero que a verdade se foda. A escrita é a coisa mais importante pra mim. Então, que mintam pra mim e me digam que eu escrevo como um Deus. Mintam-se todos uns aos outros. A crítica, como tudo o mais, é um lance de dados, não tem nada a ver com mentira ou verdade. Se a moça é estrábica, de canelas finas e barriguda, mintam pra ela e digam que ela é a cara da Audrey Hepburn em Tiffany´s Breakfast. Se tiverem estômago, dêem-lhe também um beijo na boca, não precisa pôr a língua nem nada, só um selinho que é pra ela acreditar de fato. Todo ser humano merece um selinho de vez em quando.
            Nietzsche, que acertou em tudo, disse que “temos a Arte para não perecermos em consequência da verdade.” Eu diria que não só a Arte, mas a ciência, a religião, o amor, a amizade, tudo isto existe para não perecermos em consequência da verdade. Os homens construíram a humanidade e o progresso para fugir da verdade. O Vácuo uiva no fundo da Caverna. Acho que foi Nietzsche também, sempre ele, quem cravou: “Se conhecêssemos a Verdade, ela nos aniquilaria”. Ou é isso, ou é qualquer coisa assim.
            Não fui dotado dos genes da Felicidade. Desde menino, a sombra negra sempre me acompanhou, silenciosa e sorrateira, junto à respiração, como o olhar de um urubu. Eu podia estar jogando bola, eu podia estar jogando bem. De repente, sem mais nem menos, vinha o vazio e a certeza de que alguma coisa terrível aconteceria, mais cedo ou mais tarde. Deus era um alívio nessa hora. Nietzsche nunca perdoou a razão por ter destruído sua fé. Eu também não. Ainda rezo às vezes, mas não é mais a mesma coisa, não existe conforto. Tomo um comprimido. Bebo um copo com água. Peço à minha mulher pra repetir que tudo vai ficar bem. Nada alivia. É preciso aprender a conviver com a verdade e suportar sua visão desoladora e seu cheiro de ruína.
            Em verdade, em verdade vos digo que estamos mesmo é num mato sem cachorro e que chove “uma triste chuva de resignação”. Do outro lado da estrada, a morte vem a galope como uma puta com as tetas de fora.

Imagem: Beef carcass paintings, de Chaïm Soutine

sexta-feira, 15 de abril de 2011

IV ENCONTRO PRÁTICA DE ESCRITA



O Encontro Prática de Escrita acontece informalmente desde 2001, mas há quatro anos o evento ganhou periodicidade e formato e vem se tornando parte da agenda de quem gosta de literatura. O principal objetivo do encontro é reunir pessoas que não só apreciam a literatura, mas também tudo que circunda a prática de escrita literária. A programação é dividida em dois tempos, o primeiro gira em torno das mesas com palestrantes, que discorrem sobre assuntos que permeiam o universo da literatura; o segundo tempo é das oficinas de criação literária. Pelo evento já passaram nomes como: Milton Hatoum, Marcelino Freire, Raphael Draccon, Kizzy Ysatis, Roberto de Souza Causo, Sérgio Pereira Couto, entre outros.O evento deste ano tem como convidados: o escritor, jornalista e apresentador do programa Metrópolis, da TV Cultura, Cadão Volpato; a jornalista, escritora e apresentadora do programa Letras & Leitura, na Rádio Eldorado, Mona Dorf; e o escritor e jornalista, apresentador do programa Perfil Literário, na Rádio Unesp,Oscar D’ambrósio. Cadão falará sobre sua prática literária; Mona Dorf e Oscar tratarão do universo literário, compartilhando suas experiências em centenas de entrevistas com escritores.O encontro deste ano acontece no dia 7 de maio, sábado, das 10h às 16h30, na Universidade Cruzeiro do Sul, campus Liberdade e é organizado pela Terracota editora como parte da programação do curso de lato sensuem Criação Literária. A inscrição deve ser feita aqui:http://terracotaeditora.com.br/pcl/?p=545
O limite de vagas é 120 para as mesas e 15 por oficina.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Trem de doido



A vida é um osso duro de roer. Desenterro os dias. Rizomas mortos. Enfio os dentes e perfuro até chegar ao tutano. Tenro. As moscas brancas cercam minha cara e incomodam. Olhos de boi. Estou há três dias soltando as tripas. Mais um dia de merda. As varejeiras continuam me fodendo a vida, rondando meu rabo. Oroboro o caralho. Nunca fui dado ao misticismo. Mandalas nunca me acalmaram. Gatos de Alice sarcásticos na janela. O suicídio é pra poucos.
Não consigo parar de pensar naquela cadela, a vaca só queria mesmo ser comida, depois sumiu, foi dar pra outro. E eu uivando feito tonto. Pau a pique. O amor é mesmo uma construção burguesa. Fico horas olhando as roupas secando no varal. Toda intimidade exposta a céu aberto. Pardais ciscam no quintal, sempre em cima do muro. É difícil assumir uma posição.
Se não bastassem os três dias de diarréia, ontem fui atravessar a rua e um idiota de um moleque me atropelou. Lembrei do Rogério e sua crônica sobre um animal de pelo curto e amarelo. Gosto de imaginar o amarelo sangrento no asfalto, feito um piche inventado. Baleia zonza debaixo do sol. Agora a minha perna está em carne viva, posso escutar o sorriso desses malditos mosquitos. Larvas me devoram e eu ainda não morri. Como pode um animal se conformar em viver sob a pele de outro? Parasitas me causam nojo.
Sinto tanta dor que o suor e a saliva escorrem abundantes pela minha língua. Acordo e o meu corpo está todo dolorido e não para de coçar, parece que carrapatos perfuraram a pele e fizeram ninho na ferida exposta.
Era só o que me faltava mesmo. Vejo duas mãos enormes. Luvas brancas. Já até imagino o que me espera. É o Rogério. Ele aperta com força. Duas, três, quatro vezes. Uma berne salta e se esparrama elegante no chão. Tento agarrá-la. A coceira para. Mas preciso ficar deitado até essa perna sarar, ele alerta enquanto afaga entre minhas orelhas. Eu não posso mais perseguir o centro de mim. E afinal, o que mais pode um cão fazer além de correr atrás do próprio rabo? Hidrofobia. Mordo a canela do meu dono.

um texto de Marcia Barbieri: http://www.avidanaovaleumconto.blogspot.com/