quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

CARNEIRO, CONSERVADOR E COPEIRO II – A MISSÃO

Outro dia escrevi aqui uma crônica sobre o Carneiro, o copeiro conservador da padaria que frequento. Devo confessar que eu mesmo, em algum nível, criticava o Carneiro, sua interminável ode ao trabalho, 18 horas por dia; mas, quando os amigos postaram comentários criticando também o Carneiro, algo me incomodou. Não sabia bem o quê. Refleti e cheguei à conclusão de que fiquei incomodado porque o Carneiro é um cara gente-fina, uma boa pessoa; sempre disposta a ajudar o próximo, na medida do possível. A SURPRESA: é possível ter ideias conservadoras e ser uma boa pessoa! Durante a ditadura militar, por vias diametralmente opostas, os militares acreditaram que sabiam o melhor caminho para o país e, aos que fossem contra tal caminho, a alternativa era a bala. Com o fim da ditadura, em algum nível, a esquerda pegou para si não a bandeira ideológica, mas a bandeira moral do militarismo; algo quase religioso. Quem é de esquerda é um ser humano melhor, mais altruísta, pensa mais no outro, no coletivo, põe o dinheiro em segundo plano e, todos sabemos, nem sempre é assim. Talvez a grande decepção de parcela da população com a esquerda que chegou ao poder é exatamente a decepção com o fato de que ela cometeu os mesmíssimos crimes que combatia: soou hipócrita. Mesmo com as melhorias conquistadas, não foi suficiente. Ainda pensando no Carneiro, outra ideia que me veio à mente, foi o seguinte: nós, da esquerda, temos pouco poder de convencimento. Somos bons de embate, debate e de briga, mas não conseguimos convencer o cidadão comum, o mais pobre, aquele que trabalha tanto que não tem tempo para pensar. Geralmente, nós o confundimos com o Hulk da Avenida Paulista, com o Alexandre Frota e partimos para o confronto, quando seria o momento de um diálogo desarmado.
                Sinto-me melhor agora que, de algum modo, situei o Carneiro em seu devido lugar, mas ainda tenho de citar um episódio no qual ele foi protagonista para demonstrar o quanto este cara tem de coração. Foi na época do meu divórcio, um dos divórcios mais complicados do planeta, que por fim pode ser resumido na fórmula: divorciaram-se e foram felizes para sempre; mas, antes disso muita água rolou debaixo da ponte; fica para outra oportunidade. Sempre tive dificuldade pra dormir e nessa época procurei um psiquiatra que me receitasse algum medicamento. Às vezes atravessava duas... Três noites sem dormir, mesmo fazendo exercício e trabalhando. Não tinha jeito. O médico receitou dois comprimidos de sertralina depois do almoço e um comprimido de diazepam 2 mg antes de dormir; severamente advertiu:
                - Não beba!
                Eu, entretanto, continuava deprimido, até dormia, mas muito mal, tinha pesadelos. Criou-se um abismo entre mim e o mundo, entre mim e os outros, entre mim e o futuro. Num repente, tinha perdido o compromisso com a vida.
                Então, numa noite entrei na padaria. Um amigo das antigas, que estudou comigo desde a pré-escola até o ensino médio estava lá tomando cerveja. Me chamou. Sentei junto. Tomei um guaraná, uma brahma sem álcool e, quando vi, estava na cerveja normal. O amigo foi embora e eu ainda pedi mais uma ou duas. Nem preciso dizer que deu merda. Eu sou o Rei - nem o príncipe, nem o conde - o Rei das Cagadas. Fiquei ruim, as pernas deixaram de obedecer. Um sono insuportável. Moro perto da padaria, na mesma rua. Paguei a conta e fui embora, mas não estava mesmo bem. O que fez meu amigo Carneiro, conservador e copeiro? Pediu permissão ao patrão e me levou até em casa.
                Fiquei uns dias sem aparecer, envergonhado.
                Tempos depois, num domingo, entrei na padaria para comprar um frango assado.
                - Olha aí a Bela Adormecida – brincou o Carneiro com o cara do caixa.
                - Fiz merda, pisei na bola, obrigado aí ter me acompanhado até em casa.
                - É perto, mas tem de atravessar a avenida, né professor, do jeito que tu tava, podia ter batido as botas.
                - Devo uma.
                - Pois não fique devendo, pague logo. Hoje tem culto na Igreja. O que é que tu vai fazer? Nada que eu sei, vai assistir o Faustão. Bora lá fazer uma visita.
                Querer ir eu não queria, mas aceitei.
                Às 18:30 em ponto Carneiro e família passaram em casa e fomos ao culto.
                Em frente à Igreja, todos estavam extremamente bem vestidos. As mulheres com suas melhores roupas, os homens de terno e gravata, barbas e cabelos bem feitos. Além de ser o lugar de sua religião, aquele era o lugar de sua diversão, de estabelecer vínculos, conversar, ver as pessoas. A outra opção era o boteco, e os que se enfurnavam no boteco, destruíam suas famílias, batiam em suas esposas. Carneiro mesmo se orgulhava de dizer que estava havia dezoito anos sem beber uma gota de álcool. A Igreja era saudável e a fé em Deus dava um sentido às suas vidas. Como a modernidade aboliu a verdade transcendente, Deus passou a valer como potência do falso. Existindo ou não, o fato é que torna a vida mais suportável, ordenada. E eu, com todas as minhas leituras, minha curiosidade, meus estudos, onde estava? Entregue ao caos, com um pé no abismo e outro na casca de banana. Por todo esse sentido conferido à vida - Deus se preocupa até mais com os menores - cobrava-se um dízimo, pois nada neste mundo, seja espiritual ou material, é de graça. Mas eu também não pagava o psiquiatra? E as pessoas não pagam psicanalistas?
                Quando o pastor começou a falar, percebi que o discurso do meu amigo Carneiro não era necessariamente dele, mas da Igreja. Assim como muita gente, quando fala, nada diz de próprio, mas tagarela o discurso do partido, da universidade, dos “formadores de opinião”. Lembrei da música do Paulinho Tapajós: Eu tantas vezes me sentei sozinho para jantar / Comprei milhões de pensamentos pra não ter de pensar. Eu estava irremediavelmente arruinado. Tinha perdido a capacidade de auto-ilusão. Provara da árvore do conhecimento. Não era uma escolha, para mim, eu já não podia optar pela Igreja. Tinha perdido o órgão da fé.
                Depois do culto, comemos alguma coisa na cantina da Igreja e o Carneiro me deixou em casa.
                Mesmo tendo tomado o remédio, não conseguia dormir. Imaginei um país dominado por Igrejas evangélicas. As mulheres, todas, queriam casar e ter filhos, três ou quatro, ao contrário das mulheres “seculares”. Basta uma projeção simples. A Igreja oferecia o que os seres mais humanos almejam: sentido. Dane-se a liberdade, ninguém quer ser livre, ela, a liberdade, só traz problemas e responsabilidade. Além disso, havia o sentimento de fazer parte, as vidas estáveis. A contrapartida? O machismo, a homofobia, o preconceito, o dízimo...
                Não tenho muitas certezas nessa vida, mas uma percebi no dia em que fui à Igreja com o meu amigo Carneiro, conservador e copeiro – nessa ordem: o poder político das Igrejas evangélicas está apenas começando e eles já têm uma bancada respeitável no congresso, governadores, prefeitos, canais de televisão e outras mídias e pessoas que têm a certeza de agir de acordo com o que Deus quer e Deus é a verdade contra a qual não há argumentos.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

SAVE THE BRAZIL

Que o brasileiro é um povo alegre, brincalhão, divertido, ninguém pode negar. É público e notório. Em cima do fato, aparece, de cara, não a notícia, mas a piada. Depois ainda falam do humor dos ingleses. Geralmente, a piada, anônima, surge num repente e está sempre ligada às classes menos abastadas: o boteco é a casa da piada. Vocês já viram ricos contando piadas? Já viram intelectuais contando piadas? Deus nos livre! Outro dia vi o Cortella, o bispo do óbvio, já que o papa é o Karnal, ensaiar uma piada tão sem graça que até ele ficou com vergonha de rir. A piada nasce das pedras do pobre. Sempre foi assim, desde a idade média. Como não se podia aviltar os poderosos: piada neles.
Agora, outra coisa que não se pode negar também é que o brasileiro, principalmente o que não é muito rico nem muito pobre, é cafona, brega até as últimas consequências e blusas de oncinha. De certo modo, querem esquecer suas origens humildes, seu bom humor, afinal chegaram a subgerentes, a postura tem de ser outra. Então não basta visitar Miami e colocar as fotos nas redes sociais. Como neste momento estão na moda os protestos, é preciso protestar também em inglês. Bem típico de quem está no primeiro ou segundo estágio. Um ano de inglês, no máximo. E aí colocam suas camisas da nike, suas calças adidas, seus tênis reebok e vão protestar. Ninguém tem uma porta pra consertar, um quintal pra lavar, um almoço pra fazer. A onda é protestar. Contra o quê? A resposta está na ponta da língua: corrupção! - Mas o sistema todo é corrupto, não seria o caso de pressionar firmemente por uma reforma política? E quem diabos vai saber o que é reforma política? E, mais, quem sabe que políticos sempre estiveram contra a tal reforma? Aí desconversam. Estendem os cartazes em inglês: “In moro we trust!”, “Save the Brazil!” “Bola de Neve Church”. A quem será que a mensagem está sendo dirigida? Ao Trump? À Theresa May? Nem eles sabem, mas imaginam que protestar em inglês seja mais elegante.
Estou para dizer que o problema do Brasil é um problema estético. Temos a maior parcela da população tão desinformada, cafona e brega que o problema ético ou moral fica em segundo plano. Trocar a feirinha da madrugada pela feirinha de Miami não faz ninguém mais sábio, ou articulado. Mesmo os extremamente ricos são estúpidos. Nos países mais desenvolvidos, as elites educam os filhos com viagens, visitas aos melhores museus do mundo, contato com as melhores obras da literatura e da filosofia ocidental, aprendem línguas. Aqui, compra-se um carrão pro moleque e tal e qual no conto do Rubem Fonseca, dizem:
- Vai lá tigrão, vamos ver quantos ciclistas você consegue atropelar esta noite!
Quando houver de fato uma educação estética (não a estética unicamente no sentido do belo, mas do existencial), as pessoas, talvez (talvez), perceberão que o dinheiro é um meio e não um fim, um instrumento de acesso às mais nobres criações humanas. Quando a arte, a fruição estética, substituir a ânsia de acúmulo, talvez (talvez) tenhamos um país menos corrupto e muito menos brega, pois o que será valorizado não será a picape tocando chego na balada/ dirigindo meu carrão/ subo pela calçada e atropelo uns pobretão, mas a capacidade de conduzir uma conversa de maneira culta, ou, ao menos, adulta. 

domingo, 4 de dezembro de 2016

BREVE TRATADO SOBRE CORNOLOGIA CONTEMPORÂNEA

Outro dia ouvi o Leandro Karnal, este novo papa do óbvio, dizer que nunca deveríamos começar um enunciado assim:
                - No meu tempo as coisas eram diferentes...
           Segundo o historiador, isso era coisa de velho. Pois bem; em primeiro lugar, qual é o problema com a velhice? A única alternativa é a morte prematura. Característico do nosso tempo, este preconceito quanto à velhice: o saber não está mais com os anciões, mas com a internet; por outro lado, você não vê velhinhos colocando fogo em índios nos pontos de ônibus. Ó sim, não sabiam que eram um índio, pensaram que fosse um mendigo.  Karnal é fruto de seu tempo e eu prefiro reflexões extemporâneas. É preciso encontrar as velocidades de cada idade, como bem disse Deleuze. Em segundo lugar, existem, sim, coisas que ficam restritas ao seu tempo: o espartilho, o chapéu, os sapatos de salto plataforma, ou as calças bag dos anos 90 e, no âmbito dos sentimentos a dor de corno.
                Desde a cultura mais erudita, até a mais popular, a dor de corno sempre foi combustível insubstituível para grandes obras. Otelo matou Desdêmona por causa da dor de corno; ou, pior ainda, por ser negro. Bentinho se tornou Dom Casmurro por causa da dor de corno. Na primeira peça de Nelson Rodrigues, A mulher sem pecado, Olegário se quebra contra o destino por conta da dor de corno. Todas essas obras têm em comum, além de se tratarem de criações ficcionais, o foco na dor de corno e não necessariamente no chifre, posto que, em nenhum dos casos, o adorno craniano foi confirmado. De todo modo, um livro calcado neste mote seria impossível nos dias de hoje (volto a isso depois)... Agora, feio mesmo ficou para o nosso querido Euclides da Cunha. O homem foi a serviço cobrir a guerra de Canudos para o jornal O Estado de São Paulo, voltou com Os sertões na cartola, praticamente inventou o sertão, o sertanejo, o nordeste, a luta, a terra, a mística, o bigode, uma parte imensa do Brasil. Para seu desprazer, entretanto, quando chegou em casa não era o maior intelectual do País, e sim o maior corno de São Paulo: a mulher estava grávida de um soldado, ou tenente, sei lá eu, do exército. Euclides, homem honrado, bigode pontudo, chamou o amante da mulher para um duelo. Dizem as más línguas que um amigo o advertiu:
                - Mas, Euclides, o homem é o maior atirador do pelotão, acerta pardal em pleno voo a cem metros de distância! Não seria o caso de resolver a pendenga numa partida de xadrez? Você teria muito mais chances.
                Euclides da Cunha ficou inflexível, não ouviu o conselho. Se Brás Cubas entrou para a eternidade como o primeiro defunto-autor, o pobre Euclides entrou para eternidade sem fim como autor, defunto e corno: o dono e inventor do chifre eterno. Já teve até série na Globo sobre sua galhada.
                Hoje em dia, como escreveriam meus alunos do curso de redação, o chifre já não é um problema, a dor de corno quase não existe. Por isso livros assim não podem mais ser escritos. Cafona é não ser corno. Já existem até lojas que vendem chifres postiços para festas e ocasiões especiais. Entre os grã-finos é moda levar galho, inventaram até um nome pomposo para o assunto: poliamor. Posso entender o porquê.  Outro dia fui visitar um amigo rico, nos jardins, e percebi que ali não há a menor possibilidade de o sujeito sentir dor de corno. As ruas são arborizadas, vazias, as casas extremamente fechadas, ninguém sabe da vida de ninguém. O camarada pode viver dez anos no mesmo lugar e não saber quem é o poliamoroso que vive ao lado. Não há botecos, tive de andar uns quatro quilômetros para achar uma lanchonete e uma lanchonete não é um boteco, muito mais impessoal e limpo.
                Na periferia, onde vivo, ainda cultivamos a dor de corno, mas não mais como antigamente. Agora os alto-falantes dos carros não cantam Deslizes, do Fagner, mas um funk ou sertanejo universitário qualquer. E os sertanejos, depois que se tornaram universitários, não querem mais saber de chifre. As letras em vez de doerem no coração dizem: chego na balada/dirigindo meu carrão/subo pela calçada e atropelo uns pobretão. Agora, o sertanejo é antes de tudo um universitário. Outra diferença é que, atualmente, o corno não é mais o último a saber, mas o primeiro. Já casa sabendo; sem problema algum. O inferno são os outros. Como em cada esquina há um boteco, tem sempre alguém para lembrar as infidelidades alheias. Vejamos o caso de Luís Gustavo e Verinha. Casaram-se jovens, ele tinha vinte e um, ela dezessete. A menina já estava grávida de três meses. E tinha fama de namoradeira entre xs fofoqueirxs do bairro. Logo que o menino nasceu, começaram os passeios e as visitas misteriosas.
                Um dizia ao Luís Gustavo:
          - Olha, não queria dizer, mas vi tua mulher lá na Praça do Forró com um vendedor da Marabraz.
                Outro dizia:
                - Vi tua mulher, em São Miguel, com um vendedor das Casas Bahia.
                - Não era da  Marabraz? – perguntava o Luís Gustavo, desconsolado.
                - Não, tenho certeza, era da Casas Bahia.
                Outro dia, no boteco, alguém informava.
               - Olha o entregador de gás da Ultragaz entrou aí na tua casa e ficou mais de uma hora pra trocar o botijão.
                Passava-se uma semana. E novo informante cochichava.
                - O cara da Liquigás ficou a tarde toda aí na sua casa.
                E o Luís Gustavo:
                - Não era da Ultragaz?
                - Não, rapaz, tava de uniforme verde. Tenho certeza, era Liquigás.
                Às vezes, quando passava na rua, vindo do trabalho, algum engraçadinho gritava:
                - Chifre foi feito pra boi, homem usa de enxerido!
                E Luís Gustavo sofria, mais com as informações que com os chifres. Era da natureza dela, ué, ele sabia desde o casamento. Ninguém pode ser corno em paz neste mundo. Às vezes os chifres inflamavam, juntava pus na junção com a cabeça. O rapaz tinha de tomar benzetacil, semanas e semanas de antibióticos. Havia, entretanto, épocas em que ele e os chifres se davam muito bem. Ele afiava as pontas de seus bichinhos, lixava, passava verniz. Alguns diziam que eram os chifres mais bem cuidados do bairro.
                Um dia, porém, algo aconteceu. Verinha trocou os shortinhos e minissaias por longos vestidos, deixou de se pintar, arranjou uma Bíblia preta de capa de couro. Os mais incrédulos diziam que ela estava tendo um caso com o pastor; qual o quê, o pastor era o homem mais sério do bairro e muito bem casado. Nunca ficava sozinho, sem testemunha, com mulher alguma... Tem muito malandro perdendo mulher pra Jesus na quebrada.
                E Verinha tornou-se de fato fiel, tanto a Jesus quanto a Luís Gustavo. Os chifres do rapaz foram diminuindo paulatinamente até que desapareceram por completo. No lugar ficaram apenas dois círculos onde não crescia cabelo. Luís Gustavo se desesperou... Não sabia mais o que fazer... Sentia falta de um membro, como o amputado sente falta da perna.
                Um dia chegou em casa e deu cinco tiros na mulher.
                Uma mulher que não era fiel sequer a propria natureza seria fiel a quê?
               A bala que sobrou no tambor do trinta e oito, ele virou para si e atirou no próprio coração, só que errou o lado. Atirou no lado direito e, todo mundo sabe, o coração fica do lado esquerdo.
                Lei do feminicídio nele, porque castigo pra corno é sempre pouco.

                Todo homem tem uma vocação, algo que o chama, que dá sentido à sua vida. Alguns são construtores, outros poetas, outros políticos, outros pintores de parede e há os que têm vocação pra corno. Se tirarem uma freira virgem, de setenta anos, do mosteiro, farão de tudo, infernizarão a vida da coitada, até ela lhes presenteie com um par de chifres.
                Convém não brincar com eles, são muito perigosos.

                

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

SIMONE DE BEAUVOIR E AS FAXINEIRAS

... tudo isso sem contar o tremendo tapa que eu levei com a história do splish splash, mas esta história também é interessante.
Estávamos eu e João Francisco, aquele que mudou de nome depois da primeira viagem à França para Jacques Françoise, não aceita que lhe digam o nome sem se antepor o epíteto de Doutor e que usa cachecol tanto no inverno quanto no verão. Em suma, meu professor de filosofia, meu mestre, meu orientador, aquele cuja cabeça iluminava meus caminhos para que eu pudesse deixar de ser um verme rastejante dos pântanos férteis da ignorância. Íamos a um congresso de três dias, em Campinas, sobre o casal mais feio que já se formou sobre a face da terra: Jean Paul Sarte e Simone de Beauvoir. Antes, porém, precisávamos pegar uma professora no aeroporto de Guarulhos. Como conhecia melhor os caminhos da zona leste, eu dirigia.
- Daniel, mon cher, você vai ver a Elke, que maravilha! Escreveu recentemente o livro Como conversar com um machista. Estudou com Pierre Montebello, Sorbonne, absorva tudo, mantenha os ouvidos atentos, você tem muito que aprender. Ah! A Elke que saudade, que inteligência cortante, que cabeça maravilhosa!
A Elke não demorou muito a desembarcar. A primeira impressão que tive foi que ela era a própria Betty Boop, Jacques não estava mentindo: que cabeça maravilhosa! Chapéu ali, só por encomenda. Talvez eu esteja exagerando, talvez não fosse tão cabeçuda. Se ultrapassava uma caixa d’água de mil litros era coisa de centímetros.
Depois dos abraços, fui apresentado.
- Este é o Daniel, meu orientando. Esta é a Profª  Drª  Elke Veyne.
Ela ofereceu-me a ponta dos dedos, com nojo. Segurei as pontas dos dedos dela e entramos no carro. Antes de assumir meu posto atrás do volante, porém, dei uma cheiradinha nos dedos, eu podia estar fedendo e não ter percebido. Do jeito que ela segurou minha mão, parecia que estava suja de merda; mas não estava, perfume do mais nobre detergente ypê.
No caminho até Campinas, tudo normal.  Como quaisquer mortais, eles não faziam outra coisa além de falar mal dos próprios colegas. É que fulano tinha sido sacaneado por cicrano, o qual também tinha dormido com a mulher de beltrano e beltrano, por sua vez,  tinha enrabado fulano, que, pelo que entendi, só tomava no cu. Coitado de fulano! E eu ali absorvendo tudo para deixar de ser um verme rastejante dos pântanos férteis da ignorância. Como é empolgante o saber, a filosofia, a expansão de nossos horizontes, a experiência inigualável de pensar!
Pegamos um bom trânsito. Paramos para tomar café. Descafeínado, por favor – disseram os dois. Foi quando chegamos à universidade onde ocorreria o evento que pé do frango azedou. A Profª Drª Elke Veyne cismou que a sala não estava devidamente higienizada. Protestou.  Disse que só destilaria sua sabedoria depois que a sala estivesse devidamente limpa. Escreveu uma carta de próprio punho, duas páginas, à chefia da limpeza. O Profº Dr. Jacques Françoise, que era um dos organizadores do evento, quase teve um infarto, andava pra lá e pra cá, com o cachecol esvoaçante batendo na face de quem estivesse por perto. A sala estava de fato empoeirada e havia aqui e ali uma bolinha de papel, os cestos de lixo estavam pela metade. Nada comparado a uma sala de aula de escola pública.
Cinco minutos depois, apareceram duas meninas, vestidas com o inconfundível uniforme azul marinho. Digo meninas porque não deviam ter mais de vinte anos. Uma delas estava com uma barriga de uns sete, oito meses. Em menos de dez minutos deram uma geral na sala e saíram sob os olhares de reprimenda. Pobre é sempre invisível, quando é visto, é  pra levar uma esculachada.
Com os imprevistos, a fala da Profª Drª Elke Veyne, que abriria o congresso, acabou ficando para depois do almoço. O segundo palestrante começou a falar e o congresso seguiu adiante. Seriam três dias do mais puro blá blá blá: o ser, o nada, a opressão, etc... etc... etc... Eu já estava com o espírito preparado. Meditava feito um Buda: ommm, ommm, ommm...
Quando saímos para almoçar, vi as duas meninas chorando numa mesinha ao sol. Os outros não viram. Como disse anteriormente, pobre é invisível.  Os professores pegaram suas carteiras no carro e foram a pé almoçar num restaurante vegetariano. Preocupavam-se com as vacas e os porcos, mas fodiam a vida das faxineiras, era normal. Falei que ia comer no restaurante universitário mesmo, era mais barato.
- Ele ainda não se conscientizou – Disse Jacques Françoise à amiga.
- É um crime se alimentar de outros animais – ela emendou.
- Vou comer só a salada então.
Os dois foram para um lado e eu fui para o outro.
Sentei na mesinha com as faxineiras.
- Que aconteceu?
A grávida não parava de chorar.
A outra também estava triste, mas encontrou forças para responder.
- Levamos uma semana de suspensão. Sem pagamento.
A grávida sussurrou...
- Sem esse dinheiro não vou conseguir pagar a prestação do enxoval do bebê.
Se tivesse mais dinheiro, teria dado a ela naquele momento. Olhei a carteira. Exatamente setenta e oito reais. Doei, era tudo o que eu tinha. Não quis aceitar, a princípio, mas acabou pegando. Qualquer ajuda era válida naquele momento.
Fiquei indignado, brabo feito siri na lata. Como é que uma filha da puta daquelas, que talvez nunca tivesse arrumado a própria cama, que nunca tinha lavado uma louça, trocado um chuveiro, filha de fazendeiros do Rio Grande do Sul, fodia a vida das meninas daquele jeito e depois subiria num palco, na maior cara de pau, para falar de opressão?
Eu tinha de fazer alguma coisa, mas o quê? Deus às vezes se veste de acaso. No caminho de volta ao carro, encontrei um bloco de quinze, marcando, ali, no chão. Estavam reformando o refeitório. Peguei-o. Fui até o carro, abri a mala da Profª  Drª Elke Veyne. Ela tinha levado a bolsa, mas deixado a mala. Havia roupas e uns dois ou três livros. Apanhei o maior deles, O segundo sexo, de madame Simone de Beauvoir e coloquei o bloco no lugar. Fechei a mala. Não tranquei o carro. Em qualquer caso, este esquecimento seria minha prova de inocência. O carro aberto, Campinas anda cheia de delinquentes. Deixei o livro numa das mesas da biblioteca e fui almoçar.
À tarde, fiz questão de chegar atrasado à comunicação da Profª Drª  Elke Veyne. Mesmo assim pude ver o bloco de quinze no canto da mesa, junto a dois outros livros, enquanto a profe discursava:
- Provedora, vassala, acolhedora. Não importa como se apresenta, o lugar da mulher sempre foi definido pelo homem. Este configura a posição central na sociedade e...
E dá-lhe resenha, ainda faltavam dois dias e meio.
Sorri. A vingança é um prato que se come em qualquer temperatura: congelado ou queimando a língua.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

BERGMAN E O IDIOTA

Sou cinéfilo, vejo de tudo: de Chaplin a Michael Haneke, com um bom filminho de terror no meio para quebrar o gelo. Admiro os anjos de Win Wenders, as revoluções de Hitchcock: matar a mocinha com trinta minutos de filme, fazer todo um filme numa só tomada; revejo sempre Jules e Jim e Os incompreendidos; Goddard, o primeiro; e Buñuel, e Tarkóvsky, e Mallick, e Peckinpah, e Ford. Agora, o meu cineasta predileto é o sueco Ingmar Bergman, não só pelo modo como filma um rosto, mas por sua visão de mundo, sua descrição angustiante das relações humanas. Sou cinéfilo, já disse, vejo de tudo, mas não tenho qualquer critério, não ficho nem catalogo os filmes a que assisto. Às vezes, durante uma conversa, misturo trechos de filmes distintos, confundo-me; quando vejo, estou citando passagens da minha vida como se fosse um filme, um livro. Talvez nisso consista a criação, na absorção do caos em contraponto à organização do pesquisador. Tudo vai sendo absorvido e acaba por repousar no fundo do pântano. De repente, vê-se um cego mascando chicletes e uma pressão insuportável, que nos vem das entranhas, empurra um mundo novo à tona: é a epifania, ou a inspiração. Impossível ao artista não fazer arte neste momento. Deus que me livre dos operários da arte, daqueles que; faça chuva, faça sol; escrevem das 8:00 às 17:00. Estive em algumas firmas e posso garantir que essa é a disciplina da fábrica, a disciplina da arte é outra.
Mas estou me dispersando, quero falar de Bergman, mais precisamente de O Sétimo Selo, mais precisamente ainda de um aspecto do filme: o idiota. Em Bergman há a esperança, às vezes, mas ela está sempre com o idiota, com os simples e pequenos, com os artistas mambembes. Em sua autobiografia, A Lanterna mágica, Bergman descreve o início de seu amor pelo cinema. Na infância, quando cometia qualquer travessura, seu pai, um rígido Pastor calvinista, o trancava num armário escuro. Começava aí o medo que exala de todas as películas bergmanianas: medo da morte, da doença, da falta de amor, de fantasmas. O menino, com o tempo, ganhou uma lanterna e passou a levá-la consigo, às escondidas, para o armário e com ela acesa sobre o movimento das mãos projetava sombras na parede, o que o distraía e afastava o medo; geralmente pensava em espetáculos de circo, em palhaços, carrosséis, em coisas alegres que espantavam o terror. Começava aí o amor pelo cinema, a admiração pelo palhaço, o idiota, o artista mambembe. Desde Noites de circo à obra-prima O sétimo selo, a redenção, quando há redenção, encontra-se do lado do idiota.
Bergman não foi o primeiro a dar ao idiota o status do salvador, do portador da esperança. Já na Bíblia, o Cristo exorta-nos para que sejamos como crianças, para que ofereçamos a outra face, não guardemos ressentimento. E Dostoiévski criou o príncipe Mishkin, de O idiota, na tentativa de representar o ser humano perfeitamente belo e seu naufrágio nos escolhos da feiura humana. Há ainda o Bartleby, de Melville e o Jesus de O anticristo, de Nietzsche.
Segundo Peter Solterijk, o idiota é um anjo sem mensagem e “Mesmo sua entrada tem o caráter de uma aparição – não porque ele representasse neste mundo um clarão transcendente, mas porque, no centro de uma sociedade de fazedores de papéis e de estrategistas do ego, ele encarna uma inesperada ingenuidade e uma desarmadora benevolência. Quando ele fala, não é jamais com autoridade, mas unicamente com a força de sua franqueza.” N’O anticristo, que seria muito melhor nomeado se se chamasse anticristianismo, ou antipaulo, Nietzsche, entre uma farpa e outra, deixa escapar certa sedução pela falta de ressentimento do personagem Jesus. Ainda segundo Sloterdijk: “Sua moral é sua incapacidade de golpear de volta. Esse é o traço que deveria interessar Nietzsche na suposta idiotia de Jesus, porque ele encarna de maneira pueril, o ideal da vida elevada e sem ressentimento – não, é claro, do lado do Eu ativo, mas do acompanhante que encoraja e completa.” Deixemos de lado o caso de agir de acordo com a vontade de potência que caracteriza a moral do Senhor e é defendido por Nietzsche, não é o que nos interessa aqui.
            Voltemos ao Bergman, mais precisamente ao Sétimo Selo. No que se refere à idiotia, a obra pode ser vista como um paralelo sombrio do Dom Quixote de La Mancha, outro idiota, no sentido que estamos construindo neste artigo. Remetendo ao Dom, temos o cavaleiro e seu escudeiro como contrapontos da forma de encarar o mundo. Da mesma maneira que no livro de Cervantes, o pragmatismo crítico do escudeiro revela um conhecimento do mundo distante dos questionamentos e indagações do cavaleiro sobre a morte e o sagrado. Com uma visão ácida, porém justa, o escudeiro não procura respostas, já as possuí pela experiência de vida, portanto não tem medo de enfrentar a própria morte. Assim como Sancho, sabe transitar entre o mundo da taverna, das brigas, da peste, da morte e o mundo quase sublimado e filosófico em que está o cavaleiro.
            Em todos os seus filmes, mesmo os menores, espanta-nos a coragem com que Bergman enfrenta e faz autópsia dos nossos sentimentos mais sombrios. Desde as irmãs que se recusam a entrar no quarto da irmã enferma - tarefa executada por uma empregada que, depois da morte da moribunda, é despedida - ao pai escritor, que espera a total deterioração mental da filha para usar em sua arte.
            A maioria dos filmes do diretor sueco termina mal, tal qual um rito – outro Bergman tremendo - sem esperança. Não é o caso d’O Sétimo Selo. No filme, a humanidade inteira é redimida e salva da caçada da morte pela família de artistas mambembes. São os únicos que escapam. Na cena final: amanhece, os pássaros cantam, a carroça está parada junto ao mar com o pai, a mãe e o bebê. De repente, o pai para, olha o horizonte e diz: “Mia, eu os vejo, Mia – toca-se um tambor – Lá no céu tempestuoso. Todos eles, o ferreiro e Lisa, o cavaleiro, Raval, Jon e Skat e a severa morte os convoca para dançar. – aqui a influência sempre presente de Strindberg: A dança da morte – Quer que todos deem as mãos para formar uma longa fila. A Morte vai na frente com a foice e a ampulheta... Mas Skat vai atrás com sua lira. Eles vão dançando, se distanciando do sol... Em uma dança solene. Dançam rumo a escuridão e a chuva cai em seus rostos... Lavando as lágrimas salgadas da face.” Os pássaros cantam o pai permanece olhando embasbacado o horizonte, até que a mulher o restitui à realidade: “Você e suas fantasias.” O bebê balbucia alguma coisa. O homem pega as rédeas e conduz a carroça rumo ao futuro: pleno de esperança, mas sem esquecer os mortos que ficaram pelo caminho.
Agora que termino este texto, lembrei de duas coisas, o bobo de Rei Lear e o romance Pedro Páramo, de Juan Rulfo, mas eles ficam para uma próxima ocasião. Viremos a ampulheta. Até breve.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

CARNEIRO, CONSERVADOR E COPEIRO - NESSA ORDEM

Não há filósofos no Brasil, apesar da pose. O filósofo cria conceitos. Não conheço conceito criado por brasileiro. Tudo o que obraram Marilena Chauí, Oswaldo Giacoia ou Scarlett Marton vale menos que a obra de um cachorro vira-lata na calçada. Daí o nosso amor pelos especialistas. É o que temos: especialistas. Se houver, em qualquer universidade, uma palestra com Deus, pode ter certeza de que estará vazia. Se a palestra for com um especialista em Deus, vai ter gente pendurada no lustre.
Volto ao bom baiano: Se tiver uma boa ideia, faça uma canção; pois já está provado que só é possível filosofar em alemão. Recorro então ao Síndico, não exatamente numa canção, mas num diagnóstico certeiro sobre o Brasil. Disse Tim Maia, certa vez: “Esse país não pode dar certo; aqui cafetão tem ciúme, puta se apaixona, traficante é viciado e pobre é de direita.” Interessa-me, para esta crônica, a parte final da sentença: o pobre de direita.
Fiz toda esta introdução para chegar ao Carneiro. Não sei seu primeiro nome, mas todos os chamam de Carneiro e Carneiro apenas. Ele trabalha como copeiro na padaria onde tomo café todos os dias e onde, de vez em quando, almoço.  É um excelente profissional. Como é calvo, mantém a cabeça impecavelmente raspada, assim como a barba e ainda usa gorro para provar que com higiene não se brinca. Seu avental e seus panos de prato estão sempre brancos, de uma brancura de comercial de sabão em pó omo; o qual ele compra com dinheiro do próprio bolso quando o patrão, para economizar, compra sabão de marca mais barata. A qualquer hora do dia que você for à padaria, será muito bem atendido pelo Carneiro. Trabalha todos os dias das cinco da manhã às onze da noite, exceto aos domingos quando sai às seis para ir ao culto da Igreja que frequenta. Olhando assim parece o perfeito homem de bem, um exemplo. Mas Carneiro é humano e, como todo ser humano, tem defeitos. O copeiro gosta de política e de falar de política. Nunca foi às ruas, nem bateu panela, acha que isso é coisa de vagabundo. No dia 02 de outubro, entretanto, 1º turno das eleições municipais, fui almoçar na padaria. Ele chegou para me servir, tem seus clientes preferenciais e eu sou um deles.
- E aí, professor, já votou no João trabalhador?
- Cê é louco! E eu vou votar em gente que faz plástica - brinquei.
- Sem brincadeira professor, é o melhor candidato. Sempre existiu rico e pobre. O rico gera emprego, o pobre gera o quê? Quanto mais fortalecido o rico está, melhor para o pobre também, que tem onde trabalhar, ganhar seu dinheirinho. Veja essa turma toda do PT, além de serem um bando de ladrões, ficam dando dinheiro a torto e a direito pra quem não quer trabalhar, porque serviço sempre tem, nem que seja pra catar latinha. Agora o Senhor acha que com uma merreca garantida o cara vai querer pegar no pesado? Nada, passa o dia no boteco e no final do mês tem um qualquer na conta.
- Você está falando do bolsa família certo? As pessoas falam demais o dinheiro é muito pouco, não dá pra sobreviver.
- É, não dá, mas eles ganham bolsa daqui, leite dali, uniforme para as crianças irem pra escola e depois não colocam o uniforme nas crianças, fazem as camisetas de pano de chão, usam uma vez e depois jogam fora, nem lavam. Quem não sabe quanto custa as coisas, esbanja. E tem outros benefícios também, até pra preso. Não dá para entender. Só de uniforme da minha filha, esse ano, gastei quase quatrocentos reais. Graças ao bom Deus consigo pagar escola para ela não ter de se misturar com essa molecada aí da favela da água vermelha.
- É um processo longo, Carneiro, é preciso conscientizar o pessoal.
- E isso se conscientiza nada? O cara passa vinte anos morando na casa, faz gato, não paga água nem luz e não passa nem um cimento pra cobrir o tijolo, vai se conscientizar do quê?
- E o que você sugere então, Carneiro?
- Cortar a moleza. Tudo quanto é moleza. Quem trabalha come, quem não trabalha não come. O mundo sempre foi assim. Só essa turma aí que andou no governo que pensou em fazer diferente. Tirar de quem trabalha e dar a quem não trabalha. Nunca vi isso. Eu, por exemplo, não pude estudar, mas trabalho aqui dezoito horas por dia. É puxado, mas tenho meu carrinho 2005, minha casa está sempre pintadinha, a menina estuda em escola particular, e ainda consegui fazer um planinho de saúde mais ou menos. Vou dizer que tá ruim?
- É Carneiro, meu camarada, seu esforço é louvável; mas não seria melhor se houvesse hospitais e escolas de qualidade pra todo mundo? E, assim, você não tivesse de trabalhar tanto. A vida é curta demais, você não vive, só trabalha.
- Cabeça vazia é oficina do diabo. E tem mais, a saúde anda ruim mesmo, mas as escolas não. A turma ganha de tudo e não quer saber de nada. Vai pra escola pra fumar maconha e fazer bagunça, desrespeitar o professor, o Senhor sabe, ué? No meu tempo, tive de sair da escola porque não tinha dinheiro nem para os cadernos... Caderno o quê, nem para as canetas.
- Como falei antes, precisamos conscientizá-los e fazer da escola um lugar mais atrativo.
- Fazer da escola um lugar mais atrativo? Libera o funk, as drogas e a bebida, pra você ver se não lota, professor. O país está assim, porque ninguém faz o que devia. Quem deve governar, rouba; quem deve trabalhar, bebe pinga; e quem deve estudar passa o dia fumando maconha...
Continuaríamos conversando, mas era horário de almoço, e o patrão gritou do caixa.
- Como é ó Carneiro? O povo está a esperar, vais ficar daí batendo papo?
- Já vou patrão...
Carneiro piscou o olho pra mim e falou baixinho:
- 45.
Sorri. Quando se consegue colocar na cabeça de uma pessoa que ela deve trabalhar 18 horas por dia para ter direito ao básico, tudo está perdido. E essa mistura de Igreja e meritocracia tem conseguido isso. Enquanto esperava meu pedido chegar, comecei a cantarolar baixinho: “Eu vim aqui para lhe dizer... Eeeeeu vim aqui pra lhe dizer, que eles agora estão numa tranquila, numa relax, numa boa, lendo os livros da cultura racional: Guiné-bissau, Moçambique e Angola.” Só a cultura racional mesmo pra dar jeito. Aqui cafetão tem ciúme, puta se apaixona, traficante é viciado e pobre vota no João trabalhador

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

GAY FRUSTRADO

Durante certo tempo, costumava conversar muito com o professor Jacques Françoise, aquele que usa cachecol tanto no inverno quanto no verão. Não o considero má pessoa. O problema com ele foi ter passado toda a vida na universidade, esta linha de produção de idiotas. Cedo terminou a graduação, daí foi direto para o mestrado, do mestrado para o doutorado e do doutorado para o pós-doc e, assim por diante. De modo que não teve opção: tornou-se um idiota. Tem bom coração até, mas é, irremediavelmente, idiota. O único pecado que podemos lhe atribuir é o fato de gostar do mundo acadêmico, o qual premia os idiotas e justifica a máxima de Cioran: “profundidade e erudição jamais andam juntas.”
            Quando não há outro professor por perto, Jacques Françoise, aquele que só filosofa depois que põe o cachecol, até que é uma pessoa bem gentil. Se há professores, passa para a outra mesa. Entende que deve haver uma hierarquia. Não diz explicitamente, pois poderia soar reacionário e isto é o que ele menos deseja, mas o pensamento, para ele, se dá em graus. Graduandos devem se sentar para pensar com graduandos; mestrandos com mestrandos; doutorandos com doutorandos e, assim, sucessivamente. De modo que, quando não há outro professor por perto, ele trata as pessoas com toda delicadeza, faz até piada; abre-se; conta até episódios de sua vida particular, uma beleza. Quando, entretanto, aparece outro professor, seus modos mudam instantaneamente, como se apertasse um botão em algum lugar... Ele ajeita o cachecol e, sem mais nem menos, torna-se rude, irônico, dá patadas, às vezes fica até agressivo com seus orientandos. Agora mudança mesmo se dá quando vem um professor, qualquer professor, de outro país, principalmente da França... Aí Jacques Françoise fica feito um menino de recados. Carrega até as malas do visitante.
            Num dia em que não havia nenhum outro professor, nacional ou estrangeiro, por perto, Jacques e eu nos sentamos para almoçar juntos. No fundo gostava de mim, morria de rir com meus trocadilhos mais bobos, com minhas piadinhas de português. Ele estava eufórico neste dia e falava do melhor período de sua vida: a primeira viagem à França. Ajeitou o cachecol, contou das pessoas que conheceu, das aulas com os figurões da filosofia. Esquecia a comida vegetariana no prato e falava... Falava... Falava... Feito um menino. De tanto falar. Acho que, sem perceber, entrou no terreno das confissões:
            - Sabe, foi lá em Paris, nesta primeira viagem, que pela primeira vez tentei ter relação com um homem. Todo mundo era gay. Ser homossexual era um ato político, carregava toda uma energia contra o patriarcado, o Estado, a Igreja. Era um ato de rebeldia, não deixávamos que as leis se inscrevessem em nossos corpos, sequer as leis da biologia.
            - É?
            - É.
            - Mas, Jacques, você disse que tentou. Que aconteceu? Não conseguiu?
            - Ó, mon cher, acho que nunca senti tanta dor na minha vida. Quando senti o início da penetração, dei um pulo de uns três metros de altura, bati a cabeça no teto, quebrei o lustre.
            - Mas você não tinha desejo? Não seguia o desejo?
            - Ah, querido, eu era muito jovem, não sabia muito bem o que desejava, mas não podia ver um rabo de saia. Adorava as mulheres e as francesas, então, são tão charmosas. Sempre fumando elegantemente nos cafés, com um jeitinho blasé.
            - E você não se envolveu com nenhuma menina no período?
            - Claro que não, você não entendeu, fazer sexo era fazer política.
            - Mas você não tinha o desejo e tudo. E como temos estudado nO Anti-Édipo... A questão do desejo... Não entendo.
            - Somos héteros porque o Estado, a tradição, a família nos faz héteros, condiciona nosso desejo. Na verdade, não é isso realmente o que desejamos.
            - Não?
            - Não.
            - Mas você não disse que tentou ter relações com homens e não conseguiu?
            - Pois é, não consegui.
            - E não disse que era doido por um rabo de saia?
            - Disse.
            - Então não entendo mais nada.
            - Não é para entender mesmo, você é muito jovem, está apenas na graduação, com o tempo, quando tiver lido mais Foucault, Deleuze, Guattari, talvez, talvez, compreenda alguma coisa...
            Terminamos a refeição. Caminhamos um pouco. Sentamos num banco. O professor queria fumar. Retirou o fumo do saquinho e fez um cigarro: tabaco orgânico, muito bom, sabe.
            Enquanto o professor Jacques Françoise fumava, ousei...
            - Professor, posso fazer uma pergunta?
            - Claro.
            - E o Senhor tentou mais alguma vez?
            - O quê?
            - Ter relações com homens?
            - Pufff, se tentei. Tenho tentado a vida toda, mas nunca consigo. Às vezes tento chupar, mas os caras reclamam, dizem que eu os arranho com os dentes, que não levo o menor jeito.
            - Continue tentando. A persistência é a alma do negócio...
            - Será que senti uma pontinha de ironia?
            - Que é isso, professor? De minha parte não, jamais.
            Terminou o cigarro.
            - Uma última pergunta, professor, posso?
            - Voilá, hoje você está impossível, parece um menino de oito anos. Vai, o que é?
            - E quanto às mulheres?
            - As mulheres são meu carma, filho, vira e mexe estou enrolado com alguma, não consigo me livrar; é como um vício, sabe, uma adicção, como o alcoolismo. Acho que vou fundar um grupo de ajuda mútua, nos moldes do A.A. doze passos, reuniões de duas horas, com depoimentos de dez minutos, para homens que não conseguem deixar de gostar de mulher.
            - É uma boa ideia, Jacques, uma boa ideia.
            E saímos caminhando rumo à universidade, essa usina do saber, essa Itaipu do conhecimento.