sábado, 14 de janeiro de 2017

Um fantasma com gosto de camomila


Ouvindo Sad eyed lady of the Lowlands, de Bob Dylan

Quando conheci Ângela, ela tinha trinta e dois anos e eu tinha dezesseis, talvez dezessete. Havia dois dias que eu não comia nada de sólido. Estava tentando ser escritor numa cidade grande, mas tudo o que tinha conseguido fazer até então, fora escrever alguns poemas e trabalhar nos finais de semana num lugar imundo, com um banheiro nojento, chamado Caverna do Rock. Aquele era um lugar das trevas, várias pessoas já haviam se matado, ou matado alguém lá dentro. O que me lembro é que eu tinha uma camiseta do Van Gogh, uma bermuda e uma calça. No dia em que nos conhecemos, eu estava tentando dormir, já um bocado embriagado, num dos bancos duros da Caverna, quando ela chegou perguntando por uma tal de Aline, ou Amanda, ou algum nome assim. Falei que nem sequer imaginava quem era essa pessoa e aí tornei a dormir. Ela me acordou de novo. Parecia ter passado a noite numa daquelas farras que deixa as pessoas com olhar de peixe morto, ou peixe vivo... Enfim, com uns olhos bem estranhos, tipo Modigliani.
- O que você vai fazer hoje?
- Hoje eu ainda não sei, por enquanto, estou tentando dormir.
- Você não tem nada em cima aí não, tem?
- Olha dona, tem dois dias que não como, porque não tenho dinheiro, daí a senhora já imagina, que, se eu tivesse alguma coisa em cima, não estaria numa situação dessas. 
- E essa camiseta?
- É a noite estrelada, do Vincent.
- Eu sei porra, você gosta? É difícil um menino na sua idade gostar dessas coisas.
- Pois é, mas eu gosto.
- Bom pra você – ela disse e acendeu um pensativo cigarro. Eu, do meu lado, já não conseguia dormir, porque ela era bonita. Fiquei lá deitado com meus olhos olhando pra ela, até que me perguntou: - Vem comigo, quero te pagar um café. Levantei num pulo e pedi pra ela esperar só mais um pouquinho, porque eu era um rapaz muito asseado e precisava escovar os dentes.
Então nós entramos no carrão preto dela e andamos por uns trinta minutos até encontrar uma bela padaria, onde tomamos um opíparo café da manhã, com direito a frios, pães, frutas, geleia, suco, leite, café. Eu me fartei, porque tinha mesmo que encher o estoque da barriga, não sabia quando e nem de onde viria a próxima refeição. Ela me falou de livros. Disse que eu deveria ler o Ariel, de Sylvia Plath. Eu disse que queria ser escritor. Ela me falou de Joni Mitchel. Eu disse que estava aprendendo Bob Dylan. Ela me falou de Milton Nascimento e Frida Kahlo. Eu disse que tinha lido umas trinta vezes o Pequeno Príncipe. Ela me falou que eu tinha talento e tempo. Eu disse que tinha medo. Ela me disse que tinha um filho a quem não via havia uns cinco anos. Eu disse que ainda era muito jovem e que não era ninguém pra dar conselhos a quem quer que fosse, mas que ela devia ir devagar com as drogas. Ela sorriu um riso triste e disse que os sinos estavam enferrujados, mas que o natal estava chegando.
E aí nós decidimos ir ao parque, caminhar um pouco e ver alguma exposição no museu de arte moderna. Eu concordei. E nós fomos, e foi um dia bonito, e ela pagou o almoço também, e nós conversamos mais um pouco, e parecíamos mesmo velhos conhecidos de mesma idade. No fim da tarde, ela me deixou na Caverna e me deu um pequeno beijo, sem língua nem nada e eu não pude acreditar que tinha beijado aquela mulher. Não mesmo.
***
Da segunda vez que encontrei Ângela, eu estava trabalhando como cortador numa confecção. Ainda não era o artista que imaginara na adolescência, mas já tinha escrito um pouco mais. Foi no final dos anos noventa e eu já conhecia algumas coisinhas a mais sobre arte, cultura e essas coisas todas, que são mesmo as únicas coisas que me interessam neste mundo escroto. Ela estava fumando outra vez o seu pensativo cigarro num ponto de ônibus. Era mesmo ela, mas tinha envelhecido um bocado e eu cheguei a estranhar que ela estivesse esperando o ônibus, afinal de contas, da última vez que nós havíamos nos visto, ela tinha aquele seu tremendo carrão.
- Oi Ângela – falei – sorrindo aquele meu velho sorriso tímido de quem procura ser aceito. Ela ficou olhando meu rosto como se estivesse tentando se lembrar de onde me conhecia.
  - Não se lembra de mim? 
            - Pra dizer a verdade, até que me lembro, mas não sei de onde. E aí eu lembrei pra ela todo aquele episódio da Caverna do Rock... E do café da manhã... E do passeio... E do parque... 

            - Nossa cara, você está diferente, agora é um homem. Está bem. Ficou um cara bonito. 
            Eu disse que ela continuava linda. Ela sorriu e disse que aquilo era generosidade minha. Era engraçado, mas ao lado dela, eu sentia como se tivesse cinco anos, junto da primeira namorada, que nem mesmo namorada era, mas que eu amava, como um menino ama a Maria, mãe de Jesus. Perguntei se ela tinha tempo para um café. Disse que estava indo a uma reunião de narcóticos anônimos e não gostava de chegar atrasada. Insisti. Tudo bem só um café, ela disse.
Na padaria, contou-me que tinha perdido o controle e todo o resto com as drogas. Mal tinha o dinheiro para o ônibus, contudo agora se sentia melhor. Havia quatro meses que não usava qualquer substância que lhe alterasse a consciência. Então sorriu meio de lado, como se estivesse se desculpando de alguma coisa e eu não pude resistir e ajeitei, com todo o carinho que as minhas mãos poderiam ter, os cabelos dela atrás das orelhas. Ela continuou sorrindo daquele jeito, como se chorasse por dentro, e eu senti um tremendo nó na garganta e fiquei com uma puta vontade de agarrá-la e beijá-la e dizer que a amava com todo o meu corpo e a minha alma e que ela não precisava mais ter medo, porque eu cuidaria bem dela pra sempre e ninguém nunca mais iria fazê-la sofrer, porque eu não deixaria. Entretanto, nada fiz. Timidez, ou sei lá o que. Pra mim ela não era mulher, era quase que uma divindade. É muita pretensão sonhar casar-se com uma deusa. Nos despedimos de um jeito triste. Em silêncio. Eu tinha mesmo dentro de mim cinco anos. Nem sequer telefone trocamos. O ônibus levou ela embora. Havia luzes acesas dentro do ônibus e eu a vi passando pela catraca e ela me lançou um último sorriso. Do lado de fora do ônibus, onde eu estava, era tudo noite e só noite.
***
Quando encontrei Ângela pela terceira vez, mal pude reconhecê-la. Foi ela quem me abordou. Eu estava passando por uma praça no centro da cidade e quase não parei quando aquela mendiga tentou me segurar pelo braço.
- Vai dizer que não está me reconhecendo?
Fiquei olhando aquele rosto sujo. Com aquela boca faltando alguns dentes. E só com muito esforço foi que consegui reconhecer alguns traços da Ângela que eu havia conhecido atrás daquela máscara de dor e mágoa.
- O que aconteceu? - Fiz a besteira de perguntar.
- Ó cara, nem me pergunte uma coisa dessas, por favor não me pergunte o que aconteceu. Aconteceram tantas e tantas coisas ruins. Mas você... Você... Graças a Deus... Está ficando mais bonito a cada dia que passa!
- Bondade sua.
- Bondade nada... Me conta... E as novidades...
Foi aí que contei pra ela que agora trabalhava como tradutor e estava pra lançar o meu primeiro livro. Tinha me casado e meu filho estava com catorze dias. Não devia ter falado do filho. Seu rosto se tornou ainda mais dolorido e ela abriu devagar a boca pra dizer:
            - Eu é que nunca mais vi meu filho. - O espinho prateado da rosa ensanguentada agora devia ser um homem. Pelo menos foi o que ela disse.
Levei-a até um bar e paguei-lhe um lanche e um suco. Ela não conseguiu comer nem a metade da comida. Perguntou se eu podia dar-lhe algum dinheiro. Eu disse que, se ela quisesse, poderia conseguir uma internação em alguma clínica de recuperação, ou coisa assim. Ela sorriu outra vez, aquele riso triste de sempre. Balançou a cabeça baixa e disse como alguém que já não tivesse mesmo a menor esperança.
- Não adianta.
 Perguntou de novo se eu tinha algum dinheiro. Dei a ela uma nota de cinquenta reais. Seus olhos brilharam. Ela apertou o dinheiro com força na mão direita e então me deu outro pequeno beijo na boca. Aí inventou uma desculpa e atravessou a praça quase que correndo. Não podia conter a ansiedade e o desejo da droga. Pobre Ângela. Eu atravessei a praça, entrei na catedral, ajoelhei-me e fiz uma prece por ela, e por mim, e por todos os desajustados desse planeta. Estranhamente, o beijo dela tinha gosto de camomila.



terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Piedade para o Demónio

         
   - Vê, agora faltam pedaços. Os pedaços que você arrancou – ela diz, nua, de pé ante o espelho. O dedo indicador percorrendo o vale onde antes ficava o seio esquerdo.
     -Não é prudente se colocar entre o drogado e sua droga.
      - Aqui também não há mais nada – vejo pelo reflexo no espelho a mão direita entrar na barriga, os dedos apontam na dorsal. – Também nada no coração. Você sempre consegue, não é? Destruir tudo?
       - Não era eu, irmã.
     - Agora não importa, a polícia está a caminho. O que é que você sabe sobre maracujás e criar filhos? Porra nenhuma!
        A cidade acorda. Caminhões, carros de passeio, de polícia, de bombeiro, trens de carga ao longe e, mais ao longe ainda, o mar e a fuga impossível. Ó manhã-cascável, mil guizos na cabeça de pedra. Ó manhã-medusa, mil chocalhos velando o corpo morto do amor.
      Ele se levanta de cuecas. Olheiras fundas de quem não pregou os olhos a noite inteira. Olha o caixãozinho branco. As flores. O menino Jesus. Daria tudo pelo frescor do passado. Daria tudo pelo riso dos primeiros dias. O tempo tem vasto poder de destruição. Quando morria no olho do sonho, a esfinge aconselhou, sentada, tranquila, no alto da roda. 
           - Só há uma saída: siga o rio enquanto ele desce, no exato ponto em que começar a subir - e o rio que sobe encontrar o rio que desce - você deve atravessá-lo. É o único modo de escapar.
            Nem tentou. O encontro dos rios é a porta do inferno.
       Gosto estranho; na boca, um pássaro recém-nascido e já morto, caído do ninho, os olhos cinzentos, o bico do bicho pegado à língua suja de carvão. Formigas fazendo seu trabalho. Tenta se desvencilhar do pássaro, ele bate as asas molhadas, doces, sem penas; ainda está vivo, mas não por muito tempo. A língua sangra. Soltam-se. Ele sopra o bico do passarim. - Por favor, não morra mais nada nesta manhã! Já perdi pais, irmãos, amores, amigos, filhos, bichos de estimação. Sobreviva ruiseñor! Não quero perder meu pássaro. Arqueja o peito frágil. Procura o ar para teus pulmões de passarinho. Lembra do mel que tua mãe colhia pra te fabricar nas entranhas-mistério de fêmea. 
        Não há o que fazer. 
     Ele deixa o pássaro cair também ao chão. Três gatos se aproximam para cheirar o cadáver. 
   Se pudesse, faria como ela, enfiaria os dedos por dentro do crânio e arrancaria a massa lá de dentro com as mãos: escorpiões que se amontoam, serpentes entrelaçadas, escuridão, lacraias, culpa, remorso, desespero, manhãs.
            - Você teve o melhor esboço, mas rasgou o papel.
            - Não sou eu, é o outro que mora em mim.
            - Teu cu.
            Uma viatura para na frente da porta do hotel, portas abertas.
            - Essas porras desses viciados só dão trabalho, fazem barbaridades quando estão chapados.
            - Deveríamos agradecê-los. Sem eles, não teríamos nosso trabalho!
            Na entrada do prédio em ruínas, o poeta louco português grita, sob as faixas do MTST:
            “Piedade para o Demónio, piedade para a solidão demoníaca... Eu conheço o silêncio do carrasco. Conheço a irremissível solidão do Demónio. Na Holanda, o Demónio é negativo. Está no meio das vacas: não escreve poemas, não pode exercer os dons. Pensa, perde o nome. Quem esperaria dele que trabalhasse a terra ou protegesse as alimárias?”
            Não estavam na Holanda, mas em São Paulo – locomotiva de todos os horrores.
            Profundo é o medo das manhãs, que nada tem a ver com a polícia.


sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

O GÊNIO POÉTICO


Em minhas últimas crônicas, tenho tratado do gênio filosófico, especificamente encarnado na legendária figura de Jacques Françoise, aquele que pensa pelos cachecóis. Reconheço que Jacques não é tipo de fácil trato, o que é muito normal para quem teve aulas com Guattari, Deleuze, Derrida e é amigo pessoal de David Lapoujade, Peter Pál Pelbart e de toda a língua do P. Devo dizer, todavia, que, com o tempo, aprendi a lidar com ele e chegamos inclusive a nutrir mútua afeição até o desfecho desastroso; o qual não pretendo abordar nesta crônica. Jacques era fã do elogio. Para se dar bem com ele, bastava soprar-lhe o ego feito balão vermelho e nunca, jamais, sob hipótese alguma, contrariá-lo. Nosso grupo de estudos se reunia ao redor de uma mesa de madeira maciça, quadrada; pois, se Jacques Françoise afirmasse que a mesa era um jumento, eu dizia: - Tens razão, amado mestre, acabei de vê-la dar um coice ainda há pouco, por um triz não mo acertou justo nos culhões. 
Outra estratégia de notável utilidade era desaparecer quando, em um congresso, ele sentia que ficava por baixo em uma discussão. Saía do auditório de chibata em punho, doido para achar um orientando e descontar a raiva.
            Aprendi muito sobre cachecóis e vida alheia com Jacques Françoise; mas, hoje, não é dele que quero tratar. Salto, portanto, do gênio filosófico, para o gênio poético. Assim como o gênio filosófico, o gênio poético não é menos genioso. Sempre recebi em casa escritores de outros estados ou cidades de passagem por São Paulo. Fiz grandes amigos, como, por exemplo, o Anderson Fonseca que, recentemente, lançou o seu excelente Sr. Bergier e outras histórias. Vez por outra, entretanto, aparece por aqui um gênio genioso. Descreverei, se houver espaço, dois casos nesta croniqueta. Primeiro vos apresentarei Archiello Mariel, o folgado; em seguida, Cornélio Cunha, o deprimido.
            Conheci Archiello Mariel por intermédio de minha mulher, Márcia Barbieri, aquela que escreveu o best seller A puta. Mal fomos apresentados e ele logo me informou que morava no litoral e nos devia uma visita a qual pagaria imediatamente no próximo final de semana, pois não gostava de dever nada a ninguém. Sábado seguinte, de manhã, fui buscá-lo na rodoviária. Mal entrou no carro, Archiello Mariel afirmou que tomaria conta da minha carreira literária a qual, em breve, decolaria. Prêmios, eu só ganharia do José Saramago para lá. Para começar ele faria um documentário comigo. No sábado mesmo, pois pretendia ficar um único dia em São Paulo. Se tinha tanta influência assim por que é que andava naquela tremenda pindaíba? – Pensei de mim para comigo – a camisa sem botões, o sapato furado. - Por que não usava seu poder em benefício próprio? – Escrúpulos, meu caro, não ligo para tais coisas, sou um poeta, meus valores são mais elevados.
Ao chegarmos a casa, o almoço estava pronto. A Márcia pediu que ele se servisse.
            - Por favor, ponha para mim, sou um tanto quanto tímido, rá, rá, rá.
            A Márcia o serviu:
            - Assim está bom?
            - Mais um pouquinho
            Ela colocou mais um pouco de batata e carne.
            - Não, não, agora foi demais.
            Márcia tirou o que tinha colocado.
            - Agora sim. Escuta, vocês não têm um aperitivo aí não?
            Respondi que no momento não estava bebendo e não tinha uma garrafa sequer em casa.
         - Que pena! Pois eu não como sem um aperitivo. Daniel me acompanha até o bar mais próximo, meu caro? É coisa rápida.
            Tomou uma caipirinha. Na hora de pagar, pediu que eu acertasse, tinha esquecido a carteira em casa.
            - Um litro de vinho também não faz mal a ninguém. Pegue um litro do tinto. Em casa acertamos, querido poeta Guaccaluz.
            Voltamos.
            - Tem uma pimentinha por aí, querida Márcia.
            Eu mesmo peguei a pimenta e pus na mesa.
            Ele comeu, repetiu, foi ao banheiro, escovou os dentes e, sem cerimônia, se deitou na nossa cama. Dormiu o resto da tarde. Quando a noite chegou, resolveu sair.
            - Uma pena que não conheço essas bandas. Daniel, meu bom poeta, acaso você não me deixaria no metrô?
            Conduzi-o até o metrô Itaquera.
            De madrugada, acordei com o som no volume máximo. Lá estava o hóspede ouvindo James Brown como se não houvesse vizinhos. Abaixei o som.
            - Tá maluco, as crianças estão dormindo. Olha os vizinhos!
            - Não esquenta, Meritíssimo, amanhã faremos o seu documentário. Vai ficar uma beleza, tu vais ver – de repente, eu tinha me tornado Juiz, Meritíssimo. Em breve ele me chamaria de Vossa Excelência.
            Dia seguinte, acordou por volta das onze. Na mesa, tinha uns frios, pão de forma, café, leite. Chamou-me de canto.
            - Escuta não tens umas frutas, não? Estou meio de ressaca. Uma melancia cairia bem, quiçá um suquinho de laranja? Um mamãozinho papaia, hum?
            Fiz o suco de laranja.
            - Sabe – ele disse – o gênio poético sempre incomoda. Imagine se você recebesse em casa um Baudelaire, um Lord Byron? Espero não estar sendo um hóspede inconveniente...
            - Hum, hum...
       Durante a tarde, monopolizou o computador e os controles da televisão da sala, estava interessado em um documentário. Assistia à tevê e fazia postagens no facebook... Ria alto, tirou a camisa, coçava a barriga. Márcia, eu e as crianças ficamos assistindo no quarto. Parecia o conto A casa tomada, do Júlio Cortázar.
            - Amanhã é segunda, todos temos de trabalhar, se quiser te deixo no metrô antes de seguir para o trabalho – comentei depois do jantar.
            - Não, que é isso? Jamais! Não se preocupe comigo. Estou bem. Eu me basto. Não preciso de ninguém para me fazer companhia. Eu me basto. Ainda tenho algumas coisas para resolver e nós ainda não fizemos aquele seu documentário.
            - Esquece o documentário, velho, não estou interessado.
            - Não, mas eu estou. Prometi para você e palavra de homem não faz curva.
            Deste modo, entre aperitivos, vinhos tintos, suquinhos de laranja, não tem um bolinho de chocolate aí? Uma semana inteira se passou.
            Sexta-feira à tarde. Chamei a Márcia num canto e falei...
            - Escuta, o nosso gênio não vai embora tão cedo. Vamos visitar seu irmão amanhã. É o único modo de dispensá-lo.
            Comunicamos a novidade ao hóspede.
            - Tudo bem, sem problemas. Então eu volto outro dia para fazer o documentário. É bom que a gente não perde o contato. Vocês me dão uma carona até a rodoviária?
            Dia seguinte, deixamos Dante Aleghieri na rodoviária. Tive de emprestar vinte reais para ele completar a passagem.
            Até as crianças respiraram aliviadas, o João poderia voltar a jogar videogame sossegado, a Sofia assistiria a seus programas prediletos na televisão e o PC ficaria desocupado para todo mundo por um tempo.
            Só uns três dias depois foi que percebemos as coisas que tinham sumido CD´s do Miles Davis, livros do Heidegger, Eduardo Viveiros de Castro, Jung, Deleuze, o DVD O rito do Bergman, o Fifa soccer 2014, do João, um par de meias da Sofia.
            - Nunca mais quero ver esse cara – falei, peremptoriamente.
Mas não é que o malandro me encontrou meio alegre num evento, encheu meu copo mais algumas vezes com bebida alheia e foi parar lá em casa outra vez? E dessa vez, eu mesmo convidara o vampiro. Mas isso já é outro capítulo.
            Ficou faltando tratar do Cornélio Cunha, o deprimido. Fica para a próxima também. Será a primeira crônica de 2017.
            Quanto ao documentário? Estou esperando até hoje. Espero que o Archiello Mariel não leia esta crônica e resolva aparecer para realizá-lo.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Ferida, fissura e escrita

“Há em tudo uma rachadura. É assim que a luz entra.” – Leonard Cohen

Fender, fissurar, trincar, rachar a esfera  para que tanto a luz quanto a placenta possam entrar. Destruir para que o novo encontre passagem. Chega de planos, Pokémons, cupcakes, prêmios aos adestrados, shopping mall, high tech, ambientes excessivamente higienizados, esterilizados, vidas de plástico, revoluções de fachada, café descafeínado, cerveja sem álcool, tabaco orgânico, frutas desidratadas. Alguém ainda fode neste mundo? Por uma vida que ouse acabar. Por uma arte que acolha a catástrofe. Trincar a esfera, quebrar o conforto, furar a bolha, atravessar o oco. Outros já traçaram topografia deste lugar: penso em Duras, Margueritte. Seguir até o fim e aceitar o risco da dispersão, da desindividuação, do esfacelamento. Mergulhar no buraco negro de Artaud, não no de Caroll. Seguir artistas que foram atravessados pela linha que dissolve o eu; não na morte, mas ainda em vida: Fitzgerald, Lowry, Duras, Blanchot, Deleuze. Celebrar a ferida e o riso, feito carta zero do tarô. Cantar a fenda e a fissura; o drible na morte que engendra o novo na arte. Escrever na vizinhança da morte, entortá-la feito zagueiro russo. Nada de cãezinhos dóceis, gorjeta para os confortáveis. Aqui, desembocam os fora-da-lei, os larápios, os pederastas, as putas, os ébrios; ainda que de água cristalina.
Este trabalho pretende, portanto, cartografar a fissura – ferida em linha reta – enquanto conceito, cujo surgimento ocorre em O livro por vir, de Maurice Blanchot.
Num dos ensaios presente neste livro, o qual trata da escrita de Artaud, Blanchot escreve que, em Artaud, o que é primeiro não é a plenitude do ser, mas a fenda e a fissura. A fissura seria um estado no qual o possível procederia do impossível; condição sine qua non do pensamento e da criação artística: porque, embora nos dias de hoje não pareça, a arte pensa. Investiguemos, pois, Artaud e a fissura que se inscrevia em sua pele por meio da pergunta: afinal, o que é pensar?

Artaud e a Fissura
                Em um dos ensaios da segunda parte, intitulada A questão literária, de O livro por vir, Maurice Blanchot aborda a obra de Antonin Artaud. Segundo Blanchot, Artaud, aos vinte e sete anos envia alguns poemas a uma revista. O diretor da revista recusa polidamente.  Diante da negativa, Artaud insiste, explica que sofre de tal abandono de pensamento que não pode negligenciar as formas, mesmo que insignificantes, conquistadas a partir desta inexistência central. Segue-se uma troca de cartas entre o jovem poeta e Jacques Rivière, o diretor da revista que, em vez de publicar os poemas, propõe a publicação das cartas. Artaud aceita e os poemas, a princípio impublicáveis, tornam-se publicáveis como testemunho, conectados às cartas que narram a experiência de sua confecção e de sua insuficiência: “Como se o que lhes faltava, seu defeito, se tornasse plenitude e acabamento pela expressão aberta do que falta [aos poemas] e pelo aprofundamento de sua necessidade. Mais do que pela própria obra, é certamente pela experiência da obra, pelo movimento que conduz a ela, que Jacques Rivière se interessa, e pelo rastro anônimo, obscuro, que ela representa inabilmente.” [1]
                Mais do que a obra acabada, o que importa aqui é o movimento que leva à obra, a experiência que a ela conduz. Como disse e fez Gombrowicz, a literatura está antes do lado do inacabado que da obra feita.
            Segundo Blanchot, durante a correspondência, Rivière busca tranquilizar o jovem poeta, afirmando que o futuro dará aos poemas de Artaud a coerência que lhes falta. Artaud, entretanto, não deseja ser tranquilizado e deseja muito menos que seus textos sejam coerentes. Ele está em contato com algo tão latente, violento, caótico e pulsante que não pode sequer imaginar sua atenuação. Não foi por acaso que escreveu mais tarde Van Gogh o suicidado pela sociedade. Não há como falsear certo equilíbrio, coesão ou coerência. Os poemas de Artaud estão diretamente ligados à erosão de seu pensamento, ao que ele chama de impossibilidade de pensar. É neste vazio de pensamento que o poema se diz. Aquele que escreve corre o risco de ser tragado, engolido pelo seu próprio desmoronamento. Não é o caso de um lance de dados, que se faz em ambiente higiênico e limpo, num cassino, entre homens de fraque, mas de uma roleta russa. Aquele que vive na iminência do poema corre sempre o risco de perder-se, tragado pela morte ou pela loucura. A palavra não é a corda pela qual se pode sair do abismo, mas os restos de embarcações, pequenas lascas e tábuas, às quais aquele que escreve se agarra ao transitar por isto que chamamos abismo, sem-fundo, buraco negro, e que também é o caos, a loucura e a morte. O pensamento pode a qualquer momento partir-se feito um copo. “É como se Artaud tivesse tocado inadvertidamente e por um erro patético, que provoca seus gritos, o ponto em que pensar já é sempre não poder ainda pensar.”[2] Trata-se de uma experiência limítrofe. Este nada no qual o pensamento se instala é justamente a fronteira entre a vida e a morte, entre o virtual e o atual, entre o sentido e o não-sentido, entre o silêncio e a palavra; é o lugar que separa os poemas repousando em estado de dicionário e a caneta deslizando no papel para rabiscar a palavra ainda vazia, mas já recolhendo o sentido enquanto o poema se faz. O exato momento em que aquele escreve toca a ponta da caneta e depois já não toca mais e novamente volta a tocar, criando pequenas fissuras no papel, até que dá o poema por terminado, porque a fonte da qual ele recolhe o poema está vazia e por ser vazia é, ao mesmo tempo, incessante. Ao olhar as palavras lançadas sobre a superfície branca, elas não são mais apenas palavras, estão cheias de algo indescritível que desloca aquele que lê para além de si e o conduz àquele mesmo nada, que ao mesmo tempo é fonte, ao qual o poeta fez visita. Por isto, Artaud não renega seus poemas mesmo mancos, porque eles são as indicações que conduzem aquele ponto no qual pensar, é sempre já não poder ainda pensar. E isso atravessa o corpo e causa buraco feito bala de grosso calibre.
            Para Artaud, a poesia é a palavra oriunda desta espécie de erosão ao mesmo tempo fugaz e essencial do pensamento. Aqui, já não há separação entre autor e eu-lírico – seja lá o que isto queira dizer -, vida e criação artística, poeta e homem.  A literatura não é um reflexo da vida, uma falsificação, mas a criação da verdade. A escrita é um fluxo que atravessa a vida e a vida é um fluxo que atravessa a escrita. Escrever é muito perigoso. Sem o risco e o risco é a própria fissura, nada de novo pode irromper no mundo. A escrita não é a expressão de um eu sólido, blindado, mas de uma subjetividade trincada, porosa, pela qual a morte, expressão maior da ausência de eu, encontra passagem. Então, no ápice desta experiência limite e limítrofe - posto que o poema é a fronteira móvel entre o ser e o caos, a vida e a morte, a lucidez e a insanidade - o que vem antes não é a saúde, mas o corte e a ferida. “O que é primeiro não é a plenitude do ser, é a fenda e a fissura, a erosão e o dilaceramento, a intermitência e a privação corrosiva. Ser é não ser, é esta falta do ser, falta viva que torna a vida desfalecente, inacessível e inexprimível, exceto pelo grito de uma feroz abstinência.”[3]
            A poesia de Artaud é este grito de uma feroz abstinência; o ruído que escapa pela fissura. Querer buscar no grito de uma subjetividade dilacerada coerência... Coesão... É pura incompreensão, é esperar que, com o tempo, um submarino levante voo. É colocar um escritor de verdade, numa oficina de escrita literária, na qual o professor de escrita criativa grifa em vermelho as palavras repetidas.

A Fissura se ramifica

            Em seu ensaio La pensée du dehors, le dehors de la pensée: Blanchot, Foucault, Deleuze, Peter Pál Pelbart chama Blanchot de cantora Josefina da filosofia francesa no pós-guerra. Do mesmo modo que a personagem kafkiana é objeto de admiração por parte do povo dos camundongos - os quais sentem precisar de sua voz para se reunir, mas não compreendem o que em tal voz é tão especial, nem ao menos se é especial, posto que o canto mais parece um gemido -  também Blanchot é objeto de admiração e parece servir de inspiração a diversos artistas e pensadores franceses da segunda metade do século XX. Podemos observar o abalo que a leitura sedutora de Blanchot sobre autores como Hölderlin, Sade, Lautréamont, Nietzsche e Artaud provoca em pensadores como Foucault, cujo livro A História da Loucura, nas últimas páginas, evoca exatamente o mesmo time de autores para ilustrar o pensamento do Fora e o espaço rarefeito no qual o sujeito está ausente e que caracteriza tanto o espaço literário, quanto o lugar indomável da loucura.
            E, se encontramos ressonâncias do pensamento blanchotiano em um teórico como Foucault, que dizer então do seguinte comentário da escritora Margueritte Duras, a respeito de a escrita ser este possível que brota do impossível, este processo pelo qual, por meio do vazio, da ausência de ser ou do desmoronamento, brota a palavra, o outro de todos os mundos?
“Escrever.
Não posso.
Ninguém pode.
É preciso dizer: não se pode e se escreve.[4]
            Da mesma forma que, para Artaud, o pensamento brota da impossibilidade de pensar, para Duras, a escrita se faz a partir da impossibilidade de escrever; do puro desespero de olhar a página e ter de enfrentar o caos; apagando, aos poucos, palavras de ordem, lugares-comuns, restos de clássicos...
            Blanchot: Josefina, a cantora do pensamento francês no pós-guerra, justamente o momento em que Gilles Deleuze está produzindo sua obra.
            Em Lógica do sentido, Deleuze retoma o tema da fissura em dois momentos. Primeiro, na vigésima segunda série Porcelana e Vulcão, na qual trata da fissura nos escritores Malcolm Lowry e, principalmente, Scott Fitzgerald; em seguida, no apêndice, onde aborda o tema da fissura na obra de Zola. Visitemos, em primeiro lugar, F. Scott Key Fitzgerald.

Porcelana fissurada, ou Fitzgerald e a fenda

            Na década de 1930 do século passado, a situação do escritor norte-americano F. Scott Key Fitzgerald era caótica. Sua esposa Zelda estava internada em uma instituição psiquiátrica em virtude de intensos e contínuos surtos esquizofrênicos. Fitzgerald, por seu turno, afundava em problemas financeiros e se entregava sem amarras ao alcoolismo. Uma década antes, o jovem Fitzgerald despontava como um escritor de primeiro escalão, porta-voz de uma geração; a pena de uma era de excessos: a era do jazz.
            É nesta situação de profundo desespero que Fitzgerald enfrenta os últimos anos de sua vida. E é também sob o signo de tal desespero que ele escreve seu melhor trabalho, o Crack-up, no qual está entalhada a célebre e trágica sentença que fascinou tanto a Deleuze quanto a Cioran: “É claro que toda vida é um processo de demolição.”[5] O que mais chamou a atenção de Deleuze foi a firmeza afirmativa impressa à frase por meio do vocábulo “claro”. A sentença de Fitzgerald não tem um tom melancólico, muito menos ressentido, antes opera uma constatação: “É claro que toda vida é um processo de demolição.” Há aqui um sim, sim trágico, nietzschiano, estoico que não se lamenta, não nega, mas caminha decidido para a demolição, amando seu destino. Segundo Deleuze: “Poucas frases ressoam tanto em nossa cabeça com este ruído de martelo. Poucos textos têm este caráter irremediável de obra-prima e de impor silêncio, de forçar uma aquiescência atemorizada, tanto como a curta novela de Fitzgerald. Toda a obra de Fitzgerald é o desenvolvimento único desta proposição e, sobretudo, de seu ”obviamente”.” [6]

            O obviamente e o É claro são o mesmo, mas a palavra passa por um processo de mutação durante as traduções. O of course, de Fitzgerald passa para bien entendu em francês, daí ao português como obviamente.
            Fitzgerald, é claro, sabe do que está falando. Ele sentiu na vida, no corpo, o acontecimento da fissura. Ele ouviu o ruído, o crack que o partiu feito porcelana. Curiosamente, é a partir deste desmoronamento que o autor mais importante da era do jazz produz sua obra mais importante. Por um lado, escreve o estudo autobiográfico intitulado Crack-up; por outro, redige aquela que alguns críticos consideram sua obra ficcional mais bem acabada: Suave é a noite.
            A partir da impossibilidade de escrever, o autor passa a escrever para além de suas possibilidades. O possível, por meio da fissura, brota do impossível. O par não é, pois, possível/impossível, mas virtual/atual. Volta a ressoar em nossos ouvidos, com uma insistência de martelo, as estacas de Margueritte Duras:
            Escrever.
            Não posso.
            Ninguém pode.
            É preciso dizer, não se pode e se escreve.
            Voltemos a Fitzgerald.
            O ano de 1935 talvez tenha sido o pior de toda a vida de Scott. O autor de O grande Gatsby se sentida solitário, doente, bebia demais, tinha despesas e dívidas imensas, era atormentado pela insônia e o pior: não conseguia mais escrever. Como afirmou em Crack-up, a cartola do mágico estava vazia.
            Segundo Sheilah Graham, amante de Fitzgerald nos últimos tempos, Arnold Gringrich, redator chefe da revista Esquire, para a qual Fitzgerald escrevia, contou a ela, certa vez, como os textos que compõem o Crack-up foram escritos.
“Arnold disse a ele, “Scott, eu preciso receber um manuscrito seu, pois nossos auditores estão no meu pé, querendo saber o motivo pelo qual eu o pago. Mesmo que você faça como Gertrude Stein, mesmo que você preencha uma dúzia de páginas dizendo ‘Eu não posso escrever, eu não posso escrever, eu não posso escrever’, por umas quinhentas vezes, pelo menos, eu poderei dizer que em tal data um manuscrito chegou de F. Scott Fitzgerald. Eu terei alguma coisa em meus arquivos para provar que você está trabalhando para nós. Caso contrário, terei de parar de enviar dinheiro a você.”
Scott prometeu que tentaria. “Tudo bem.” Ele disse. “Eu vou escrever alguma coisa. Eu posso escrever sobre o fato de não poder escrever.”  O resultado foram os esboços do Crack up e, mais tarde, a série “Tarde com um autor”, que Arnold publicou na Esquire como ficção.” [7]
                Como podemos observar, pressionado por seu editor, a quem havia muito tempo não enviava texto algum, Scott finalmente decide escrever sobre o fato de não poder escrever.
            Uma das características da fissura é que ela se instaura a partir de um vazio, de um desmoronamento, de um tal esgotamento que torna o pensamento impossível. No entanto, é este mesmo desmoronamento, este esgotamento físico e espiritual, que torna possível a escrita, aquela escrita que não é a expressão de um ego, mas da passagem por um lugar sombrio.

Deleuze e a fissura

            Em Deleuze, a fissura se faz acontecimento. Isto quer dizer, em Lógica do Sentido, que ela, a fissura, tem dois polos: um ligado à superfície metafísica, outro ligado à profundidade dos corpos; um ligado ao virtual, outro ligado ao atual; um ligado ao tempo designado aion, outro ligado a chronos. Assim, a fissura tem sempre um duplo aspecto. Por um lado é silenciosa, sub-reptícia, sorrateira; faz seu trabalho na penumbra, tem a ver com a superfície e os incorporais. Por outro lado, a fissura é ruído, é o crack, tem a ver com o acidente, com o estado de coisas, com a profundidade dos corpos.
            É interessante notar que ocorre em Lógica do sentido uma inversão em relação a Diferença e repetição. Grosso modo, em Diferença e repetição, a profundidade está ligada ao virtual, enquanto que a superfície está ligada ao atual. Em Lógica do sentido, ocorre o contrário, a superfície conecta-se ao virtual, aos incorporais; enquanto que a profundidade conecta-se ao atual, aos corpos.
            No Crack-up, Fitzgerald também nos fala de dois tipos de golpes que nos quebram. Um de origem interna e outro de origem externa.
            Por um lado há “os golpes que realizam o lado dramático dessa obra de decomposição, os grandes golpes repentinos que surgem ou parecem surgir do exterior, aqueles dos quais nos lembramos e aos quais culpamos por tudo e que, em momentos de fraqueza, contamos a nossos amigos, não mostram seu efeito logo de cara.”[8] Por outro lado: “Há uma outra espécie de golpe que vem de dentro, que não sentimos até ser tarde demais para fazer qualquer coisa, até percebermos de alguma forma decisiva que, em alguns aspectos, nunca mais seremos os mesmos.” [9]
            Segundo Fitzgerald, há uma diferença de natureza entre os dois tipos de ruptura. A primeira espécie “parece acontecer rapidamente; a segunda acontece quase sem notarmos, mas é com certeza percebida de súbito.”[10]
            Fitzgerald parece distinguir dois tipos de fissura, Deleuze, entretanto, enxerga os dois processos como dois lados da mesma fissura. Nem interior, nem exterior, mas incorporal e corporal: “Quando Fitzgerald ou Lowry falam desta fissura metafísica incorporal, quando nela encontram, ao mesmo tempo, o lugar e o obstáculo de seu pensamento, a fonte e o estancamento de seu pensamento, o sentido e o não-sentido, é com todos os litros de álcool que eles beberam, que efetuaram a fissura no corpo. Quando Artaud fala da erosão do pensamento como de alguma coisa essencial e de acidental ao mesmo tempo, radical impotência e, entretanto, autopoder, já o faz partindo do fundo da esquizofrenia. Cada qual arriscava alguma coisa, foi o mais longe neste risco e tira daí um direito imprescritível.”[11]
            O artista é um ser disposto a arriscar tudo, o juízo, a saúde, a juventude, a vida. Deve ser por isso que nem todo mundo é artista, embora todos gostem da festa e da grana. Poucos estão dispostos a correr tamanho risco. No entanto, sem este risco não há arte, mas show de celebridade, revista de fofoca, prêmios literários, galerias de arte, a indústria do livro. É contra tudo isto, contra esta imitação de ferida e fissura que Artaud se volta por meio de se teatro da crueldade. Como afirmou Deleuze acertadamente; cada qual foi o mais longe no risco e acabou por tirar daí um direito imprescritível: o direito de dizer.
            No texto Zola e a fissura, Deleuze diz claramente que a fissura é a própria morte. E, assim, como bem descreveu Blanchot, a morte tem sempre um duplo aspecto. Por um lado, é a morte incorporal, aquela que nos acompanha desde o nascimento e à qual nunca chegamos, pois, uma vez que ela se atualiza, nós já não estamos. Por outro lado, é também a morte ligada aos corpos, é a bala de revólver, uma veia que estoura no cérebro, o escorregão na casca de banana – a cabeça no meio fio.
            Segundo Deleuze: “O que a fissura designa ou antes o que ela é, este vazio, é a morte, o instinto de morte. Os instintos podem muito bem falar, fazer barulho, agitar-se, não podem é recobrir este silêncio mais profundo, nem esconder aquilo de que saem e no qual entram de novo: o instinto de morte, que não é um instinto entre outros, mas a fissura em pessoa, em torno da qual todos os instintos formigam.” [12]
            Deleuze afirma indubitavelmente que a fissura é o próprio instinto de morte. Uma questão, que pode ser dividida em três partes, coloca-se a partir de tal afirmação: 1º) Por que a fissura é então necessária? Por que a saúde não é o bastante?  2º) Deleuze jamais fez apologia da morte pela morte, como então ter contato com a fissura sem, entretanto, falecer de fato? 3º) Seria possível manter a insistência da fissura incorporal evitando, ao mesmo tempo, encarná-la na profundidade do corpo?
            Quanto à primeira parte da questão: por que a fissura é necessária? Por que a saúde não basta? Deleuze responde que a fissura é necessária porque nós nunca pensamos a não ser por ela e sobre suas bordas e “tudo o que foi bom e grande na humanidade entra e sai por ela, em pessoas prontas a se destruir a si mesma e que é antes a morte do que a saúde que se nos propõem.”[13]        
Há uma conexão entre o risco, a fissura e a criação. Criação e conforto são palavras que se repelem. À fissura constitui o perigo de se espatifar, como Fitzgerald, ou de tornar-se completamente inerte, amorfo, feito o Nietzsche final. Deleuze afirma que a fissura é o próprio instinto de morte. Entretanto, em toda filosofia deleuziana não encontramos glorificação do niilismo, exaltação da morte pela morte. Se a fissura se resumisse a um caso de desmoronamento, não interessaria a Deleuze, como interessa a Cioran, um pensador mais desesperado. A fissura é interessante porque permite pensar como uma impossibilidade se torna possibilidade: Fitzgerald escreve o Crack-up sobre o fato de não poder mais escrever. Ela, a fissura é o meio pelo qual a aniquilação e o esgotamento se tornam criação. A fissura é assim uma exigência de transformação pela qual se tem de passar, ela não é só destruição, embora envolva o risco de morte, de loucura, de aniquilação total. Como Lowry escreve em À sombra do vulcão: “é espantoso, quando se pensa nisso, como o espírito humano parece florescer, na sombra do matadouro”. [14]
            Como então permitir que a criação, que algo de novo e bom, surja à sombra da morte? À sombra do matadouro? De que maneira podemos ter contato com a fissura sem nos destruirmos totalmente? De que modo podemos criar uma contra-efetuação à fissura? Como não nos aniquilarmos, mas driblarmos a morte e criarmos em nós mesmos uma nova potência? Como esta fissura, longe de significar simplesmente a morte, pode ser o início de outra coisa?
            A todas estas questões, Deleuze não responde de forma peremptória. O filósofo não dá conselhos, nem oferece caminhos únicos, mas sugere prudência. A boa e velha prudência de Espinosa. Além disso, deve haver um modo de chegar aos mesmos efeitos que as drogas ou o álcool podem proporcionar por caminhos naturais. Foi o que o beatle George Harrison, por exemplo, buscou na cultura oriental.
            Em Lógica do sentido, tal busca é relacionada a uma esperança e se coloca nos seguintes termos: “Não podemos renunciar à esperança de que os efeitos da droga ou do álcool (suas “revelações”) poderão ser revividos e recuperados por si mesmos na superfície do mundo, independentemente do uso das substâncias, se as técnicas de alienação social que o determinam são convertidas em meios de exploração revolucionários. Burroughs escreve sobre este ponto estranhas páginas que dão testemunho desta grande Saúde, nossa maneira de ser piedosos: “Imaginai que tudo o que se pode atingir por vias químicas é acessível por outros caminhos…” Metralhamento da superfície para transmutar o apunhalamento dos corpos, ó psicodelia.” [15]
            Buscar os efeitos sem o abuso das substâncias. Poder embriagar-se com um copo de água, com as cores do crepúsculo. Embriagar-se de vinho, virtude ou poesia, mas ir até o fundo, correr o risco, experimentar: encontrar a terceira margem de si mesmo.

            À guisa de conclusão

Se neste trabalho nos propusemos abordar a obra de escritores e teóricos que, de certo modo, correram o riso e o risco de sua escrita é porque percebemos que o espetáculo, que sempre fez parte de tudo o que se refere à arte, cada vez ganha mais relevância, deixando o texto, a topologia, a arte, o registro da passagem por um lugar perigoso, em segundo plano. Se escrevemos um livro e nos dão dinheiro por isto, é bom, todos temos de sobreviver. Ninguém aqui é pregador de igreja protestante. Agora, se escrevemos um livro para ganhar dinheiro, isto é nefasto. E, quando abrimos os jornais ou revistas para ler alguma resenha, o que vemos retratado é o pseudo-espetáculo de uma vida pseudo-perigosa: do escritor que supostamente fumava pedra, da autora que fazia programas, do rapaz que lavava pratos em Londres... E nada disso tem cheiro de sinceridade, nada disso tem cheiro de ferida: as palavras não sangram, é só  entretenimento. O que tentamos fazer foi resgatar vidas e escritas pulsantes. Gente que escreveu com uma sinceridade absurda[16] e que pagou um preço por irem até onde foram. Que pode escrever alguém que nem sequer chegou a viver? Que bebe café descafeínado? Que mal fode e fode mal: tem nojo do cu do outro. Que nunca indagou seu nome eterno? Que nunca correu risco algum? Palavras, apenas, palavras pequenas e a literatura está sempre muito além das palavras. Um brinde a Fitzgerald, Artaud, Lowry e Duras.


[1]BLANCHOT, 2005 , p.47-48
[2] BLANCHOT, 2005, p. 50
[3] BLANCHOT, 2005 , p.53
[4] DURAS, 1994 , p.47
[5] FITZGERALD, 2007, p. 72
[6] DELEUZE, 2011,  p.157
[7] GRAHAM; FRANK, 1959 , p.157
[8] FITZGERALD, 2007, p. 72
[9] Idem, Ibidem, p. 72
[10] Idem,  Ibidem,, p. 72
[11] DELEUZE, 2011, p. 160
[12] DELEUZE, 2011, p. 336
[13] Idem, Ibidem, p.164
[14] LOWRY, 2007, p.94
[15] DELEUZE, 2011, p. 164-165
[16] A sinceridade é a única forma de escrever que jamais sai de moda.

Bibliografia

ARTAUD, Antonin. Linguagem e vida. São Paulo: Perspectiva, 1995.
 ________. O teatro e seu duplo. São Paulo: Max Limonad, 1987.
_________. Os Tarahumaras. Lisboa: Relógio D’Água, 2000.
BERGSON, Henri. Matéria e memória. Trad. Paulo Neves. 2 a ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
BLANCHOT, Maurice. A conversa infinita.  Trad. João Moura Jr. São Paulo: Escuta, 2010.
________. O livro por vir. Trad. Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
________. O espaço literário. Trad. Álvaro Cabral.  Rio de Janeiro: Rocco, 2011.
________. De Kafka à Kafka.  Paris: Gallimard,  1981.

_______. Diferença e repetição. Trad. Luiz Orlandi e Roberto Machado. São Paulo: Graal, 1988.

_______. Cinema II: a imagem-tempo. Trad. Eloisa de Araújo Ribeiro. São Paulo: Brasiliense, 2013.

_______. Conversações. Trad. Peter Pál Pelbart. São Paulo: Editora 34, 1992.

________. Crítica e Clínica. Trad. Peter Pál Pelbart. São Paulo: Editora 34, 1997.

_______. Lógica do sentido. Trad. Luiz Roberto Salinas Forte. São Paulo: Perspectiva, 2011.
_______. Nietzsche e a filosofia, Trad. Ruth Joffily e Edmundo Fernandes Dias. Rio de Janeiro: Editora Rio, 1976.

DELEUZE, Gilles e PARNET, Claire. Diálogos. Trad. Eloísa Araújo Ribeiro. São Paulo: Escuta, 1998.
DELEUZE, Gilles e GUATARRI, Félix. Kafka: por uma literatura menor. Trad. Cíntia Vieira da Silva. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2014.
_______. Mil Platôs – volume 2. Trad. Ana Lúcia de Oliveira e Lúcia Cláudia Leão. São Paulo: Editora 34, 2011a.
_______. O anti-édipo: capitalismo e esquizofrenia. Trad. Luiz B.L. Orlandi. São Paulo: Editora 34, 2011.
_______. O que é filosofia? Trad. Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Muñoz. São Paulo: Editora 34, 2010.
DURAS, Marguerite. Escrever. Trad. Rubens Figueiredo. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
_______. Moderato Catabile. Rio de Janeiro: José Olympio, 1985.
_______. O amante. Trad. Aulide Soares Rodrigues. Rio de Janeiro: Rio Gráfica, 1986.
_______. O amante da China do Norte. Trad. Denise Rangé Barreto. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.
FITZGERALD, F.S. Afternoon of an Author. London: The Bodley Head, 1958.
_______. Tender is the night. London: Penguin, 1997.
_______. The Collected Short Stories of F. Scott Fitzgerald. London: Penguin, 1986.
_______. Crack-up. Trad. Rosaura Eichenberg. Porto Alegre: L&PM, 2007.
_______. The Great Gatsby. London: Penguin, 1994.
_______. O Grande Gatsby.  Trad. Breno Silveira. São Paulo: Abril Cultural, 1980.
FOUCAULT, M. História da loucura. Ed. Perspectiva – São Paulo, 1978.
_______. Ditos & escritos. Problematização do sujeito: psicologia, psiquiatria e psicanálise. Vol. I. Ed. Forense Universitária – Rio de Janeiro, 1999.
_______. Ditos & escritos. Arquelogia das ciências e história dos sistemas de pensamento. Vol. II. Ed. Forense Universitária – Rio de Janeiro, 2000.
_______. Microfísica do poder. 15a Ed. Graal – Rio de Janeiro, 2000.
_______. Vigiar e punir. Nascimento da Prisão. Trad. Raquel Ramalhete. 23a Ed. Vozes – Rio de Janeiro, 2000.
GRAHAM, Sheilah; FRANK, Gerald. Beloved Infidel, New  York: Bantam Books, 1959.
LINS, Daniel. Antonin Artaud: o artesão do Corpo sem Orgãos. Ed  Relume Damurá – Rio de Janeiro, 1999.
LOWRY, Malcolm. À sombra do vulcão. Trad. Leonardo Fróes. Porto Alegre. Rio de Janeiro, 2007.
MICOLETE, Hervé et GELAS, Bruno at al. Deleuze et les écrivains – littérature et philosophie. Nantes: Éditions Cécile Defaut, 2007.
PELBART, Peter P.Cartografias do Niilismo: Cartografias do esgotamento = Cartography of exhaustion nihilism inside out. N-1 Edições. São Paulo, 2013.
PELBART, Peter P. O tempo não-reconciliado. Imagens de tempo em Deleuze. São Paulo: Perspectiva, FAPESP, 1998.
WESTBROOK, Robert. Mentiras íntimas: F Scott Fitzgerald e Sheilah Graham. Trad. Gabriela Máximo. Rio de Janeiro: Record, 1997.