domingo, 26 de março de 2017

Why did you call me?


A melhor crítica que li sobre certos filmes pretensiosos e vazios foi feita por Alfred Hitchcock em entrevista a François Truffaut. Num momento tenso da conversa, no qual Truffaut pede insistentemente que Hitch defenda o seu O homem errado, o cineasta inglês se sai com esta pérola: “Mas, me diga, você quer me fazer trabalhar para os cinemas de arte?” Está aí um comentário que desfaz diversos imbróglios da crítica. Muitas vezes o crítico torce o nariz para uma obra porque ela não vai pelos caminhos que ele julga artísticos, sem levar em conta a intenção do artista e o fato de ele ter ou não conseguido atingir seus objetivos. Em outro momento do comentário sobre este mesmo filme, Hitchcock ressalta: “Mas você deve se lembrar de que O homem errado foi feito como um filme comercial”.
            Tudo isso me veio à mente depois de assistir a Moonlight: Sob a Luz do Luar. Trata-se de um filme comercial, linear, por vezes emotivo demais, mas sem dúvida um bom filme, melhor que muitos goddard´s. O filme conta a história de um menino negro, pobre, homossexual (?), desde a infância até a vida adulta. É um filme doloroso, que retrata bem o que é ser gay na periferia, país no qual o que impera não é a sensibilidade, mas a força física e a intimidação. O enredo é dividido em três partes. Na primeira, vemos Chiron, o protagonista, ainda menino, crescendo numa vizinhança pobre de Miami. Por ser tímido e sensível, Chiron é perseguido pelos demais meninos. A mãe do protagonista é viciada em crack, paradoxalmente é em Juan, o traficante da vizinhança, que Chiron encontra amparo. Algumas cenas chamam a atenção, as mais belas envolvem a relação do menino com o mar - que atravessa todo o enredo - e com a dança.

        Na segunda parte, encontramos Chiron já adolescente, magrelo, desengonçado, descolado do mundo que o cerca e da existência; sofrendo violências ainda mais severas. A mãe desce abaixo no abismo do vício. Há aqui ainda a descoberta do amor e da sexualidade, além de uma viragem do protagonista que, pela primeira vez, deixa de ser passivo e passa a revidar: já não oferece a outra face.
        A terceira parte começa com o close numa boca forrada de dentes de ouro; é a boca de Chiron adulto. Agora um homem alto e musculoso que dirige um carrão ouvindo rap. Sabemos que se tornou traficante e transformou o corpo numa armadura. Mas Chiron não consegue dormir durante a noite. É atormentado pela própria cegueira de seu desejo. O desejo não conhece moral, desrespeita as regras do tráfico. Uma noite, o amigo da adolescência, que foi o dono de seu único beijo, de seu declínio e de seu ponto de mutação, liga. O passado volta então ao presente. Na verdade, o passado sempre esteve lá. O passado não foi, o passado é. Se o passado tivesse ficado no passado, seríamos puros como Adão, como os bebês, não sofreríamos.
O filme levou três Oscar´s nas categorias: melhor filme, melhor roteiro e melhor ator coadjuvante:  Mahershala Ali. Acredito, entretanto, que a melhor atuação é de Trevante Rhodes que interpreta Chiron já adulto. Ele consegue passar a dor, a ternura, o amor, a confusão do personagem em um único olhar.

             
   Seria interessante estabelecer uma conexão entre Moonlight: Sob a Luz do Luar e O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee. Homens em ambientes de homens brutos, mas apaixonados entre si. Um Romeu e Julieta gay seria Romeu e Romeu ou Julieta e Julieta. Quando o mundo no qual estamos inseridos não nos aceita, não nos reconhece, não nos acolhe; nós também não nos aceitamos, reconhecemos ou nos acolhemos. Não nos resta então outra alternativa a não ser nos voltarmos contra este mundo, mesmo porque estamos doentes. O ser humano precisa de outro ser humano que lhe abrace e lhe devolva a pele e os contornos quando está em dispersão. O ser humano precisa de outro que lhe sussurre: “eu te compreendo, não há porque pedir perdão”.
            A trilha sonora é magnífica, muito soul, muito som da motown, rap, sonzeira de malandro, já começa com a porrada Every nigger is a star, passa por Caetano Veloso cantando Cucurucu paloma e chega ao auge com Hello stranger, de Bárbara Lewis.


            A fotografia em tons de azul, refletindo uma parábola que Juan conta ao menino Chiron na primeira parte do filme, também é muito eficiente.
       Acho que vale à pena assistir, levando no coração a advertência: não é fácil ser sensível na periferia.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Est-ética

Gosto de artistas que não fazem concessões, de Van Gogh a Leonard Cohen, mesmo porque as pessoas querem o que lhes é familiar e a pressão externa é sempre por mais do mesmo. O que é original causa estranheza, sussurra-nos histórias de mundos que sucumbiram no lado obscuro do tempo, enquanto o lado luminoso, do tempo, nos revela a História, mas também a orquídea, a pedra e o pássaro. A maior forma de respeito ao publico é não fazer concessões a ele. Não que aquilo que é hermético será necessariamente bom, mas, ao tentar facilitar as coisas para o público, subestimamos o público. Traímos o pacto de cumplicidade. Pensar no leitor é enganar o leitor. Pensar na plateia é enganar a plateia. A arte ousa o fracasso. Mesmo porque em nosso tempo tudo é, há muito se sabe, industrializado, padronizado, higiênico, palatável: da água de coco ao livro do ano. Os escritores dão a luz aos livros que gostariam de ler - com os demais artistas ocorre algo similar - por isto há sempre um fantasma de leitor no ombro de quem escreve que é, em última instância, seu próprio reflexo.  Quando deixamos de ouvir este leitor para ouvir a voz do mercado, quebramos o contrato, fraturamos o esqueleto ético que nos mantém de pé. O artista pode ser (e sempre é que ainda não chegue as vias de fato) um assassino, como Villón; um ladrão, como Genet, mas sempre há nele algo de puro e numinoso: é a sombra do contrato entre a pena e o daïmon, o sussurro da obra virtual; do texto, quadro ou canção em estado de latência, pulsando ao lado da História. Mescla de anjo e fezes, o artista não segue as leis sociais[1], não se preocupa com a cortesia - esta forma institucionalizada da mentira -, mas acolhe sempre as exigências e leis inquebrantáveis da obra, buscando aproximar-se do bolo. A palavra é uma forma pequena para um bolo grande demais; o ato de transformar a própria forma em bolo é a estética em seu sentido amplo. A estética não é um julgamento técnico e sim aisthésis: percepção, sensação, sensibilidade, atração pela beleza no sentido mais amplo: o encantamento mesmo do bebê pelo seio e o leite. Quando traímos esta lei, a lei da obra, por motivos mercadológicos... Quando somos um invólucro frágil, covarde, para os pensamentos em busca de pensador... Quando confundimos a arte com artifícios meramente técnicos... Então quebramos o pacto est-ético e não somos dignos sequer de abrir um livro do Fernando Pessoa.
imagem: Fernando Rocha




[1] Não se trata de privilégio, paga-se um preço alto e muitas vezes se é preso - em cadeias ou manicômios - por isto. 

sábado, 4 de março de 2017

Ins´t life strange?

Wished I could be in your heart
To be one with your love
Wished I could be in your eyes
Looking back there you were, and here we are
 Moody Blues

Abiloaldo Gilgamesh Amaral, meu amigo, era um homem muito melancólico e... feio. De tão feio, quando nasceu, o médico em vez de dar uns tapinhas no bumbum do novo ser humano para que ele pudesse respirar, espancou a mãe. O doutor perdeu o direito de exercer a medicina, enlouqueceu, foi preso em manicômio judiciário; houve passeatas feministas por todo o país durante o julgamento. Abiloaldo já nasceu sob o signo da desgraça e, quando cresceu, se tornou poeta. De inspiração drummondiana, vivia repetindo os versos do mineiro: “E o hábito de sofrer, que tanto me diverte, é doce herança itabirana.” Frequentamos a faculdade de Letras, no interior de São Paulo, juntos. Seu rosto parecia uma obra de arte, um quadro cubista: olhos para um lado, nariz para o outro, orelhas na frente da carona de bolacha traquinas. Nada em sua silhueta era simétrico. Enquanto eu sofria a invisibilidade, ele sofria por ser notado. Ninguém passa por este planeta sem sofrer, mas alguns são assinalados. Grifados com a caneta vermelha de Deus.
            Aos vinte e poucos anos, numa noite em que estávamos só nós dois, ouvindo música na república na qual vivíamos, confessou nunca ter dado um beijo em quem quer que fosse. Aos trinta e poucos, veio passar uns dias comigo: a primeira e única namorada tinha lhe dado um pé na bunda e ele mergulhara na depressão feito surfista no mar.
            - É como um mar, mas um mar de piche... Quanto mais tento sair, mais o negrume se agarra à minha pele, ao corpo. E faz tanto frio...
            Em casa, ele passava a noite inteira acordado, fazendo barulho e, quando minha mulher e eu saíamos para trabalhar, ia se deitar. Andava bebendo também. Já não tinha esperanças, dizia. Ela, a minha garota, já estava perdendo a paciência.
            - O cara é meu amigo. Não posso jogar ele na rua.
            - Não aguento mais. Além de triste e feio, ele é folgado. Quando chego em casa – ela chegava primeiro que eu -, está tudo sujo... Copos, pratos e panelas na pia e ele deitadão, roncando. Vai ser triste assim no inferno.
            - Tem um pouco de paciência, de empatia. Você já reparou no rosto do cara?
            - E como não repararia.
            - Então... E se fosse você? Se tivesse nascido com um rosto daqueles?
            - Cometeria suicídio antes da puberdade.

***
           
Nunca usei celular. Tenho aversão à tecnologia. Ainda escuto música em vitrola. Certa manhã, estava em sala, dando aula, quando me chamaram na secretaria: alguém queria falar comigo ao telefone. Era meu amigo. Estava bêbado, desesperado. Tinha tentado suicidar-se. Larguei tudo e corri pra casa. Nós tínhamos vivido quatro anos sob o mesmo teto. Quando cheguei, minha mulher já estava lá, bem como a ambulância e a voiture policial... Ele, deitado no sofá.
            - O que você fez?
            Ficou quieto, não respondeu. Ela me mostrou uma cartela vazia de comprimidos. Ele tinha tomado uma caixa inteira de comprimidos de maracujina, calmantes naturais. Eu tinha em casa álcool, água sanitária, cartelas e mais cartelas de alprazolam 6 mg, sertralina, cloridrato de naltresona, chumbinho, mas ele escolhera maracujina para cometer suicídio. Não estava assim tão afim de morrer.
            - Ele é tão patético! Chega a despertar a solidariedade na gente – disse minha mulher mais tarde, quando estávamos na cama, enquanto cruzava os braços para que eu não tocasse seus seios.

***

            Tocamos o barco.
            Abiloaldo, lentamente, começou a melhorar. Às vezes, quando chegava do trabalho, antes de parar o carro, ouvia o Tim Maia cantando Sossego alto nas caixas de som. Ele maneirou na bebida e começou a limpar a casa enquanto estávamos fora. Minha mulher já não reclamava tanto quanto antes. Muito pelo contrário.
            Um dia cheguei do trabalho e a casa estava vazia. Nem meus discos estavam mais lá. Sobre a mesinha de centro da sala, um bilhete da minha mulher que começava assim: “Você pediu que eu tivesse um pouco de empatia pelo Abiloaldo. Segui seu conselho e percebi que ele tinha uma alma linda...”
            Os dois tinham fugido juntos. Apaixonaram-se. Abiloaldo – o talarico - tinha uma linda alma para compensar a desgraça do rosto. E eu que achava que com ele não corria perigo...
            Montanhas são lugares altos e mulheres são seres complexos. Quando cometemos adultério, a culpa é nossa... Quando elas cometem, a culpa também é nossa...
          Eu tinha pelo menos mais uns trinta anos pela frente, mas me sentia fraco demais para suportar tanto futuro nos braços.
            A vida não é estranha?
            A vida não é mesmo muito estranha?

            

sexta-feira, 3 de março de 2017

Ser e Totora - palafitas

                 No mais belo parágrafo de Carta Sobre o Humanismo, Heidegger escreve: “Caso o homem encontre, alguma vez, o caminho para a proximidade do ser, então deve antes aprender a existir no inefável.” Dando um passo atrás rumo ao mais originário, o filósofo de Todnauberg supera, deste modo, a metafísica.
              Grosso modo, o pensamento metafísico – e  mais ainda o moderno - caracteriza-se por buscar um único fundamento que explique o mundo e o homem. Assim, para Platão o fundamento é a Ideia; para Descartes o fundamento é o eu (cogito); para  Schopenhauer, a vontade; para Freud, a sexualidade; para Nietzsche – que Heidegger ainda associa à metafísica – a vontade de potência. De certo modo, a filosofia seria um arcabouço lógico sobre essa proposição primeira. Os edifícios seriam construídos a partir de um fundamento sólido.
                Heidegger não nega o fundante, mas o fundante seria o ser e o ser é o próprio inefável, o mistério que se instala quando perguntamos: por que o ser e não antes o nada? Por que o homem, a planta, a bactéria, o vírus, o animal, o inseto, as galáxias, os deuses, o micro-e-o-macro e não antes o nada? Uia! Que estamos nomeando quando dizemos que algo é? O ser é um fundamento móvel, insinuante, como as palafitas, ou melhor,  como a totora que mantém as casas suspensas sobre o lago Titica.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Origami

Já não espero nada da vida ou dos homens
Fecho janelas e acaricio sonhos podres
Levo no coração um relógio parado
E vivo com o que tenho:
Gavetas quebradas, papéis antigos, pandeiro furado.
A velhice espreita feito hiena da varanda.
O futuro é flácido e o cansaço, quarta de cinzas.

Que louco desejaria encarnar outra vez?

sábado, 14 de janeiro de 2017

Um fantasma com gosto de camomila


Ouvindo Sad eyed lady of the Lowlands, de Bob Dylan

Quando conheci Ângela, ela tinha trinta e dois anos e eu tinha dezesseis, talvez dezessete. Havia dois dias que eu não comia nada de sólido. Estava tentando ser escritor numa cidade grande, mas tudo o que tinha conseguido fazer até então, fora escrever alguns poemas e trabalhar nos finais de semana num lugar imundo, com um banheiro nojento, chamado Caverna do Rock. Aquele era um lugar das trevas, várias pessoas já haviam se matado, ou matado alguém lá dentro. O que me lembro é que eu tinha uma camiseta do Van Gogh, uma bermuda e uma calça. No dia em que nos conhecemos, eu estava tentando dormir, já um bocado embriagado, num dos bancos duros da Caverna, quando ela chegou perguntando por uma tal de Aline, ou Amanda, ou algum nome assim. Falei que nem sequer imaginava quem era essa pessoa e aí tornei a dormir. Ela me acordou de novo. Parecia ter passado a noite numa daquelas farras que deixa as pessoas com olhar de peixe morto, ou peixe vivo... Enfim, com uns olhos bem estranhos, tipo Modigliani.
- O que você vai fazer hoje?
- Hoje eu ainda não sei, por enquanto, estou tentando dormir.
- Você não tem nada em cima aí não, tem?
- Olha dona, tem dois dias que não como, porque não tenho dinheiro, daí a senhora já imagina, que, se eu tivesse alguma coisa em cima, não estaria numa situação dessas. 
- E essa camiseta?
- É a noite estrelada, do Vincent.
- Eu sei porra, você gosta? É difícil um menino na sua idade gostar dessas coisas.
- Pois é, mas eu gosto.
- Bom pra você – ela disse e acendeu um pensativo cigarro. Eu, do meu lado, já não conseguia dormir, porque ela era bonita. Fiquei lá deitado com meus olhos olhando pra ela, até que me perguntou: - Vem comigo, quero te pagar um café. Levantei num pulo e pedi pra ela esperar só mais um pouquinho, porque eu era um rapaz muito asseado e precisava escovar os dentes.
Então nós entramos no carrão preto dela e andamos por uns trinta minutos até encontrar uma bela padaria, onde tomamos um opíparo café da manhã, com direito a frios, pães, frutas, geleia, suco, leite, café. Eu me fartei, porque tinha mesmo que encher o estoque da barriga, não sabia quando e nem de onde viria a próxima refeição. Ela me falou de livros. Disse que eu deveria ler o Ariel, de Sylvia Plath. Eu disse que queria ser escritor. Ela me falou de Joni Mitchel. Eu disse que estava aprendendo Bob Dylan. Ela me falou de Milton Nascimento e Frida Kahlo. Eu disse que tinha lido umas trinta vezes o Pequeno Príncipe. Ela me falou que eu tinha talento e tempo. Eu disse que tinha medo. Ela me disse que tinha um filho a quem não via havia uns cinco anos. Eu disse que ainda era muito jovem e que não era ninguém pra dar conselhos a quem quer que fosse, mas que ela devia ir devagar com as drogas. Ela sorriu um riso triste e disse que os sinos estavam enferrujados, mas que o natal estava chegando.
E aí nós decidimos ir ao parque, caminhar um pouco e ver alguma exposição no museu de arte moderna. Eu concordei. E nós fomos, e foi um dia bonito, e ela pagou o almoço também, e nós conversamos mais um pouco, e parecíamos mesmo velhos conhecidos de mesma idade. No fim da tarde, ela me deixou na Caverna e me deu um pequeno beijo, sem língua nem nada e eu não pude acreditar que tinha beijado aquela mulher. Não mesmo.
***
Da segunda vez que encontrei Ângela, eu estava trabalhando como cortador numa confecção. Ainda não era o artista que imaginara na adolescência, mas já tinha escrito um pouco mais. Foi no final dos anos noventa e eu já conhecia algumas coisinhas a mais sobre arte, cultura e essas coisas todas, que são mesmo as únicas coisas que me interessam neste mundo escroto. Ela estava fumando outra vez o seu pensativo cigarro num ponto de ônibus. Era mesmo ela, mas tinha envelhecido um bocado e eu cheguei a estranhar que ela estivesse esperando o ônibus, afinal de contas, da última vez que nós havíamos nos visto, ela tinha aquele seu tremendo carrão.
- Oi Ângela – falei – sorrindo aquele meu velho sorriso tímido de quem procura ser aceito. Ela ficou olhando meu rosto como se estivesse tentando se lembrar de onde me conhecia.
  - Não se lembra de mim? 
            - Pra dizer a verdade, até que me lembro, mas não sei de onde. E aí eu lembrei pra ela todo aquele episódio da Caverna do Rock... E do café da manhã... E do passeio... E do parque... 

            - Nossa cara, você está diferente, agora é um homem. Está bem. Ficou um cara bonito. 
            Eu disse que ela continuava linda. Ela sorriu e disse que aquilo era generosidade minha. Era engraçado, mas ao lado dela, eu sentia como se tivesse cinco anos, junto da primeira namorada, que nem mesmo namorada era, mas que eu amava, como um menino ama a Maria, mãe de Jesus. Perguntei se ela tinha tempo para um café. Disse que estava indo a uma reunião de narcóticos anônimos e não gostava de chegar atrasada. Insisti. Tudo bem só um café, ela disse.
Na padaria, contou-me que tinha perdido o controle e todo o resto com as drogas. Mal tinha o dinheiro para o ônibus, contudo agora se sentia melhor. Havia quatro meses que não usava qualquer substância que lhe alterasse a consciência. Então sorriu meio de lado, como se estivesse se desculpando de alguma coisa e eu não pude resistir e ajeitei, com todo o carinho que as minhas mãos poderiam ter, os cabelos dela atrás das orelhas. Ela continuou sorrindo daquele jeito, como se chorasse por dentro, e eu senti um tremendo nó na garganta e fiquei com uma puta vontade de agarrá-la e beijá-la e dizer que a amava com todo o meu corpo e a minha alma e que ela não precisava mais ter medo, porque eu cuidaria bem dela pra sempre e ninguém nunca mais iria fazê-la sofrer, porque eu não deixaria. Entretanto, nada fiz. Timidez, ou sei lá o que. Pra mim ela não era mulher, era quase que uma divindade. É muita pretensão sonhar casar-se com uma deusa. Nos despedimos de um jeito triste. Em silêncio. Eu tinha mesmo dentro de mim cinco anos. Nem sequer telefone trocamos. O ônibus levou ela embora. Havia luzes acesas dentro do ônibus e eu a vi passando pela catraca e ela me lançou um último sorriso. Do lado de fora do ônibus, onde eu estava, era tudo noite e só noite.
***
Quando encontrei Ângela pela terceira vez, mal pude reconhecê-la. Foi ela quem me abordou. Eu estava passando por uma praça no centro da cidade e quase não parei quando aquela mendiga tentou me segurar pelo braço.
- Vai dizer que não está me reconhecendo?
Fiquei olhando aquele rosto sujo. Com aquela boca faltando alguns dentes. E só com muito esforço foi que consegui reconhecer alguns traços da Ângela que eu havia conhecido atrás daquela máscara de dor e mágoa.
- O que aconteceu? - Fiz a besteira de perguntar.
- Ó cara, nem me pergunte uma coisa dessas, por favor não me pergunte o que aconteceu. Aconteceram tantas e tantas coisas ruins. Mas você... Você... Graças a Deus... Está ficando mais bonito a cada dia que passa!
- Bondade sua.
- Bondade nada... Me conta... E as novidades...
Foi aí que contei pra ela que agora trabalhava como tradutor e estava pra lançar o meu primeiro livro. Tinha me casado e meu filho estava com catorze dias. Não devia ter falado do filho. Seu rosto se tornou ainda mais dolorido e ela abriu devagar a boca pra dizer:
            - Eu é que nunca mais vi meu filho. - O espinho prateado da rosa ensanguentada agora devia ser um homem. Pelo menos foi o que ela disse.
Levei-a até um bar e paguei-lhe um lanche e um suco. Ela não conseguiu comer nem a metade da comida. Perguntou se eu podia dar-lhe algum dinheiro. Eu disse que, se ela quisesse, poderia conseguir uma internação em alguma clínica de recuperação, ou coisa assim. Ela sorriu outra vez, aquele riso triste de sempre. Balançou a cabeça baixa e disse como alguém que já não tivesse mesmo a menor esperança.
- Não adianta.
 Perguntou de novo se eu tinha algum dinheiro. Dei a ela uma nota de cinquenta reais. Seus olhos brilharam. Ela apertou o dinheiro com força na mão direita e então me deu outro pequeno beijo na boca. Aí inventou uma desculpa e atravessou a praça quase que correndo. Não podia conter a ansiedade e o desejo da droga. Pobre Ângela. Eu atravessei a praça, entrei na catedral, ajoelhei-me e fiz uma prece por ela, e por mim, e por todos os desajustados desse planeta. Estranhamente, o beijo dela tinha gosto de camomila.



terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Piedade para o Demónio

         
   - Vê, agora faltam pedaços. Os pedaços que você arrancou – ela diz, nua, de pé ante o espelho. O dedo indicador percorrendo o vale onde antes ficava o seio esquerdo.
     -Não é prudente se colocar entre o drogado e sua droga.
      - Aqui também não há mais nada – vejo pelo reflexo no espelho a mão direita entrar na barriga, os dedos apontam na dorsal. – Também nada no coração. Você sempre consegue, não é? Destruir tudo?
       - Não era eu, irmã.
     - Agora não importa, a polícia está a caminho. O que é que você sabe sobre maracujás e criar filhos? Porra nenhuma!
        A cidade acorda. Caminhões, carros de passeio, de polícia, de bombeiro, trens de carga ao longe e, mais ao longe ainda, o mar e a fuga impossível. Ó manhã-cascável, mil guizos na cabeça de pedra. Ó manhã-medusa, mil chocalhos velando o corpo morto do amor.
      Ele se levanta de cuecas. Olheiras fundas de quem não pregou os olhos a noite inteira. Olha o caixãozinho branco. As flores. O menino Jesus. Daria tudo pelo frescor do passado. Daria tudo pelo riso dos primeiros dias. O tempo tem vasto poder de destruição. Quando morria no olho do sonho, a esfinge aconselhou, sentada, tranquila, no alto da roda. 
           - Só há uma saída: siga o rio enquanto ele desce, no exato ponto em que começar a subir - e o rio que sobe encontrar o rio que desce - você deve atravessá-lo. É o único modo de escapar.
            Nem tentou. O encontro dos rios é a porta do inferno.
       Gosto estranho; na boca, um pássaro recém-nascido e já morto, caído do ninho, os olhos cinzentos, o bico do bicho pegado à língua suja de carvão. Formigas fazendo seu trabalho. Tenta se desvencilhar do pássaro, ele bate as asas molhadas, doces, sem penas; ainda está vivo, mas não por muito tempo. A língua sangra. Soltam-se. Ele sopra o bico do passarim. - Por favor, não morra mais nada nesta manhã! Já perdi pais, irmãos, amores, amigos, filhos, bichos de estimação. Sobreviva ruiseñor! Não quero perder meu pássaro. Arqueja o peito frágil. Procura o ar para teus pulmões de passarinho. Lembra do mel que tua mãe colhia pra te fabricar nas entranhas-mistério de fêmea. 
        Não há o que fazer. 
     Ele deixa o pássaro cair também ao chão. Três gatos se aproximam para cheirar o cadáver. 
   Se pudesse, faria como ela, enfiaria os dedos por dentro do crânio e arrancaria a massa lá de dentro com as mãos: escorpiões que se amontoam, serpentes entrelaçadas, escuridão, lacraias, culpa, remorso, desespero, manhãs.
            - Você teve o melhor esboço, mas rasgou o papel.
            - Não sou eu, é o outro que mora em mim.
            - Teu cu.
            Uma viatura para na frente da porta do hotel, portas abertas.
            - Essas porras desses viciados só dão trabalho, fazem barbaridades quando estão chapados.
            - Deveríamos agradecê-los. Sem eles, não teríamos nosso trabalho!
            Na entrada do prédio em ruínas, o poeta louco português grita, sob as faixas do MTST:
            “Piedade para o Demónio, piedade para a solidão demoníaca... Eu conheço o silêncio do carrasco. Conheço a irremissível solidão do Demónio. Na Holanda, o Demónio é negativo. Está no meio das vacas: não escreve poemas, não pode exercer os dons. Pensa, perde o nome. Quem esperaria dele que trabalhasse a terra ou protegesse as alimárias?”
            Não estavam na Holanda, mas em São Paulo – locomotiva de todos os horrores.
            Profundo é o medo das manhãs, que nada tem a ver com a polícia.