sábado, 24 de junho de 2017

E QUANDO VIREI GÓTICO?

Meu, que tristeza! Eu nunca fui do tipo que você pergunta: “E aí, como você tá?”. E o cara responde: “Só alegria!” Mas também nunca morei em Manchester. Tudo começou com a leitura d’O morro dos ventos uivantes, depois foi o som do Joy Division. Como Ian Curtis, eu queria morrer aos vinte e três anos. Quando você tem quinze, vinte e três parece tempo para o caraleo. Sonhava com o meu velório tocando Love will tear us apart... As meninas chorando... Os amigos desconsolados... Todos com aquele sentimento tipo: um menino tão bom! Um cara tão legal! Um gênio entre nós e não demos valor, íamos todos à palestra do Mia Couto😪! Tem de morrer pra germinar. Só pode.
Nessa época, eu já tomava conta da Casa do Norte que abri com meu velho. E não tinha mais Luiz Gonzaga pra ninguém. Quer comer seu jabá, tomar seu caldo de mocotó, pode tomar, mas vai ser ouvindo The cure e gemendo na beira do abismo! Nordestino não tem motivo pra andar alegre. Vocês não sabem da seca, da corrupção, porra? Os clientes ficavam indignados. O movimento diminuiu. O pai brigou e aí eu fiquei ainda mais triste. Pô vida cruel, meu coroa não me entende! Troquei o The cure pelo Sisters of Mercy. Durante a noite, eu ia gemer e beber vinho com meus amigos no Cemitério da Saudade. De vez em quando, esquecia que era triste e contava uma piada. O povo ria um pouco; mas, depois, todos lembrávamos que éramos tristes e voltávamos à gemedeira: estão destruindo o planeta! Ninguém me entende! Estou na fase do exército e não consigo arranjar emprego! Fernando Henrique filho da puta! Fala aí tínhamos ou não motivo para ser tristes? Um dia, cheguei de madrugada e a mãe estava me esperando com o terço na mão:
- Dan, vamos ter uma conversa séria.
- Pô mãe, conversa séria a essas horas?
- Pois é, senta aí, agora! – o papo era sério mesmo; dessa vez, eu teria motivo pra chorar.
- Que foi?
- Dona Creusomar, mãe da Rubicreusa, disse que viu tu cheirando droga com um monte de vagabundo no cemitério da saudade😲!
- Pô, mãe, Dona Creusomar é a maior fofoqueira, todo mundo sabe!
- É, mas quando ela disse que a Jucileilde tava grávida, sete meses depois o nenê tava chorando. A partir de amanhã, não quero mais tu andando com esses vagabundo. E pode parar com esse negócio de só vestir roupa preta. Um calor desgraçado, sol rachando a cabeça, 40 graus. e tu aí, só de preto. Dá até agonia...
- Pô, mãe, a vida não faz sentido!
Ela levantou a varinha feita de um galho do pé de manga...
- E essa varinha faz?
Fazia. Sim, sim, craro! Dia seguinte, coloquei uma camiseta vermelha e fui ser rebelde ouvindo Roberto Carlos na Casa do Norte. Os fregueses ficaram contentes. O pai também. Tudo voltava ao normal...

sexta-feira, 23 de junho de 2017

PROCRASTINAÇÃO, CAOS E (É) PROGRESSO

Já não esquento a cabeça com o Brasil, até porque sou brasileiro. Nosso país é uma longa espera, uma demora, uma eterna procrastinação: igualzinho a mim. Primeiro seríamos a terceira opção: entre o imperialismo e o comunismo, seríamos a alegria e o samba. Depois seríamos o topo do mundo, ouvi dizer, em dez anos, superaríamos os E.U.A. Aí, depois, seríamos não sei o que lá... O Brasil nunca acontece, é sempre véspera. Quer saber? Ainda bem! Não nos imagino mandando no mundo, prefiro um feriado; melhor deixar isso pra depois de amanhã.
Primeiro eu amava Macunaíma. Depois eu odiava Macunaíma: tipo "que é isso, sou cidadão do mundo, gosto mais de Chuck Berry que de Luiz Gonzaga." Agora, amo Macunaíma outra vez. Disse o alemão Gottfried Benn: “quando olho pra mim só vejo a sociologia e o vazio”. Você consegue imaginar um Heidegger brasileiro? Alguém escrevendo Ser e tempo num quiosque em Xerém? E um Zeca Pagodinho alemão, na Floresta Negra? Caetano dizia que nosso gênero literário seria a canção: errou. Nosso gênero literário não é o ensaio, nem o poema, nem a canção: é a piada – amanhã explico melhor isso. Entre provar qualquer coisa e deixar a vida me levar, deixo a vida me levar. Dou risada. Toco o barco. Detesto toda forma de pragmatismo, de análise; toda coisa séria, burocrática, antiburlesca. Sou contra todo espírito de gravidade, assim como Nietzsche, que odiava os alemães, e que se encantou com a Itália porque não esteve no Brasil: já imaginaram um Nietzsche brasileiro? Seria triplamente nietzschiano. E Shakespeare, que, depois de uma visita a Salvador, escreveu: “O caos concebeu sua obra-prima.” Bartleby tinha sangue brazuca. Lao-Tsé e Chuang Tzu também. Melhor não perturbar a ordem do Cosmos: quanto menos interferirmos, melhor, sabe... E Bezerra da Silva me fala mais íntimo que Descartes. Se colocarmos os dois no liquidificador, beberemos a antropofagia. Como não temos caráter fixo, incorporamos, roubamos, comemos, bebemos o caráter de tudo o que pinta por aqui.
O que nossa intelligentsia tem de perceber é que não queremos ser a França, a Alemanha, os Estados Unidos e nem mesmo a Rússia - embora eu perceba um parentesco com essa última: a cachaça e a vodca são irmãs gêmeas, mas nós temos o sol que os russos não têm. - Quem é maior Marx ou Tom Jobim? Comparação estapafúrdia não é mesmo? Cada qual no seu quadrado. Os pensadores do Brasil precisam descobrir nosso quadrado, mas as melhores universidades fazem colóquios de uma semana para descobrir se o signo deleuziano é do âmbito virtual ou atual😲! O povo queremos coisas simples: a pança cheia, um pouco de sonho, um tanto de música, as crianças na escola aprendendo, uns médicos no hospital, pracinhas bonitinhas; só isso já basta. Não queremos disputa, não queremos comandar o mundo. Deixa a vida me levar, deveria ser o lema estampado na bandeira. Ordem e progresso é lema pra francês, americano, alemão...

terça-feira, 20 de junho de 2017

O CASO DO CABRITO

O áudio era Antônio Marcos, Roberto Carlos, Tião Carreiro e Pardinho, ou Gonzagão.
O bairro onde moro, no extremo leste de São Paulo, é um reduto nordestino em São Paulo. Temos até uma Av. Nordestina. Nos anos 90, pedi a conta da padaria no Bom Retiro onde trabalhava e, com a ajuda do meu pai que continuou trabalhando numa metalúrgica, abri uma Casa do Norte. O problema é que sempre tive mais dom para a farra que para negócios, mas isso não vem ao caso aqui.
Foi num domingo de tarde, depois do jogo, que combinamos de fazer um cabrito na quarta-feira à noite, também dia de jogo. Sempre fazíamos um galo. Mas alguém deu a ideia, os outros acataram, e ninguém aguentava mais tanto galo. Fizemos uma vaquinha e ficou combinado que, no dia seguinte, Mula-manca – aposentado - e eu compraríamos um cabrito ainda vivo para matar e preparar na quarta. Aí, era só descer cachaça e brahma gelada.
E na segunda-feira de manhã, lá fomos nós. O sítio não era muito perto e andávamos devagar porque Seo Mula-manca sofria de gota e não conseguia acelerar o passo. Compramos um cabrito exemplar. Amarramos o bicho com um pedaço de cordão de varal e nos preparamos para a jornada de volta. É árduo o caminho do autoconhecimento, irmãos e irmãs.
Como a viagem era longa e cada um de nós tinha uma pedra de sal na garganta, paramos para tomar uma gelada logo que saímos do sítio, com um quebra-gelo para acompanhar. Andamos mais um pouco e paramos em outro boteco, repetimos a dose. Mais um quilômetro e outro boteco. Aqui o que mais tem é igreja, boca e bar. Jogamos um pouco de dominó valendo cerveja. O cabrito amarrado no poste lá fora. Como éramos parceiros de longa data, ganhamos vários raios. Saímos de novo, mas tinha muitos bares mais antes de chegarmos até nosso destino.
Quando chegamos, meu pai já tinha aberto o estabelecimento. Passavam das cinco da tarde. A turma de sempre saboreava seus aperitivos.
- Ué, cadê o cabrito? – O Tonhão perguntou logo da porta.
O Mula-manca, com uma ponta da corda na mão, apontou para a outra ponta e foi então que vimos. Não era um cabrito, não era uma cabra, não era um porco, não era uma ovelha, não era o super-homem e nem a mulher-maravilha... Na outra ponta da corda estava um cachorro sarnento, banguela, mais feio que bater na mãe por causa de salsicha.
O jeito foi rir e cuidar do cão que morreu menos de um mês depois.

Na quarta-feira, comemos galo outra vez. 

segunda-feira, 19 de junho de 2017

QUEM SÃO ESSAS MULHERES NOS MEUS SONHOS?

QUEM SÃO ESSAS MULHERES NOS MEUS SONHOS? Quem são esses seres que me envolvem em orgias etéreas, ou acalantos maternais? Dizem os junguianos que são expressões da anima, a parte feminina da psique masculina. Certos pós-junguianos como, por exemplo, Roberto Gambini, Ginette Paris e James Hillman, ampliam o conceito e apontam que se, no fundo, toda psique é regida pelo inconsciente coletivo, então anima e animus seriam expressões do masculino e do feminino universais: o diagrama do taiji, como já sabiam uns chineses de muito, muito tempo atrás. Mas, por serem tão reais, duvido que sejam apenas imagens sem substância. Cada uma delas tem um caráter, uma silhueta que me aparece em detalhes, com espinhas, celulites, cabelos longos ou curtos, e tudo o mais... Todas têm um modo de falar próprio e, inclusive, um sotaque. Nunca saio de uma noite em que sonho com uma elas do mesmo modo que entrei. Essas mulheres em meus sonhos são seres que nunca encontrei na vida desperta. Há uma delas, a mais depravada de todas, que retorna mais frequentemente. Sempre vem acompanhada por outras mulheres. Sei pouco de sua vida. Seu assunto é o silêncio e o sexo; desenfreado, sem regras. Há outra, sempre vestida de azul claro, que tem sotaque português, mas fala um português muito, muito arcaico. Entendemo-nos, porque, nos sonhos, não precisamos de uma língua comum para nos entender. Ela é pálida, magra, parece meio adoecida. Sempre traz palavras de conforto e tem uma fé inabalável no Bem. Algumas delas, aparecem uma vez para nunca mais voltar, mas surgem com um riqueza de detalhes físicos, anímicos e psicológicos que não há como crer que sejam criações de uma mente adormecida. Seriam fantasmas? Seres de outro tempo e lugar? Expressões de desejos reprimidos? Se soubesse desenhar, faria retrato de cada uma delas, tamanha é a realidade com que me surgem. Como não desenho ou pinto, tento anotar tudo em detalhes num diário de sonhos

sábado, 17 de junho de 2017

, POIS OS ANIMAIS SABEM MORRER

A primeira gata que tivemos aqui em casa foi a Clarice. Ela tinha esse nome em homenagem à minha escritora predileta: Cecília Meireles. Clarice era uma gata siamesa, com os olhos azuis e os pelos do rosto mais negros que a asa da graúna. De todos os gatos que tivemos, ela era a mais geniosa, a mais orgulhosa: uma rainha. Não gostava de demonstrar carinho. E só aceitava receber carinho quando bem entendia. Certa vez, inventei de dar banho nela e quase fui parar no hospital para tomar pontos nos arranhões que, a bem da verdade, eram cortes e não arranhões.
A dureza de Clarice, entretanto, assim como a da escritora, era apenas superficial. No fundo, ela era pura ternura. Quando dormíamos, ela se deitava bem no meio da cama e ficava sem jeito quando acordávamos primeiro e a encontrávamos ali, feito uma menininha entre os pais. Saía miando brava, desconfiada, olhando para trás e pulava a janela.
                Clarice ficou conosco por pouco mais de um ano e então desapareceu. Foi terrível quando sumiu. O João, meu filho funkeiro, chorou. Saímos procurando a gata pelo bairro. Imprimimos fotos dela e colamos no açougue, na quitanda, na farmácia, na padaria... Eu, entretanto, tinha um segredo que não podia contar ao João: sabia que Clarice não voltaria mais, nunca mais.
                Eu não andava muito bom da cabeça naquela época, mas percebi, durante a tarde, que ela estava mais triste que o normal. Ela não era brincalhona, Clarice, era séria, mas não triste. Naquele dia, os olhos azuis dela estavam opacos, melancólicos. Quando a noite chegou, ela recusou a comida. A gente só percebe as coisas quando é tarde demais. Durante a madrugada, acordei. A coberta estava encharcada de vômito. Levantei e troquei; não dei, entretanto, a devida atenção. Clarice não estava, o que também não era nada anormal uma vez que os gatos têm hábitos noturnos.
                Dia seguinte, chacoalhei a vasilha de ração e ela não apareceu. Sempre vinha correndo, mas, naquele dia, não apareceu. E não voltou nunca mais. No mesmo dia, perguntei para o rapaz que recolhe material reciclável no bairro. Ele disse que tinha visto uma gata, com as características que eu tinha descrito, morta, embaixo de uma árvore, na outra esquina, duas quadras rua acima. Ela tinha partido para morrer longe das pessoas que amava. Não sei se a envenenaram, nem o que aconteceu, porque foi tudo muito rápido. Mas vi que era Clarice. Coloquei-a numa caixa de sapatos e a enterrei num terreno baldio, sob um pé de manga, enquanto o João estava na escola.

                Os animais não fazem escândalo para morrer. Não querem que aqueles que os amam sofram. Pensam no outro até na hora de partir... Encaram o fim com muito mais dignidade que nós, humanos, que estamos sempre batendo as pernas, gritando, fazendo barulho, Arte. Que é a literatura se não o trabalho de um sujeito que passa a vida toda brigando com a morte, dizendo sempre as últimas palavras?

quinta-feira, 15 de junho de 2017

SERÁ QUE AINDA PODEMOS FALAR DE PLÁGIO?


Já não sei se podemos falar de plágio. Talvez a única forma de plágio seria a cópia de um livro do princípio ao fim. De resto, tudo é apropriação, ou, como prefiro, roubo. Já não é possível inventar a roda, cuja idade soma mais de seis mil anos. Então tudo o que se faz, é feito de um topo de cultura; desviando, ou desenvolvendo elementos pré-existentes. Quando Duchamp expõe um mictório intitulado a Fonte, ele não precisa fabricar o mictório com as próprias mãos, basta desviá-lo, tirá-lo de seu campo semântico. Na filosofia, o mesmo se dá com um Deleuze, por exemplo, cujos conceitos mais famosos são extraídos – e retorcidos - das obras de outros filósofos, biólogos, matemáticos e escritores. O CsO já é em Artaud, mas Deleuze o desenvolve enquanto conceito. O próprio conceito de autoria, de sujeito, foi posto em xeque pelos estruturalistas e pelos franceses daquela turma de Deleuze, Blanchot, Guattari, Foucault, os quais, no entanto, jamais deixaram de assinar uma de suas obras e de receber os direitos autorais.
Então acredito no seguinte, se você insere algo que já existe num novo universo e isso - que pode ser um excerto, um sample musical, uma colagem – ganha novo horizonte de sentido, então não há plágio, mas arte.
Os filmes de Tarantino são colagens de cenas de milhares de filmes de ação obscuros anteriores que ele revigora e insere num outro contexto mais cult e sempre relacionado ao seu tema predileto: a vingança; que, a bem da verdade, também não é um tema novo: temos aí O conde de Montecristo, O morro dos ventos uivantes, etc... Então Tarantino é um plágio? Sim e não, acho que essa palavra não faz mais sentido, nem essa nossa gana de manter autoria em tempos de rede. Vejo gente se achando plagiada o tempo todo, principalmente nas redes sociais. O mais importante são as ideias e não o estrume de onde elas brotaram. Por outro lado, é certo que eu ficaria muito bravo se alguém estivesse ganhando muito dinheiro com um texto que eu tenha escrito. Tenho uma lei, nunca roubo dos pobres, só dos ricos. Então quem lê o que escrevo sabe que tem muita coisa lá, de Shakespeare a Murilo Rubião, mas esse monte de coisas, já não é nenhuma delas. É o que eu faço, meu retrato em palavras. Uma combinação de variáveis, roubos, leituras e experiências que só existe porque eu existo – eu acho.
Nos anos 1970, Neil Young lançou o melhor álbum de rock ao vivo de todos os tempos: Rust never sleeps – A ferrugem nunca dorme. Neil era um cara bruto - bem diferente de seu conterrâneo Leonard Cohen – e gostava de trabalhos manuais. Vivia, portanto, nas lojas de ferragens adquirindo material e ferramentas para os trabalhos em seu rancho. Foi lá que viu o anúncio de um produto para preservação do ferro: a ferrugem nunca dorme. Transposto para o universo dos anos 1970, quando muitos de seus amigos, inclusive o guitarrista da Crazy Horse, tinham morrido por conta das drogas, da tristeza, do sonho morto, como cantou Lennon, a frase ganhou uma conotação completamente nova. A ferrugem era a desesperança.

E então, meninas e meninos, será que ainda podemos falar de plágio?

segunda-feira, 12 de junho de 2017

A DOCE MORTE DE MILTINHO

Pense num cabra namorador! Agora multiplique por nove e some oitenta e três. Esse aí era Miltinho. Quando o conheci, há vinte e tantos anos, ele tinha pouco mais de sessenta e estava no quinto casamento, aceitando currículos para o sexto.  Onze filhos... Vai vendo.
              - Bicho, que vantagem tem um homem nesse mundo sem mulher? Nenhuma, a não ser poder mijar de porta aberta. Mas também a gente não tem de passar a vida toda com a mesma. Esfriou o café, é melhor fazer outro que requentar.
                Miltinho começou cedo a vida sexual. Com seis anos, no Nordeste, já traçava tudo que era bicho: de vaca a pardal. Com dez já frequentava a zona, onde mais tarde se apresentava tocando flauta, violão e berimbau.
                Era sujeito galanteador, Miltinho. Gostava de dar presente às moças.
- Vinha passando ali no Brás, quando vi essa tiara e me lembrei de você. Tome, Rosinha, é sua... Não há boniteza que não fique ainda mais bonita com um adorno de tão fina elegância.
De vez em quando, na maioria das vezes quando o dinheiro sumia, ele mesmo fazia o presente - era artista -, o qual podia ser uma pulseira, um poema, um pingente de prata, uma balada para violão... Não importava o tamanho da crise, tinha sempre alguma coisa em caixinha enfeitada para presentear uma Dona qualquer.
Usava calças xadrez, sandália de couro, cabelo grande; meio boiadeiro, meio hippie, outro tanto beatnik. Já disse que era artista! E como todo artista era sensível. Não entendia porque, com o tempo, as mulheres tomavam raiva dele.
- Olhe, Dani, veja você se sou um cabra ruim – não era –, ajudo quem posso e quem não posso, canto, bebo, brinco, não guardo mágoa de ninguém, mas tenho esse defeito de gostar demais de mulher. Quem nesse mundo é perfeito, némemo?  No final, elas sempre jogam as coisas na minha cabeça... Minhas roupas no quintal... Uma tristeza... Quando partem, não vão embora sem antes quebrar a casa inteira. Diz aí tem culpa eu?
Tinha não; mas eu, precavido mineiro que sou, sempre que ia visitá-lo, por via das dúvidas, deixava a mulher em casa. O caboclo tinha fala aveludada.

Ontem Miltinho morreu. Morreu Miltinho, coitado... Tão sem-vergonha, tão safado, tão moço, não tinha nem noventa anos. Morreu como queria, com um sorriso nos lábios. Em pleno dia dos namorados, foi flagrado por um marido indignado dentro do guarda-roupa da família. Levou cinco tiros. Já disse que não guardava mágoa. Quem o viu no caixão podia jurar que sorria. Viveu bastante e morreu fazendo o que gostava, o danado. Tinha mais de sorrir mesmo. Vá em paz, meu bom Miltinho boiadeiro, mas deixe pra trás o viagra e veja se respeita as santas no céu, visse?!